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terça-feira, 17 de abril de 2012

O Nada Também Acontece

Chirico - O Enigma da Hora (1911)

Hoje queria contar-vos coisas terríveis, absurdas, abomináveis, incómodas ou imprevistas, como aquela cena do cão que mordeu o dono com os dentes da alma que não tem ou a do político que se suicidou com o veneno do vazio das suas causas ou a do homem que implodiu em plena rua com a força da raiva reprimida. Da fome que vai pelo mundo e dos que exploram a fome do mundo, dos estilhaços de bomba dos desesperados da terra, das sopas de letras dos poetas em défice de engenho e arte, das galinhas poedeiras a desgastar as unhas nas pranchas  soletradas pelos burocratas da Desunião Europeia, dos amantes enlouquecidos que brotam ácido sulfúrico no rosto dos amados, da resignação colectiva face aos fados e factos dos grandes poderes financeiros, da pobreza desta nossa democracia a esmolar nas ruas da desdita, dos políticos que dizem que sim mas que não, dos banqueiros que bancam as nossas desgraças, dos desempregados a apodrecer nas praças de fome e solidão. Da Síria ou da Guiné com as suas guerras fratricidas, do Inverno que nos tolhe em plena Primavera, dos fardos de solidões no silêncio dos casarios. Ou mesmo o mais comezinho: a última operação plástica ao rosto nefelibata da Lili, milagre caseiro do eterno rejuvenescimento, ou a medalha de ouro a atribuir ao corredor de fundo Mota Engil, pelos briosos actos cívicos em glória da pátria. Mas hoje não sou capaz. O nada tolhe-me os movimentos, o nada cala em mim os gestos deste mundo sem rumo. Como se nada de importante estivesse a acontecer, como se tudo se resumisse a este vazio interior. Hoje de facto nada aconteceu para mim. Apenas aconteceu o silêncio rumoroso de o dizer.   

domingo, 24 de abril de 2011

Ainda a Violência Juvenil: as Praxes Académicas

Henri Rousseau - A Guerra (1894)
Nos meus tempos de estudante universitário, na Universidade de Lisboa, a tradição das praxes era inexistente. Outros tempos, outros modos de estar. A iniciação académica era feita na luta contra o poder totalitário que  nos tolhia o corpo e o espírito. Nem todos o faziam, por comodismo ou acomodação aos ritmos do regime, diga-se em abono da verdade. Mas os “associativos” volta e meia lá andavam às turras com as autoridades académicas ou com as policiais: greves e confrontos faziam parte cíclica do ano escolar. Éramos definitivamente do contra. Alguns professores apoiavam-nos, outros silenciavam-se e alguns chegavam mesmo a confrontar-nos militantemente. Eram uma minoria felizmente. Um dia aconteceu mesmo uma cena burlesca. Estávamos em greve, e por vezes acontecia alguns colegas furarem a dita, o que levava os mais activistas a reagir. Numa aula do Professor Borges de Macedo, sabendo da presença de três colegas na sala de aula, resolvemos intervir para informá-los das razões da greve (uma intervenção brutal da polícia de choque contra os estudantes reunidos na Cantina Universitária). Quando tentámos abrir a porta, deparámos com a inesperada  resistência do professor. Nós a pressioná-la do lado de fora, e ele a fazê-lo do lado de dentro. Empurrávamos nós, empurrava ele. Até que a nossa superioridade numérica – éramos três – levou de vencida a tenaz resistência docente. Entrámos, ante a fúria professoral,  e informámos os colegas,  talvez distraídos, e lá saímos todos da aula. Claro que algum tempo depois chegava a polícia de choque. Em vão, porque avisadamente já nos tínhamos escapulido da Faculdade. Era  este o nosso ritual de “praxe” universitária.
Cerca de uma década depois do 25 de Abril, as praxes foram-se generalizando no meio universitário, mesmo em escolas onde nunca houve tal tradição. O inimigo passou a ser o caloiro. Instalou-se de novo uma hierarquia do poder entre os estudantes: veteranos, menos veteranos e caloiros. A iniciação passava pelo vexame dos novatos, nuns casos  mais ligeiro, noutros pelo exercício alarve da violência. As provações eram uma condição de acesso a um novo modo de ser e de estar e um prazer mórbido para os mandantes. A anulação “carnavalesca” da individualidade do caloiro, a sua niilização, era simultaneamente o simulacro da morte da sua anterior autonomia e um momento ritualístico necessário à sua entrada no "reino dos deuses": ser nada como virtualização de uma nova identidade.  Os excessos foram exorbitando de tal modo que  tais praxes vieram mesmo a ser proibidas pela direcção de algumas escolas.
Todo este arrazoado prende-se com o noticiado pela imprensa na segunda semana deste mês de Abril. Na catolícíssima cidade de Braga, alunos da também Católica Universidade viraram a sua praxe para o exterior da instituição: o alvo principal do seu viril poder passou a ser o universo dos sem-abrigo, habitantes de zonas do centro da cidade. Em surtidas nocturnas, os caloiros teriam sido obrigados pelos veteranos a agredir os vagabundos da noite, com tal sadismo que uma das vítimas viria a morrer.
O principal suspeito, um jovem de 20 anos, é aluno de Ciências Sociais, o que torna ainda mais absurda a violência do seu acto. A sua área de formação deveria,  pela sua especificidade epistemológica e ética, levá-lo a entender os condicionalismos socio-psicológicos que arrastam os seres para a exclusão social e para formas extremas de degradação, embora isso não signifique a perda da sua dignidade enquanto pessoas. Algo parece falhar nos processos educativos deste jovem, isto no mero plano da racionalidade, pois a cena aparenta ter sido a caricatura dum acto trágico de desmesura (a hybris grega) e uma variante machista do caos “dionisíaco”. O colectivo, convenientemente ébrio, comanda os impulsos individuais para lá de qualquer forma de racionalidade. Destruir o outro é um modo de afirmação viril que tem no colectivo e nos seus líderes o espelho da legitimação. Como observámos atrás,  humilhar o outro, retirar-lhe a sua individualidade, sempre foi o móbil da maioria das praxes, como condição de acesso a um novo estatuto social. Muitos rituais de iniciação têm uma componente de violência exorcista, inserindo-se estas praxes, pois, neste território imaginário. Mas o pretexto iniciático  é aqui muitas vezes superado pelo exercício da violência gratuita, um mero prazer pelo poder de humilhar ou destruir  o outro. Um caso extremo destes rituais de dominação radicalizada está bem representado no filme Salo ou os 120 dias de Sodoma de Pasolini, uma adaptação do romance de Sade aos tempos crepusculares do fascismo italiano. Claro que as nossas provincianas praxes não atingem tais limites de horror, mas o paradigma é o mesmo: o exercício sádico do poder, o que pressupõe a ausência de quaisquer regras éticas. Nos casos mais graves, as vítimas ficam para sempre tatuadas por esses traumas psico-sociológicos, e chegam mesmo a ter de mudar de instituição escolar ou a recorrer sem efeitos práticos à Justiça.
No evento de Braga, o mais surpreendente reside no facto de essa violência das “praxes nocturnas” sugerirem também um ódio social contra aqueles que a sociedade atirou para o lixo. Ou seja, um acto hostil que transita das fronteiras universitárias para o espaço público. Com a agravante de não ser um acto fortuito mas continuado pelo menos durante dois meses. É com perplexidade que vemos estudantes de sociologia e de filosofia terem este comportamento “terrorista”. Que amor à sabedoria é o seu?
Certamente nunca leram os livros dos seus filósofos curriculares, é urgente que alguém os ensine a ler: a nossa liberdade acaba, quando eliminamos a dos outros. É um lugar-comum dizê-lo, mas neste caso tem toda a pertinência repeti-lo até à exaustão. Estes são sinais preocupantes do estado da nossa democracia, embora saibamos que a grande maioria dos nossos jovens não se revê neste quadro de desumanidade localizada.