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segunda-feira, 19 de março de 2012

O Estado das Coisas: a Ressurreição Etílica de Salazar





“Mas passa pela cabeça de alguém que eu queira vender a ideologia? Eu quero é vender o vinho!”
João Lourenço, Presidente da Câmara de Santa Comba Dão (Público, 17-3-2012)



Salazar já não é apenas o ditador “iluminado” que nos governou, entre 1932 e 1968, agora é (será) também uma marca de vinhos made in Santa Comba Dão. Isto é, um símbolo da nacionalidade, da terra, ou, dito de outro modo, do sangue e do solo lusitanos, com atributos capazes de qualificar hiperbolicamente o néctar de Dioniso: natural, saudável e biológico. A marca Salazar faz vender livros aos milhares, a marca Memórias de Salazar fará vender pastas de dentes, preservativos, louças, canivetes, chouriços, bolas de bilhar, canções de embalar, porta-chaves, relíquias diversas e muitas mesmo muitas garrafas de vinho. Pode parecer estranho, irritar os antifascistas, ou até cair mal no goto de alguns nostálgicos do Estado Novo, mas, para o Presidente da Câmara, trata-se de um mero negócio. Como diria Pessoa, num primoroso achado publicitário, primeiro estranha-se e depois entranha-se. O líquido era outro, mas bem podemos adaptá-lo a este espiritual néctar salazarento.
Face à desertificação do interior, que agora tanto preocupa Cavaco Silva (serão remorsos?), nada melhor do que reinventar um génio nato nesses torrões esquecidos para atrair novas gentes, tal o caso da agora árida Santa Comba. Ora há nomes que morrem depressa, o tempo do trespasse, outros transportam para sempre o peso imorredoiro da História. Pelos maus motivos, diríamos nós, mas gostos não se discutem, argumentaria o insigne autarca, um sábio engenheiro das novas eras. Pois é, a marca é que conta neste mundo de mercadorias, polémicas para quê? Mas a odisseia não acaba aqui, pois o pragmático autarca tem também uma costela espiritual. Para lá do negócio vinícola, está na sua mente com o dinheiro ganho nessas libações de Baco e com mais uns fundos arrecadados pelos devotos de Sua Eminência, o Dinossauro Excelentíssimo, como diria José Cardoso Pires, erguer um Museu para celebrar a memória do ditador.

Claro que neste Museu imaginário não entrarão certamente imagens iconoclastas do campo de concentração do Tarrafal, ou das prisões de Caxias, de Peniche ou do Aljube, onde o inspirado Pastor encerrava as almas transviadas dos deveres pátrios; ou a carantonha grotesca da Censura sempre atenta às palavras subversivas dos escribas vermelhos ou aparentados (rosados ou alaranjados), daí o contraste cromático do lápis azul; ou a proibição dos pobres de pedir nas ruas de Lisboa para não afugentar turistas mais sensíveis; ou as imagens nada abonatórias da cruel guerra colonial durante 13 anos, ou, maldição das maldições, essa subversiva cadeira de lona que o empurraria para a morte na flor da idade dos oitenta anos. Em contrapartida aí figurarão os chinelos de quarto; a caneta com que deu à luz os textos da sua gloriosa oratória; o vaso com alecrim a evocar a sua origem rústica; o seu Livro de Horas; uma fotografia a lembrar a sua saudação fascista; um estilhaço de unha encravada por causa das botas; o chicote com que se fustigava clandestinamente para afugentar os pecados da carne; postais de Fátima autografados pelos pastorinhos; um punhal com o qual trespassou os cromos de Marx e Lénine, emanações de Belzebu; um retrato de Humberto Delgado todo riscado a tinta azul e legendado com a frase “Aos traidores nunca perdoo”; as suas missivas para a Pide, aconselhando astuciosamente, para cada caso, o uso intercalar da cenoura e do bastão; um relatório das centenas de pobrezinhos que sempre caridosamente ajudou; a longa correspondência com o Cardeal Cerejeira e finalmente, entre outros artefactos, o térreo e terno penico que nunca largou em horas de aflição. Enfim, símbolos de um português que sempre soube gloriosamente unir o pragmatismo telúrico e a aspiração indelével aos azulinos destinos celestes.

Velazquez - Os Bêbedos (1628-1629)

Os peregrinos em Santa Comba aí poderão adquirir a preços módicos réplicas das relíquias do maior estadista português de sempre. Será um corrupio imparável das massas em direcção à Santa Terra, para gáudio da boa gente (especialmente comerciantes, hoteleiros e fabricantes de relíquias) do concelho e do seu líder autárquico. É o começo do fim da desertificação deste interior.

Ficará dele a imagem sacral do intrépido político que tão bem soube defender os valores do Ocidente contra o comunismo e as devassas democracias que não souberam entender os seus altos desígnios nesse Portugal que se estendia tão briosamente de Minho a Timor. Entre o devorismo de Sancho e as quimeras de D. Quixote parece assim oscilar a vontade do nosso exemplar autarca, ora fascinado com o cifrão, ora imbuído da nobre missão de resguardar das arestas do tempo a memória de Salazar, o maior obreiro da Pátria.

Claro que esta farsante democracia em que estamos bem contribui para o germinar dos nostálgicos do antigo regime ou para os mais jovens visionarem Salazar como o grande gestor pátrio, o estadista que equilibrou as finanças (o que até está na moda com o nosso Gaspar sob a batuta da Troika), construiu escolas, estádios, tribunais, bairros sociais para os pobrezinhos ou a majestática ponte sobre o Tejo agora chamada de 25 de Abril, uma vil usurpação onomástica. Historiadores para que vos quero? Países pobres e empobrecidos como o nosso não se podem dar ao luxo de pagar a historiadores, sobretudo os que pretendem dedicar-se a historiar o século XX, aqui tão perto das nossas paixões. Vivam os mais jovens com a memória do presente e os mitos do passado que bem lhes chega. E as universidades? Terão também apagado do mapa a brumosa História recente deste recanto para ócio dos reformados nórdicos? O pós-modernismo é que está a dar ou o pós-pósmodernismo, da vaga mais recente. E assim de pós em pós lá vamos cantando e rindo, num arraial de vaidades, pois o fascismo nunca existiu, foi tudo invenção de comunistas, adeptos do mau perder. Serventuários e lacaios do verbo é vê-los de bocas pandas a oficiar de acordo com os gestos do poder nessas televisões, onde se mima em tricas e tricas os convenientes gestos do centrão cada vez mais à direita e “neo-liberal”. E depois há sempre contentores para os esfomeados, esses respigadores dos novos tempos.

Mas quanto ao vinho Salazar, o pior que lhe pode acontecer, é que se a moda pega por essa Europa fora, teremos o vinho Franco, o vinho Pétain, o vinho Mussolini, o vinho Hitler, para não falar dos vinhos da América Latina, onde vários nomes emergem como candidatos de nomeada. Nessa Babilónia etílica ainda haverá então lugar para o Dão Salazar? Dá que pensar, Sr. Autarca!

PS – Não no sentido ritualístico acima visado, teria todo o cabimento a criação de um espaço reservado à exposição do imaginário social do Estado Novo (livros, cartazes, cinematografia, fotografia, etc.), ao mesmo tempo acessível ao público e a investigadores interessados na nossa História Contemporânea. Os mitos dos heróis providenciais encontram na amnésia colectiva o húmus propício para o seu crescimento, sobretudo, tal o caso actual, em períodos de crise. Confrontarmo-nos criticamente com o nosso passado é tanto um modo de nos situarmos no presente, como de nos projectarmos no futuro.

Caravaggio - Baco (1596-1597)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A greve geral e o fatalismo luso






Paul-Louis Delance, A greve em Saint-Ouen, 1908




Hoje é dia de greve geral. O adjectivo, embora enquadrável numa mitologia política revolucionária que vem desde finais do século XIX, justifica-se como manifestação de protesto contra a imperativa vontade do actual poder político, servidor abnegado da troika que nos coube em sorte, de nos impor uma frugal austeridade, socialmente injusta porque desigual, e não sufragada. Talvez metade da população apoie, talvez a outra metade esteja contra. Estes dizem que a greve, ainda por cima geral, só vem agravar a nossa situação económico-financeira; os outros acreditam que é uma resposta colectiva aos desmandos das forças financeiras e políticas que, ao cheiro da carne anoitecida, nos vão devorando. A greve geral, com perversos serviços mínimos nos transportes, nada irá mudar a não ser que a consideremos um anúncio de um crescente movimento colectivo que irá bloquear a hegemónica força que nos domina e asfixia. Entretanto vai-se a carne e resta-nos a alma da revolta. A Grécia está aqui tão perto. Sem uma nova ordem internacional, política e económico-financeira, nada feito. O problema tem uma escala global, e assim tem de ser solucionado. Além disso esta Europa está a afundar-se. Os sinais vêm da Alemanha: “O Tesouro Alemão não conseguiu colocar 35% de um empréstimo obrigacionista a dez anos, ampliando os receios de que os países da zona euro fiquem paralisados por falta de financiamento. Os economistas falam de um ponto de viragem na crise” (jornal i, 24-11-2011). Quanto a Portugal, é uma miragem o regresso ao mercado de capitais em 2013. Talvez numa súbita reviravolta a Srª Merkel venha a aceitar os salvíficos eurobonds, dirão os mais crédulos. Mas a tempestade acentua-se e a barca da líder germânica mete água por todos os lados. Os ratos já saltam apavorados, e a nau Europa em desgoverno vai em direcção ao abismo. Tens andado a ler muitos textos apocalípticos, confundes-te, modera-te um pouco! Dirá um leitor carregado de sensatez.
O povo é quem ordena! Pois é. Por isso de votação em votação, os países europeus elegem puros e duros governos de direita salteados de extrema e nos interregnos eleitorais despontam os de transição com vestimentas tecnocráticas, com a política escondida no bolso traseiro, neutrais e objectivos regentes de nações como se fossem empresas. E não são? Sem alma, desalmadas, as comunidades imaginadas de outrora tornaram-se espaços vazios apenas habitadas pelo deve e haver. Claro que há sempre uns que devem mais do que outros: os espoliados do costume. Os voos das aves de rapina, na sua altivez soberana, salvaguardam-nos sempre das crises e até aguçam o seu apetite infindo nestas paisagens de carnagem.
Mas voltemos, mantendo as metáforas de aviário, ao saudoso ninho pátrio. Temos os partidos da área do poder (PSD, PS e CDS) e os reivindicativos (PCP e BE), os contestatários habituais da vaga neo-liberal, na versão lusa, que nos vem governando há décadas. Embora em jeito de utopia, não seria possível refundar a esquerda, passando obviamente pelo que dela resta no PS? E digo esquerda não porque seja canhoto, mas porque é nesse espaço político que se pode ainda imaginar mundos alternativos. Há aliás quem sinalize no mundo a eventual “emergência e proliferação do fascismo social” (Boaventura de Sousa Santos, Portugal-Ensaio contra a Autoflagelação, p.119). O conceito é polémico mas indutor de reflexão e preocupação. Contra o fatalismo tão arreigado no nosso imaginário colectivo, é urgente agir, em nome de uma democracia de cidadãos, contra aqueles que pervertem o sentido e o sentir de tal modelo político. Por isso, sem grandes ilusões, estou com a mítica greve geral, pois os sonhos também habitam o pensamento e a acção. De outro modo, estaremos em vias de nos tornarmos meros “cadáveres ambulantes” ao sabor dos invisíveis mandantes deste mundo.


Jules Adler, A greve em Creusot,1899

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O Lixo e as Armas

Bordalo Pinheiro - O Ultimatum
Estamos de novo num clima de revolta patriótica, próximo daquele que se gerou com o Ultimatum Britânico de 10 de Janeiro de 1890, donde surgiria a “Portuguesa”, marcha patriótica de Alfredo Keil e Henrique Lopes Mendonça, mais tarde, com a República (1910), consagrada como hino nacional.
Na época, eram os nossos brios ofendidos pela imposição imperialista anglo-saxónica de abandono imediato de territórios ultramarinos que, segundo o nosso mapa cor-de-rosa (la vie en rose), nos caberiam por direito legítimo. Daí o fervor patriótico e belicista do nosso protesto bem presente na letra e no ritmo da “Portuguesa”: “Às armas! Às armas! (...) Contra os canhões (dos britânicos) marchar, marchar.”
Foi obviamente mais um gesto para acariciar o nosso ego colectivo, do que um apelo efectivo e prático para nos confrontarmos com a mui poderosa máquina militar do Império Britânico, aliás, o nosso mais velho aliado. Os povos têm destas coisas quando a sua auto-estima anda muito por baixo.
Mudaram-se os tempos, mas eis-nos de novo de orgulho colectivo ferido, e ainda por cima de bolsa rota, já não por um Estado Imperial, mas por uma dita Agência de Rating Moody’s, ou seja, por alguns agentes do capitalismo financeiro internacional, cuja tarefa é avaliar o corpo agónico da nossa economia e, se for caso disso, atirá-lo borda fora, mas sem primeiro sorver até ao tutano os ossos da nossa desgraça.
Numa busca breve ao Dicionário, notei que rating (não confundir com ratting, caça aos ratos – não iria tão longe a sua ousadia), significa avaliação; já moody levanta algumas suspeitas, pois leio taciturno, melancólico, carrancudo, rabugento, mal disposto, sorumbático, de temperamento instável. Uma carranca de meter medo mesmo aos santos. Ora a nós que não somos santos, mas pecadores inveterados, atirou-nos para a “lixeira” do capitalismo.
Este gesto, próprio dum “almeida” camarário, levantou uma onda de protestos de norte a sul e ilhas: no facebook, surgem apelos à indignação; o Procurador Geral da República dispõe-se a pôr a dita em tribunal; as autarquias rompem os seus contratos com a dita; publicam-se via internet imagens de  D. Afonso Henriques a atacar briosamente as instalações da dita, clamando “Morte aos ´mouros´ do Norte”; as caixas de bolacha Maria (a lembrar a nossa Maria da Fonte) são ilustradas com símbolos anti-moody; idem para as da sardinha, fósforos e tabaco; fazem-se calendários para 2012, postais, cromos, leques, com inscrições alegóricas visando a dita. De tal modo o movimento é gigantesco que, para espanto dos especialistas, a nossa economia começou subitamente a crescer, a crescer, a crescer, mas no domínio do puro delírio colectivo.
Max Beckmann - A Sociedade Parisiense
Bastante combalido está o nosso 1º de Massamá. Segundo disse “levou da Moody´s um valente murro no estômago”. Compreende-se a sua desilusão, depois das medidas radicais que tomou (o povo é sereno!), mais troikista (não confundir com trotskista) que a Troika, a acenar a Bruxelas e às agências de Belzebú, atirarem-lhe o reino para a lixeira dos indigentes, é algo de pôr um Job de cabelos em pé! Mas no estômago com um soco certeiro, isso não se faz. Já agora, a propósito, na formatação de dirigentes made in PSD não se ensinam técnicas de boxe ou de karaté? Uma falta imperdoável nestes tempos conturbados.
Mas o mais estranho de tudo isto, é ver como os nossos políticos da direita dita neo-liberal, ou os seus comparsas que dominam o comentário televisivo, ainda há bem pouco tempo, defendiam com unhas e dentes que não tinha qualquer sentido beliscar as agências de rating, pois isso só iria prejudicar Portugal e as nossas finanças abolerecidas. Talvez isto sirva de lição aos nossos talentosos neo-liberais, para que no futuro entendam melhor os segredos do negócio. Mas não serve porque a sua devoção ao sacrossanto mercado é inquebrantável. Os crentes têm pouca apetência pela razão das coisas.
Resta-nos então para consumo interno reinventar a “Portuguesa”. Aqui fica uma hipótese desajeitada:

“Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Não a lixeira do mal!

Às armas! Às armas!
Pela pátria lutar,
Contra a Moody marchar, marchar.

Mas à falta dum letrista e dum inspirado compositor, terminemos com estas palavras sensatas, anteriores ao anátema do lixo, de Frei Bento Domingues: “O pior da crise actual não são as desgraças que já provocou. Pior é a cegueira de quem não quer ver a falência do capitalismo financeiro e desregulado, de raiz anglo-saxónica com sede em Wall Street e na City de Londres e ramificações nas principais praças financeiras do mundo. Importa fazer objecção de consciência à economia de jogos financeiros e promover uma economia orientada para a construção do bem comum.”(Público-19-6-2011).


Répine - Os Sirgueiros do Volga
 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A Mercearia e as Finanças


Grosz - Eclipse do Sol (1926
Como diria Guerra Junqueiro, se fosse vivo, já que não podemos ter um grande ideal colectivo, ao menos que tenhamos uma "mercearia" bem ordenada. Para a boa contabilidade colectiva, temos os chamados Ministros das Finanças. Na nossa História do século XX, já tivemos um "merceeiro", formado na douta Universidade de Coimbra, que começou a pôr as Finanças em ordem ainda no tempo da ditadura militar (1928). Mas ele mesmo, 4 anos depois, tornar-se-ia a alma da dita ditadura. Durou até Abril de 1974, embora alguns tiques ainda hoje persistam. Tinha as contas em ordem, mas o povo pobre, adoentado, triste, analfabeto e submisso. Como se dizia na época "pobretes mas alegretes". Merceeiro sem escrúpulos, com os seus auxiliares de olho vigilante espalhados pelo Reino, sempre atentos ao mínimo sinal de subversão, lá foi mantendo a paz podre que nos coube em sorte. Não chegou a ver o fim da ditadura, porque foi assassinado por uma cadeira, certamente de tendência revolucionária. Enfim, contas em ordem e corações em desordem. Assim também eu, diria a Ferreira Leite, aquela que proferiu a célebre frase: "Para reformar o Estado seria preciso suspender a democracia durante 6 meses". Com a democracia pós-25 de Abril os "merceeiros" sucederam-se durante 37 anos e enganaram-se nas contas. E, neste mundo de enganos, todos se foram enganando uns aos outros. E o Zé Povinho, com melhor aspecto do que no tempo da ditadura, julgou-se ilusoriamente no paraíso com os fundos e fundilhos da União Europeia.
Hoje os tempos já são outros. Temos democracia mas tutelada por uma Troika, um neologismo que nos foi imposto pelos sacrossantos mercados. A língua é uma realidade dinâmica, ao sabor das conjunturas.
Com este novo governo de direita e neo-liberal, a palavra de ordem é dar todo o poder ao teocrático mercado. Dizem que o novo Ministro das Finanças é jovem, universitário, tecnocrata, estrangeirado, experiente, hábil, bem relacionado com bancos e banqueiros, enfim, uma reencarnação sebástica no domínio das finanças. Eu, que nada sei do deve e haver, não tenho pretensão a contestar tão esperançosa asserção. É um técnico e um "independente": bom para os mercados, para os nossos credores, segundo dizem, não sei se para o povo também.
Grosz - Os Pilares da Sociedade (1926)
Os nossos televisivos jornalistas, um eco indisfarçado do discurso político dominante, dizem que é bom ser de tal condição - técnico e independente. Quem sou eu para duvidar! Mas, estimados politólogos, economeses, canalhólogos e tudólogos televisivos, se, para vós, o mais relevante deste governo são a economia e as finanças, não poderiam admitir, mesmo por instantes, que a economia deveria estar ao serviço do homem e não o contrário? Talvez o mais urgente, isto acrescento eu, seria mudar o "paradigma cultural" dominante, aqui, na Europa e no Mundo. Pois é, eu, que sou um zero em números, atrevo-me a dizer que a cultura é mesmo o mais importante. Mais do que a economia, as finanças e os pepinos da PAC.
Mas como o futuro próximo deste país já não nos pertence, talvez tenham razão: o importante é ter bons gestores para administrar sapientemente os nossos compromissos com a tal Troika. De outro modo, vejam a Grécia, que desgraça!
Tudo é agora uma questão de gestão, de boa gestão: com os estômagos vazios o povo estiola, mas cuidado com as congestões. Sem coração e sem cabeça, que nos resta senão esperar as bondosas benesses dos nossos credores cuja paciência, aliás, não é infinita!
E para inspiração do novo Ministro das Finanças, de quem ignoro o nome, aqui vai este fragmento poético de Armando da Silva Carvalho:

Eu sou
o mais boquiaberto
dos ministros.

Estas finanças
doem
como um calo.

Estas finanças
devem ser um galo
cantando o ouro
que urinam
as crianças.

Estas finanças
devem ser um falo
ubérrimo brasil
de esquálidas
donzelas.

P.S. No meu programa de Revolução Cultural, é óbvio que não proponho um poeta para as Finanças.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

25 de Abril - da Nostalgia à Reinvenção da Democracia

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen



Giuseppe Pellizza Da Volpedo - O Quarto Estado (1901)
Algumas décadas depois voltei a desfilar na manifestação do 25 de Abril. Durante anos não o fiz, porque as comemorações cada vez mais se foram assemelhando às do 5 de Outubro: uma marcha de rituais da memória colectiva e nostalgias e pouco mais. Coisas para romeiros da saudade. Cada vez mais formais e menos habitadas pela substância do tempo hodierno. Gestos que as convenções sociais exigem como modo de manterem no imaginário a identidade colectiva. As comemorações políticas nacionais tendem contra as rugas do tempo a tornar-se dias santos laicos. Para uns, aliás, talvez as duas revoluções (o 5 de Outubro e o 25 de Abril) tenham algo em comum. Ambas seriam revoluções falhadas quanto aos seus objectivos mais profundos. Para outros, pelo contrário, o espírito do 25 de Abril ter-se-ia cumprido: democratizar, descolonizar e desenvolver (os célebres 3 ds). Depois do tempo inteiro das utopias, viera o tempo pragmático da democracia possível. Claro, houve sempre também os nostálgicos do salazarismo, mas estes já sem força política efectiva, embora, não sendo as revoluções rupturas absolutas, algo desse tempo cinzento tenha persistido na mentalidade colectiva ou mesmo em algumas práticas socio-políticas.
Desta vez, o que resta da minha cidadania activa tirou-me da inércia  e lá fui até à Avenida da Liberdade, em Lisboa, que dista 35 quilómetros da aldeia saloia em plena serra de Sintra onde habito. Desta vez quer dizer: a quase perda iminente da soberania nacional; a democracia cada vez mais fantasmática em que nos estamos a tornar sob o domínio teocrático do capital financeiro e especulativo.
Porém, nunca podemos regressar aos lugares onde in illo tempore fomos felizes, mesmo no plano simbólico. Reencontrei alguns amigos que já não via há meses, há anos, há décadas. Jovens de barba e cabelos brancos como eu, como se fôssemos 37 anos depois simultaneamente os mesmos e outros. Uns abraços, umas palavras de memórias, um querer saber o que fizeste e onde estás. Isto está uma merda de país, pois é! E lá vamos na marcha que nos coube em sorte, a dizer com o corpo em movimento, aqui estamos ainda presentes.
A manifestação foi de certa forma uma desilusão. Apesar dos milhares de participantes e do esforço “heróico” dos animadores com palavras de ordem -  expressão equívoca, pois nós precisamos sobretudo é de desordem cívica – anti-FMI e os habituais slogans “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!”.
As pessoas lá desfilavam ordeiramente, como quem cumpre uma missão, sem grande convicção combativa. Terá sido assim, ou será o meu olhar anti-nostálgico a construir tal imagem? Abaixo o FMI e o sacral mercado vestindo Armani da cabeça aos pés, ao bom estilo neo-liberal. Abaixo a mediocridade monetária que hegemoniza o mundo e lixa cada vez mais os pobres, esses países do sul que lhe alimentam a gula. Mas há sempre várias versões, por isso eles ripostam: “Pobres e mal agradecidos, de mão estendida e com réstias fanadas de orgulho!”. Mas quem são eles? Têm rosto? “São uma emanação diabólica!” – acrescenta um anacoreta do deserto dos nossos desejos.
"Abaixo a Troika e quem a trouxe!" Mas, sob a película invisível dos protestos, talvez a atmosfera colectiva fosse um sintoma não-dito de derrota latente. Aliás, veja-se como os nossos media sobrelevaram os discursos da cerimónia oficial do dito evento, a retórica do Cavaco, do Eanes, do Soares, do Sampaio, em prol de uma espécie de governo de “salvação nacional”, tendo como cena de fundo a imprópria cena de boxe entre o Sócrates e o Passos. Como quem diz, tenham juízo que com a Troika não se brinca nem mesmo a votos. Quanto à tão prezada sociedade civil e à sua manifestação, as televisões limitaram-se a uns apontamentos mais ou menos folclóricos e pouco mais, não fossem os actores do FMI porem-se na alheta, irritados com tal falta de respeito e de humildade.
Será preciso um pouco de violência das massas para apimentar o repasto televisivo?
Dürer - Os 4 Cavaleiros do Apocalipse (1498)
Segundo os pessimistas, Portugal, tal como a Grécia  e a Irlanda, ou outros ditos periféricos que virão a seguir, estão à beira de uma ruptura democrática. Teremos ainda alguma liberdade para protestar, mas os nossos votos eleitorais serão de pouca valia. Quem ditará as regras não seremos nós, mas quem nos comprou o futuro a preços de saldo.
E quando as trombetas do Apocalipse soarem em Portugal sopradas pela Troika, a dita classe média verá desencantada o seu delírio consumista de 2 décadas, convenientemente estimulado pelos nossos governantes desgovernados, presente no Dia do Juízo Final. O sonho europeísta começa a transformar-se num pesadelo, algo já há algum tempo vivido pelos 2 milhões de pobres e pelos 600.000 desempregados
Quanto à União Europeia e os seus patetocratas bem podem, no seu esplendor crepuscular, começar a encomendar a última versão, por exemplo a de Teodor Currentzis, do Requiem de Mozart.
Sem uma refundação das democracias não será possível recolocar a economia ao serviço dos povos. Mas esta questão não requer uma mera solução a nível regional ou nacional. E venha a utopia: só um movimento global, pelo menos a nível europeu, poderá alterar  radicalmente o modelo político dominante de cariz neo-liberal, que assenta na sagrada convicção de que o mercado liberto dos constrangimentos estatais, ou seja da política democraticamente legitimada, gera em si mesmo uma ética – a dos capitalistas especulativos, como é bom de ver. Internacionalismo, obviamente já não apenas proletário, o tempo de Marx já lá vai, embora a sua leitura do mundo ainda tenha alguma pertinência, mas de todos aqueles que recusam o domínio do ter sobre o ser.
Bem pregava Frei Bento Domingues: “Em Portugal, e não só, todas as notícias da Quaresma foram motivadas pelos efeitos do capitalismo selvagem, especulativo, sem regras, abrigado nos paraísos fiscais, mergulhando os pobres no desespero. Perante o império do dinheiro, da corrupção e da imprevidência que semeiam a morte, a mensagem da Páscoa, deste ano, deve servir para convocar a energia de toda a gente de boa vontade para que não haja indigentes entre nós. Esta seria uma Santa Páscoa!”(Público, 24 de Abril de 2011, p. 28 ).
Já não poderemos regressar ao "dia inicial inteiro e limpo" de Sophia, mas, com a criatividade colectiva e a liberdade possível, poderemos talvez abalar o hegemonismo do Deus-Milhão e ensaiar mundos alternativos. E voltarmos, livres, "a habitar a substância do tempo".


Duanson - A Senhora do Supermercado (1969)



sábado, 2 de abril de 2011

Que Fazer?

Grosz - Os Pilares da Sociedade (1926)
«Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. - No fim de tudo isto, o que o lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se calcularam o número de indíviduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?»
Estas palavras foram escritas por Almeida Garrett, na primeira metade da década de 40 do século XIX, não por um marxista (esses viriam alguns anos depois), nem por um discípulo dos «socialistas» Saint-Simon (1760-1825), Owen (1771-1858) e Fourier (1772-1837), mas por um escritor e político liberal monárquico, e o mais espantoso é que têm ainda hoje toda a actualidade. Os verdadeiros pensadores têm felizmente esta capacidade de produzir discursos que ultrapassam, pela sua pertinência, os limites do seu tempo.
De facto, continuamos ainda em busca de uma Economia que esteja ao serviço do homem e não o contrário. As desigualdades sociais profundas no mundo, e Portugal não é uma excepção (é o pais com o índice mais elevado de desigualdade social na UE), são uma ferida na ética sociopolítica da Humanidade. O progresso moral, em determinados niveis, parece não ter acompanhado o progresso tecnológico. A previsibilidade do cenário futuro, a curto e médio prazos, parece mais próximo do antecipado pelos escritores das «anti-utopias», tipo Orwel e o seu romance 1984, do que das utopias «técnico-pastorais».
Rafael Bordalo Pinheiro (1900)
Quanto à agiotagem, nós próprios estamos a ser vítimas da especulação desenfreada dos chamados mercados internacionais, ou melhor, dos especuladores financeiros responsáveis pela crise económica mundial de 2008-2009. É um poder que domina o mundo, sem que haja por parte dos Estados qualquer capacidade para os regular. O cifrão é rei e senhor do universo. Neste estado de coisas qual será a capacidade de sobrevivência das democracias?
A situação é, entre nós, de uma gravidade extrema, tendo em conta a nossa dívida externa e os juros (a tal agiotagem de que falava Garrett), cada vez mais incompatíveis, a que estamos subjugados para que o nosso Estado possa sobreviver financeiramente. Acresce a isto uma elite política que, durante cerca de 30 anos, não soube definir e pôr em prática uma estratégia de desenvolvimento que nos colocasse, pelo menos, num nível médio entre os países da UE. E também, convém dizê-lo, uma classe empresarial, com raras excepções, que foi incapaz, por incultura, de se adaptar aos novos desafios colocados pela actual conjuntura. Adormecemos à sombra da árvore das patacas da UE. Só que a árvore para não secar tem que ser regada e a água é pouca para tantas patacas. Do mesmo modo, as famílias portuguesas foram-se endividando também ao ritmo de uma política de delirante apelo consumista. Além disso, a própria UE é cada vez mais uma fictícia democracia sem rumo, tutelada pela poderosa Alemanha.
A possibilidade de uma bancarrota - situação que já experimentámos em 1891 - é um cenário provável, embora uma intevenção dos mecanismos financeiros internacionais possa atenuar os efeitos catastróficos da crise de 1891: empresas e bancos falidos, suicídios em massa, etc. (leiam, a este propósito, o romance Barranco de Cegos (1962), de Alves Redol).
É urgente mudarmos as políticas que nos conduziram a este desenlace. Isto é um lugar-comum, dito e redito mediaticamente por políticos, economistas, politólogos e outros comentadores de serviço.
É nessário acabar com o supérfluo nos gastos do Estado, o novo-riquismo burocrático, as centenas de assessores, os assesssores dos assessores, os secretários dos secretários, os parlamentares do «Apoiado!» e «Muito bem!», os criados de libré, as frotas oficiais de automóveis de luxo, os institutos e os instituídos, as parcerias público-privadas desajustadas, as empresas municipais, toda uma parasitagem que se foi colando como lapas ao aparelho de Estado. É preciso emagrecer o Estado, mas não como propõem os neo-liberais do PSD, através da privatização da Saúde, da Educação, das Águas de Portugal, da CGD, etc., ou seja, de tudo o que, sendo ainda património do Estado, possa vir a ser lucrativo na mão de entidades privadas. Pelo contrário, é necessário fortalecer o Estado Social que, juntamente com a liberdade, é o que nos resta do projecto «abrilista».
Para quem, como eu, viveu quase metade da vida em ditadura (tinha 30 anos aquando do 25 de Abril), a jovem democracia foi o sonho de criar um Portugal mais justo, livre e desenvolvido. Hoje, vivemos no império das desilusões. De resto, é significativo o facto de cerca de metade da população portuguesa não se reconhecer na prática política dos partidos existentes. É um sintoma da crise profunda da nossa democracia e da inércia da desilusão colectiva.

Grosz - «Ecce Homo» (1918
Cabe à classe política dirigente uma grande responsabilidade no actual cenário sociopolítico, pois como refere Vasco Pulido Valente, «A complacência indígena para os governantes que levaram Portugal ao desespero e à miséria roça a santidade [..] A política é a profissão no país que goza da mais completa impunidade» (Público, 13-3-2011).
Os partidos do «centrão» tornaram-se colectivos onde a velha «cunha» (nepotismo) tem outros nomes e novos modos de circulação. A política deixou de ser um ideal, uma ética social, para se tornar um mero pragmatismo, visando a rápida mobilidade social dos seus militantes. Sabemos que a luta pelo poder não é um «idílio», mas a erosão ideológica tornou as máquinas partidárias espaços de obediência onde não há debate de ideias, e a norma é seguir irracionalmente o líder do momento.
Não podemos, no entanto, responsanbilizar apenas os dirigentes partidários (PS e PSD) que entre si dividiram o poder nestas décadas. De facto, somos todos, embora em graus diversos, responsáveis pelo estado da nossa democracia. Quantos de nós, por exemplo, se dão ao trabalho de intervir nas Assembleias de Freguesia ou concelhias? A democracia começa em casa ou no lugar que habitamos, na intervenção sindical ou outra a nível profissional, na escola, nos gestos do quotidiano, aparentemente inócuos que envolvem, por exemplo, uma consciência ambiental. Tudo isto faz a democracia e articula cada um de nós com o sentido da comunidade.
Sabemos que fazê-lo (os poucos que o fazem) é remar contra a maré, pois é mais fácil abdicarmos parcialmente dos nossos direitos de cidadania, reduzindo-a ao cíclico voto nas eleições. Aliás, os políticos profissionais não dinamizam aquela intervenção. O povo «democrático» só existe para eles quando precisam do seu voto ou dos seus impostos. Aí vêm então as arruadas e o beijos varinos. Um espectáculo digno de se ver. Sendo assim, o monopólio prepotente dos partidos foi enfraquecendo a sociedade civil e a sua capacidade de intervenção. É uma democracia pobre, a nossa. E é este inactivismo, no plano da cidadania, que facilita a corrupção e o nepotismo. Escutamos ou vemos na TV narrativas de promíscuas relações entre o poder político e o económico, e, por vezes, indignamo-nos, outras vezes, olhamos para o lado, como se uma migalha de responsabilidade não nos coubesse em sorte.
A mudança tem que começar por cada um de nós. É talvez aqui que começa a verdadeira revolução, para que ao lixo em que nos tornámos financeiramente, segundo as agências internacionais, não se junte o lixo da nossa acefalia colectiva. É urgente uma nova ética política. Cabe-nos lutar por ela, nos pequenos e nos grandes gestos do quotidiano. A democracia é uma construção colectiva, não o monopólio de uma «elite» que teatraliza, num registo trágico-cómico, a miséria nacional, como é o caso da cena parlamentar.
Max Beckmann - A Noite (1918-19)
Este é um texto chato, maçudo, indigesto como o quotidiano dos portugueses, excepto o dos ricos e, ontem como hoje, o dos «barões» de Almeida Garrett, isto é, a imagem caricatural dos que se promovem socialmente, com mordomias escandalosas às cavalitas dos partidos do poder. Até às eleições não falarei mais disto. Prometo. A não ser que o dilúvio se antecipe e tenha de escrever a bordo da Arca de Noé, se nela houver vaga para este cronista que não é político nem politólogo e de finanças nada sabe. De outro modo, resta-nos seguir a mensagem de Sérgio Godinho, «Aprende a nadar, companheiro!».

sábado, 26 de março de 2011

A Morte Anunciada do Último Sebastianista

Ayer fuiste rey de Hespaña,
Oy no tienes un castillo.

Domingos Madeira

David - A Morte de Sócrates (1787)
O filósofo Sócrates (469-399 a.C.) matou-se com cicuta, após condenação pelas autoridades por corromper a juventude. Podendo optar pelo exílio, preferiu o envenenamento com o suco fervido desta planta da família das umbelíferas que tanto pode ser extraído das folhas como dos frutos. Foi um modo singular de assinalar a injustiça da sua condenação, um exemplo de coerência ética. Com a sua douta ignorância, defendia que o seu saber nada valia comparado com a verdadeira sageza, certamente algo incómodo para os poderosos, fortificados nas certezas absolutas das suas decisões. Era por isso um pensador incómodo.
Hoje escasseiam os que procuram no aprofundamento do conhecimento de si, como o fazia o filósofo grego, um fundamento da virtude.
O nosso Sócrates, 1º ministro que entretanto se demitiu, nada tem obviamente de comum com o seu homónimo de há uns milénios atrás. É engenheiro de obras toscas e político. E como é comum nos políticos, nunca olha para dentro de si, afivela a máscara, marca o ritmo da passada, acena às massas e nunca tem hesitações, ou melhor, aparenta não as ter.
Esta minha relação antroponómica nada tem de inocente, não que eu pretendesse um 1º ministro mais preocupado com a auto-análise do que com a governação. Mas a escolha do nome e não do sobrenome por parte da personagem, enquanto etiqueta política, também nada tem de inocente. De seu nome completo José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, também se poderia ter chamado apenas José, o que daria um bom mote para o poema "José", de Carlos Drummond de Andrade: "E agora, José?/A festa acabou,/a luz apagou,/o povo sumiu,/a noite esfriou,/e agora, José?".
Eis-nos, pois, desconfiados com esta ambivalente aproximação entre o político e o milenário filósofo. Será o político um fervoroso adepto da tradição socrática, ou o seu nome de guerra é um mero acto de marketing político?
Na cabeça confusa do povo um nome pode ser um capital simbólico. Porque apagou Sócrates o apelido?Mistérios da nossa cena política. Se por acaso se chamasse Manuel, não viria à baila o sobrenome? Imaginemos qualquer coisa como o nosso 1º ministro Manuel ou João ou António. Seria de um pirismo inaceitável. Mas Sócrates é outra coisa, até internacionalmente.
Com a reprovação parlamentar do estrategicamente cozinhado PEC IV com os poderosos da União Europeia, lá se demitiu o nosso, salvo seja, ministro-filósofo. Não seria uma tragédia se não vivêssemos há muito em plena catástrofe financeira, na tradição pantanosa de um seu antecessor.
Para uns, Sócrates foi uma vítima da estratégia e da retórica malignas das oposições, para outros, uma fuga hábil e astuta às teias desta conjuntura económico-social
O líder do PSD, Passos Coelho, por seu lado, começa finalmente a manifestar a sua fome de ir ao pote e emerge majestático na sua imagem televisiva. Não aparenta, no entanto, carências alimentares, apenas de medidas concretas para travar o salivar cada vez mais abundante dos mercados financeiros e dos seus “amigos” da UE.
Entre vivas, salvas e apupos, o Zé Povinho lá irá de novo em Junho pôr na urna (palavra inquietante neste naufrágio colectivo) os seus votos para mais um alegre corridinho, tão típico do nosso folclore. Ou então, porque não um ritmado fandango, bem mais viril e empertigado. Antes isso do que um fado, masoquista auto-contemplação da alma nacional.
Ensor - A Intriga (1890)
Preparem-se as máscaras para um carnaval estival. Eu já tenho uma na gaveta, vou mascarado de porreta e outra treta. Voto branco, voto negro, voto a vida e a morte – papelinhos e maçãs podres para atirar aos foliões deste meu país de “três sílabas de plástico”, como dizia o O´Neill.
"Votos e mais votos, a minha mão está cansada e das cruzes nem se fala. É uma dor pela espinhela  abaixo. Já não se aguenta" – diz um eleitor recorrente. "Estás enganado, cidadão. Tudo se aguenta, menos a voracidade do poder financeiro internacional "– é um anti-capitalista a sussurrar.
Mas,  caros políticos,  se em vez de discursos e arruadas fizessem dias de silêncio em homenagem à nossa fúnebre máscara final? Sejam grotescos, mas silenciosos; sejam patéticos, mas silenciosos. Não digam que sim nem que não, mas antes pelo contrário.   Não digam sobretudo, à “economês”, que fizeram o trabalho de casa. Deixem escutar a suave brisa matinal, sem algaraviadas nem corropios.
Enfim! Portugal, nosso destino perdido. Fizeram de ti um pedinte, mas com a mania das grandezas. "Não é de agora, mas de sempre. Impérios na mira, impérios a afundar-se" (voz  de um autodidacta em História). Ou, como diria Jorge de Sena, "terra de heróis a peso de ouro e sangue,/e santos com balcão de secos e molhados/no fundo da virtude..." ("A Portugal").
Mas podemos ainda vender as reservas de ouro, as auto-estradas bem embaladas, o BPN mesmo falido, a nova praia marítima de Mangualde com água salgada e tudo, os submarinos, o Centro Cultural de Belém, as parcerias público-privadas, os hospitais, a Torre de Belém, os Jerónimos, a ilha da Madeira com o Jardim e tudo. Seria um negócio de truz! Quanto ao povinho, mandem metade para o Pará e a outra para o canal do Panamá.
Costa Pinheiro - D. Sebastião (1966)
Na neblina do vazio, seríamos habitados por fantasmas, nesta ocidental praia lusitana desertificada. Finalmente, com todo o esplendor, eis que despontaria D. Sebastião com seu cavalo alazão a ocupar triunfal o deserto dos nossos sonhos e delírios colectivos, acompanhado de anjos barrocos, tangendo as dez mil guitarras de Alcácer-Quibir, numa épica ressurreição, ao ritmo das vagas heróicas wagnerianas (esta uma sugestão da Srª. Merkel ), sobrepondo-se ao som das dolentes guitarras. Mas o pobre do rei sempre desejado, no centro do Terreiro do Paço (exactamente no lugar da estátua de D. José, entretanto vendida em leilão), olha até onde a vista alcança e só vê vazio. Então, angustiado, interroga os anjos:
- Onde está o meu povo?