domingo, 15 de abril de 2012

Ler Hoje o Neo-Realismo (1)


Júlio Pomar - Gadanheiro (1945)

De todos os movimentos estéticos portugueses do século XX, o Neo-Realismo é aquele que mais tem sido objecto de interpretações equívocas e redutoras. Ora é desvalorizado pelo seu carácter panfletário e partidário, ora associado a uma retórica populista do miserabilismo económico-social, propensa a uma cenografia maniqueísta de angelização do proletariado e de diabolização da burguesia. É frequente, nos nossos dias, em análises de produtos culturais, ler-se, como paradigma de mau-gosto, que tal obra é demasiado neo-realista. Haveria assim, no século XX, gerações de criatividade estética assinalável, como a do Orpheu, a da Presença ou a surrealista, enquanto a neo-realista destacar-se-ia pela sua esterilidade semântica. Como em geral tais analistas desconhecem as obras neo-realistas, torna-se fácil perpetuar estereótipos sobre o movimento (1). É óbvio que, como nas outras tendências acima referidas, há obras que não resistiram ao trabalho do tempo, sendo sobretudo documentos históricos do imaginário da resistência à ditadura salazarista, outras há no entanto que continuam a merecer leitura atenta. Depois há que ter em conta os modismos culturais em cada época. Hoje, há uma predilecção para o consumo de obras de ficção de centração intimista ou de evasão exotista (veja-se o êxito internacional das “bestas céleres” do actual ciclo vampiresco americano ou do esoterismo de pacotilha), algo que, de resto, não é novo na história da modernidade literária. Houve, desde o Romantismo, conjunturas dominadas pelo aprofundamento do “eu-individual” ou de apego exotista e pitoresco, outras marcadas pelo registo do “eu-social”, seja como denúncia, seja como apelo à luta sociopolítica. Em cada conjuntura, as condições de recepção das obras estéticas mudam em função dos horizontes de expectativa dos virtuais leitores. Mas o que está na moda, não esqueçamos, é o que frequentemente morre mais depressa.
         Por isso convém contextualizar, no plano histórico-social, as obras literárias, de molde a entender a sua génese, o seu modo de circulação e de recepção. Aliás, embora num clima bem diferente da repressão ditatorial que nos coube em sorte, ou melhor em desgraça, desde a década de 30 a 1974, as tensões sociais hodiernas apelam de novo a uma arte que cristalize a dinâmica social no seio da comunidade. Não se trata de retornar aos modelos estéticos neo-realistas da década de 40 até aos anos sessenta do século XX, mas descobrir neles veios inspiradores para uma arte que possa fundir os problemas individuais com os da comunidade. Convém por isso ler ou reler os livros de Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Faure da Rosa, entre outros, não apenas como documentos do imaginário colectivo arquivados para sempre no Museu do Neo-Realismo, mas também como linguagem narrativa ou poética comprometida com a transformação do mundo, o que pressupõe simultaneamente o modo idiossincrático como cada um dos autores se implicou, tanto no plano ideológico como no da escrita, nessa prática de dizer universos alternativos aos dias cinzentos do nosso fascismo.

Para mudar hoje este mundo iníquo, dominado por forças financeiras não sufragadas, urge mudar o olhar do mundo, tendo aí a arte uma função exemplar, como virtual contrapoder relativamente à visão dominante promovida pela manipulação mediática dos poderes que reificam os homens ao sabor das suas estratégias. Contra os fatalismos da História e as sequentes acomodações individuais e colectivas, se escreveram, embora com registos diferentes, as obras dos neo-realistas ou as dos surrealistas, ambas poéticas da emancipação e da libertação, numa articulação entre o individual e o colectivo, no primeiro caso, ou, numa matriz mais individual e num imaginário rebelde ao controle racional, no caso do segundo. A prática literária é sempre um jogo com as palavras, mas também um trabalho sobre a linguagem com óbvias projecções sociopolíticas, distintas consoante a mundividência dos indivíduos ou dos grupos em que se inscrevem. Um labor solitário/solidário com as palavras da comunidade.

Rogério Ribeiro - Ilustração para "Até Amanhã, Camaradas" (1975-76)

Claro que a modernidade do Neo-Realismo não se funda na tradição da ruptura vanguardista como aconteceu com a geração do Orpheu, mas na tentativa de, a partir de uma síntese superadora do romantismo social e do realismo, criar uma arte democrática, tanto no plano da linguagem como no plano do destinatário, embora num ciclo longo a influência de outras correntes estéticas seja de assinalar. E se a mundividência marxista foi a sua matriz, não podemos por isso tomar a sua poética como uma mera transposição de tal sistema ideológico, o que justificaria, nesta conjuntura de crise das metanarrativas históricas e dos sistemas de valores (neste reino dito do fim das ideologias), a desvalia do Neo-Realismo. Mas terá algum sentido, por exemplo, avaliar hoje a obra romanesca de Zola em função da datada “infra-estrutura” filosófica positivista que a impulsionou? Do mesmo modo poderíamos reduzir e avaliar a poesia de Fernando Pessoa em função da sua ideologia conservadora liberal e antidemocrática ou, como a formula Raúl Morodo, em função do seu nacionalismo libertário e “sintético”?
Todas as obras literárias são simultaneamente uma inscrição ideológica e a sua superação polissémica, por isso fruitivas pela latência dos seus sentidos, sendo cada leitura uma actualização temporal da sua virtualidade semântica. Um texto redutível a uma estrutura ideológica será neste aspecto, pela sua transparência monossémica, um texto com morte anunciada.
Na década de 40, a fase da “inocência épico-lírica” do Neo-Realismo, a centração implícita numa comunidade de ideias, afectos, valores e imagens, específica desta geração, coexistiu, no entanto, com uma diversidade formal desde a sua génese e que se acentuaria na década seguinte, embora os compromissos com uma arte de intervenção social, em oposição ao autotelismo estético da Presença (1927-1940), fossem consensualmente aceites por todos aqueles que se empenharam na emergência de uma arte que contribuísse, no seu âmbito específico, para uma democratização cultural suportada por uma mitologia da libertação e da predição utópica de um mundo novo sem opressores nem oprimidos.


(1)  Como contributo para uma história da narrativa social, de Ferreira de Castro a José Saramago, no século XX, cf. Vítor Viçoso, A Narrativa no Movimento Neo-Realista – As Vozes Sociais e os Universos da Ficção, Lisboa, Colibri, 2011.




segunda-feira, 19 de março de 2012

O Estado das Coisas: a Ressurreição Etílica de Salazar





“Mas passa pela cabeça de alguém que eu queira vender a ideologia? Eu quero é vender o vinho!”
João Lourenço, Presidente da Câmara de Santa Comba Dão (Público, 17-3-2012)



Salazar já não é apenas o ditador “iluminado” que nos governou, entre 1932 e 1968, agora é (será) também uma marca de vinhos made in Santa Comba Dão. Isto é, um símbolo da nacionalidade, da terra, ou, dito de outro modo, do sangue e do solo lusitanos, com atributos capazes de qualificar hiperbolicamente o néctar de Dioniso: natural, saudável e biológico. A marca Salazar faz vender livros aos milhares, a marca Memórias de Salazar fará vender pastas de dentes, preservativos, louças, canivetes, chouriços, bolas de bilhar, canções de embalar, porta-chaves, relíquias diversas e muitas mesmo muitas garrafas de vinho. Pode parecer estranho, irritar os antifascistas, ou até cair mal no goto de alguns nostálgicos do Estado Novo, mas, para o Presidente da Câmara, trata-se de um mero negócio. Como diria Pessoa, num primoroso achado publicitário, primeiro estranha-se e depois entranha-se. O líquido era outro, mas bem podemos adaptá-lo a este espiritual néctar salazarento.
Face à desertificação do interior, que agora tanto preocupa Cavaco Silva (serão remorsos?), nada melhor do que reinventar um génio nato nesses torrões esquecidos para atrair novas gentes, tal o caso da agora árida Santa Comba. Ora há nomes que morrem depressa, o tempo do trespasse, outros transportam para sempre o peso imorredoiro da História. Pelos maus motivos, diríamos nós, mas gostos não se discutem, argumentaria o insigne autarca, um sábio engenheiro das novas eras. Pois é, a marca é que conta neste mundo de mercadorias, polémicas para quê? Mas a odisseia não acaba aqui, pois o pragmático autarca tem também uma costela espiritual. Para lá do negócio vinícola, está na sua mente com o dinheiro ganho nessas libações de Baco e com mais uns fundos arrecadados pelos devotos de Sua Eminência, o Dinossauro Excelentíssimo, como diria José Cardoso Pires, erguer um Museu para celebrar a memória do ditador.

Claro que neste Museu imaginário não entrarão certamente imagens iconoclastas do campo de concentração do Tarrafal, ou das prisões de Caxias, de Peniche ou do Aljube, onde o inspirado Pastor encerrava as almas transviadas dos deveres pátrios; ou a carantonha grotesca da Censura sempre atenta às palavras subversivas dos escribas vermelhos ou aparentados (rosados ou alaranjados), daí o contraste cromático do lápis azul; ou a proibição dos pobres de pedir nas ruas de Lisboa para não afugentar turistas mais sensíveis; ou as imagens nada abonatórias da cruel guerra colonial durante 13 anos, ou, maldição das maldições, essa subversiva cadeira de lona que o empurraria para a morte na flor da idade dos oitenta anos. Em contrapartida aí figurarão os chinelos de quarto; a caneta com que deu à luz os textos da sua gloriosa oratória; o vaso com alecrim a evocar a sua origem rústica; o seu Livro de Horas; uma fotografia a lembrar a sua saudação fascista; um estilhaço de unha encravada por causa das botas; o chicote com que se fustigava clandestinamente para afugentar os pecados da carne; postais de Fátima autografados pelos pastorinhos; um punhal com o qual trespassou os cromos de Marx e Lénine, emanações de Belzebu; um retrato de Humberto Delgado todo riscado a tinta azul e legendado com a frase “Aos traidores nunca perdoo”; as suas missivas para a Pide, aconselhando astuciosamente, para cada caso, o uso intercalar da cenoura e do bastão; um relatório das centenas de pobrezinhos que sempre caridosamente ajudou; a longa correspondência com o Cardeal Cerejeira e finalmente, entre outros artefactos, o térreo e terno penico que nunca largou em horas de aflição. Enfim, símbolos de um português que sempre soube gloriosamente unir o pragmatismo telúrico e a aspiração indelével aos azulinos destinos celestes.

Velazquez - Os Bêbedos (1628-1629)

Os peregrinos em Santa Comba aí poderão adquirir a preços módicos réplicas das relíquias do maior estadista português de sempre. Será um corrupio imparável das massas em direcção à Santa Terra, para gáudio da boa gente (especialmente comerciantes, hoteleiros e fabricantes de relíquias) do concelho e do seu líder autárquico. É o começo do fim da desertificação deste interior.

Ficará dele a imagem sacral do intrépido político que tão bem soube defender os valores do Ocidente contra o comunismo e as devassas democracias que não souberam entender os seus altos desígnios nesse Portugal que se estendia tão briosamente de Minho a Timor. Entre o devorismo de Sancho e as quimeras de D. Quixote parece assim oscilar a vontade do nosso exemplar autarca, ora fascinado com o cifrão, ora imbuído da nobre missão de resguardar das arestas do tempo a memória de Salazar, o maior obreiro da Pátria.

Claro que esta farsante democracia em que estamos bem contribui para o germinar dos nostálgicos do antigo regime ou para os mais jovens visionarem Salazar como o grande gestor pátrio, o estadista que equilibrou as finanças (o que até está na moda com o nosso Gaspar sob a batuta da Troika), construiu escolas, estádios, tribunais, bairros sociais para os pobrezinhos ou a majestática ponte sobre o Tejo agora chamada de 25 de Abril, uma vil usurpação onomástica. Historiadores para que vos quero? Países pobres e empobrecidos como o nosso não se podem dar ao luxo de pagar a historiadores, sobretudo os que pretendem dedicar-se a historiar o século XX, aqui tão perto das nossas paixões. Vivam os mais jovens com a memória do presente e os mitos do passado que bem lhes chega. E as universidades? Terão também apagado do mapa a brumosa História recente deste recanto para ócio dos reformados nórdicos? O pós-modernismo é que está a dar ou o pós-pósmodernismo, da vaga mais recente. E assim de pós em pós lá vamos cantando e rindo, num arraial de vaidades, pois o fascismo nunca existiu, foi tudo invenção de comunistas, adeptos do mau perder. Serventuários e lacaios do verbo é vê-los de bocas pandas a oficiar de acordo com os gestos do poder nessas televisões, onde se mima em tricas e tricas os convenientes gestos do centrão cada vez mais à direita e “neo-liberal”. E depois há sempre contentores para os esfomeados, esses respigadores dos novos tempos.

Mas quanto ao vinho Salazar, o pior que lhe pode acontecer, é que se a moda pega por essa Europa fora, teremos o vinho Franco, o vinho Pétain, o vinho Mussolini, o vinho Hitler, para não falar dos vinhos da América Latina, onde vários nomes emergem como candidatos de nomeada. Nessa Babilónia etílica ainda haverá então lugar para o Dão Salazar? Dá que pensar, Sr. Autarca!

PS – Não no sentido ritualístico acima visado, teria todo o cabimento a criação de um espaço reservado à exposição do imaginário social do Estado Novo (livros, cartazes, cinematografia, fotografia, etc.), ao mesmo tempo acessível ao público e a investigadores interessados na nossa História Contemporânea. Os mitos dos heróis providenciais encontram na amnésia colectiva o húmus propício para o seu crescimento, sobretudo, tal o caso actual, em períodos de crise. Confrontarmo-nos criticamente com o nosso passado é tanto um modo de nos situarmos no presente, como de nos projectarmos no futuro.

Caravaggio - Baco (1596-1597)

quinta-feira, 8 de março de 2012

As Representações do Feminino em Carlos de Oliveira


Graça Morais

Em O Aprendiz de Feiticeiro (1971), Carlos de Oliveira, tendo-lhe alguém notado que as mulheres pequeno-burguesas dos seus romances eram recorrentemente pecadoras mentais, explicita tal modelo mental em função de um contexto sociocultural específico que enquadra estas personagens da sua ficção: “A moral sexual da província portuguesa (onde se passam esses livros) é um caldo rançoso com alguns feijões de pedra no fundo, os mitos que todos conhecemos: noiva de hímen intacto, fidelidade conjugal só da mulher, prática convencionalíssima do amor, etc. A mulher, aqui, nem sequer pode considerar-se o objecto erótico do marido. Talvez fugidiamente nos primeiros meses, mas passa logo à condição mecânica de incubadora, se não for estéril; se for (porque não há-de ela perpetuar esta sociedade, esta moral?), torna-se quase desprezível. O erotismo é pois um jogo para homens, fora do santo país do matrimónio. [...] A mulher casada ou aceita o código em vigor, transformando-se no útero indiferente, transferindo os prazeres da cama para os filhos, os doces, a má língua, o croché, a caridade, um pouco de luxo se possível (vestidos, anéis, pulseiras), a mansa escravatura do lar [...] ou cai no erotismo imaginado, sem parceiro, a pior solidão”.
Inserindo o autor este paradigma cultural na tradição judaico-cristã, por isso extensível “a todas as comunidades ocidentais”, esta suspeição do homem relativamente à mulher, configurada num imperativo espaço de impureza inerente à sua natureza sexual, geraria um ódio latente ao feminino, que poderia coincidir, porém, com um  equívoco fascínio recíproco, convertendo-se ao longo da História, em períodos mais extremados, nos rituais do diabolismo, da feitiçaria ou da purificação pelo fogo. E acrescenta: “os resíduos de tal mentalidade, particularmente visíveis na consciência da província, são hoje o algodão em rama que serve aos homens para agasalhar e esconder no armário o esqueleto das suas mulheres”.
A ideologia do Estado Novo, acrescentaríamos nós, por outro lado, não é despicienda relativamente a tal problema, pois atribuía à mulher o mero estatuto de dona de casa e reprodutora, portanto, com raros direitos de cidadania e totalmente dependente no plano jurídico do poder marital, algo que era, aliás, comum à concepção nazi-fascista no que concerne ao papel ideal da mulher na sociedade.
Nos romances de Carlos de Oliveira, as personagens femininas da classe média (um primeiro plano das narrativas) exprimem a aceitação benévola de uma solidão imposta e dos rituais quotidianos inerentes à mulher num meio social de matriz machista. Aquelas são, pois, domésticas domesticadas de acordo com o padrão e os códigos sexuais dominantes. No micro-universo da Gândara, paisagem matricial obsessivamente reinscrita na obra de Carlos de Oliveira, surgem-nos ainda, embora num plano de retaguarda, as camponesas (um colectivo duplamente submetido) vergadas à impiedade da infértil terra gandaresa e dos seus senhores; e as criadas de servir que se ocupam fielmente e quase sempre sacrificialmente das tarefas que os patrões burgueses lhes impõem. Mulheres que nasceram para servir e doar afectos, e a quem cabe, por vezes, habitar no campo sexual o lugar vazio da matriarca (por ex., a personagem Maria dos Anjos de Casa na Duna). É, porém, no seu corpo que existe a capacidade de paixão (casos de Glória e Clara, respectivamente de Alcateia e Uma Abelha na Chuva) para lá dos códigos sexuais burgueses, sendo por isso vitimadas pelos preconceitos e os enredos senhoriais que directamente não lhes diziam respeito. Finalmente, releva-se o mundo da prostituição provinciana aceite na sua vísivel invisibilidade pelo bom senso burguês, onde a mulher mercantilizada se torna objecto erótico dos prazeres do macho insatisfeito com o amor doméstico. O corpo prostituído é a moeda de troca do “esqueleto da esposa no armário”, ou seja, morta a apetência erótica familiar é com ele que o homem desenvolve a cena imaginária da sua virilidade revitalizada, tal como se regista exemplarmente com o protagonista de Pequenos Burgueses. 

Fragmento de "Do útero indiferente ao erotismo imaginado: as personagens femininas nos romances de Carlos de Oliveira", Nova Síntese - textos e contextos do neo-realismo, n.os 2/3, 2007/08, Campo das Letras.
 
Silvestro Lega - Raparigas ao piano (1867)

sábado, 3 de março de 2012

José Afonso e as Cruzadas do Escriba Eurico



“Só para recordar”: “José Afonso era um defensor da luta armada, da ditadura do proletariado e dos princípios perigosamente lunáticos da esquerda mais radical, glorificando a acção política violenta em várias das suas canções, nas quais propunha, por exemplo, “atirar aos fascistas de rajada” […] Só para recordar, agora que se assinalam os 25 da sua morte e muita gente vai associar a palavra “liberdade” ao nome de José Afonso”.
Post de Eurico de Barros no blog “Forte Apache” (22-2-2012)
Senhor Eurico de Barros,
No Diário Notícias de 26-2-2012, ao passar os olhos por um artigo de um cronista semanal, dei conta de uma referência ao seu “post” aviltante para o músico e cantor José Afonso, no ano em que se comemoram os 25 anos da sua morte, embora a sua voz e perfil de cidadania o preservem do esquecimento, que é como se sabe a segunda morte dos mortos. Foi por isso com curiosidade que fui visitar o blog "Forte Apache" para analisar o estilo do seu grito de guerra. De imediato a sua prosa rasteira pareceu-me digna da indiferença, mas, posteriormente, reflectindo melhor, dei  conta que o seu “post” se integrava cabalmente no paradigma de uma certa direita caceteira cuja matriz longínqua está no “miguelismo” oitocentista, embora no seu caso disfarçada com roupagens liberais, por isso merecedora de algum esforço analítico. O seu caso só me interessa pois enquanto expressão de uma categoria mental do nosso imaginário colectivo. Ora aqui vai a minha prosa em jeito de desabafo e como modesto contributo para a memória do cantor que sabiamente articulou a arte musical com uma intervenção político-cultural direccionada para as camadas populares.
O José Afonso não cabe nesse quadro grotesco em que o inseriu, nem os que com prazer o evocam pela sua arte e pela coerência do seu trajecto de vida. Tem todo o direito de não gostar da música do autor, nem da sua personalidade ou da sua prática político-cultural, mas os contornos da imagem “contramítica” que dele produziu, com estereótipos convenientemente manipulados do chamado PREC (1974-75), libertam um bolor salazarento, uma nostalgia dos inquisitoriais tempos que queimavam os corpos e os olhos da alma. Só faltou chamar-lhe “estalinista”, a ele que sempre preservou a liberdade do gesto e, num anarquismo muito peculiar, sempre lutou contra as prepotências deste mundo.
A sua cruzada para “heroicamente” desmontar a mitologia de esquerda, consoante a sua “posta” sobre o cantor, tem aliás curiosos antecedentes, conforme vim a descobrir posteriormente na Wikipédia, onde o senhor é biografado, para além de crítico de cinema e jornalista do DN, como negacionista do Holocausto (“É também conhecido como negacionista do Holocausto”). Esta talvez  tenha sido a sua batalha nuclear em nome da liberdade de expressão. Com efeito a sua militante postura face àquilo que considera outra ficção da História (“E. B. não acredita que o Holocausto tenha feito 6 milhões de mortos” 1) ajuda-nos a entender a formatação ideológica da sua homilia contra o cantor: o Holocausto praticado pelo nazismo, durante a 2ª Guerra Mundial, alinhando parcialmente com o “negacionista” David Irving, um historiador britânico simpatizante do anti-semitismo nazi e teórico do revisionismo histórico da epopeia hitleriana, condenado, em 2006, a três anos de prisão, na Áustria, pena que viria a ser reduzida para 13 meses, com o qual o Sr. Eurico teria trocado correio electrónico, não teria, portanto, passado de uma reles efabulação de  judeus e historiadores preconceituosamente anti-nazis. Claro que o senhor é um confesso não-nazi e um amante da liberdade, por isso um implacável perseguidor das mentiras convencionais que muitos mal-intencionados fabricaram sobre os confrontos políticos e militares da contemporaneidade. No plano internacional, eis o Eurico, não o presbítero, cavaleiro andante em busca do Graal da História ou da sua dama (a Verdade Verdadeira), arauto da sagrada liberdade de investigação, sobretudo de temas que são considerados “tabus religiosos”. Ora o Holocausto, segundo D. Irving, terá sido mais uma pérfida manobra de judeus para se vitimarem. E assim se diabolizou o Hitler (“o maior amigo dos judeus na Alemanha desde o início da guerra”, segundo D. I.) e seus capangas, pois além do mais a História é sempre escrita pelos vencedores. Mas para repor a verdade aí estão os Euricos para libertarem o nosso mundo dos falsificadores da História. Nem sei se alguma vez leu Mein Kampf (1924) de Hitler, onde o preclaro futuro estadista declarava: ”Eméritos conhecedores das possibilidades do emprego da mentira e da calúnia foram em todos os tempos os judeus. Começam eles a mentir ao tentarem provar ao mundo que a questão judaica é uma questão religiosa, quando, na realidade, se trata apenas de um problema de raça…e que raça! Um dos maiores espíritos da humanidade [Schopenhauer] estigmatizou esse povo com uma frase, que ficará eternamente justa, quando os designou como “os maiores mestres da mentira”. Quem não reconhecer essa verdade ou não quiser reconhecê-la, não poderá nunca concorrer para a vitória da verdade “.
Pois é a verdade, sempre a verdade. Se não leu, o que duvido, estará de acordo que parece ser um fragmento inspirador da demanda negacionista neste mundo de trapaceiros da História. Mas regressemos a casa, pois desconheço outras gloriosas batalhas desta sua odisseia pela Verdade, e à actualidade, onde uma nova gesta se anuncia a fim de libertar as mentes nubladas por um mito esquerdizante: “Só para recordar, agora que se assinalam os 25 da sua morte e muita gente vai associar a palavra “liberdade” ao nome de José Afonso”. Deveras preocupante! E que recorda o Sr. Eurico? Da vida do cantor a sua acção político-cultural, convenientemente destorcida conforme convém, no conturbado período sequente ao 25 de Abril, de 1974 ao 25 de Novembro de 1975. A luta do poeta-cantor, no período da ditadura, onde sofreu perseguições e mesmo a prisão em Caxias, foi simplesmente omitida. Então no seu labor de desconstrução deste mito “esquerdista”, mais uma cruzada em nome da verdade, eis o cavaleiro Eurico a anatematizar o cantor, por ter sido apologista da violência revolucionária, dos princípios da esquerda “perigosamente lunática”, militante das campanhas de dinamização cultural do MFA (um escândalo num mundo rural dominado pelo analfabetismo),  apoiante do 11 de Março e das arbitrariedades da Reforma Agrária etc. etc. etc. E teria chegado mesmo a enunciar a crueldade de “atirar aos fascistas de rajada”, frase que o Sr. Eurico adulterou e descontextualizou a partir de um verso  de uma canção de Zeca Afonso. O Sr. Eurico, que tão preocupado está com a saúde da nossa memória e do nosso imaginário colectivos, esquece que tal período foi de confronto agudizado entre duas visões da democracia portuguesa, tendo aliás a visão que viria a vencer alianças pontuais e espúrias com a extrema-direita (cf. a acção terrorista do ELP).  Para simplificar diria que de um lado da barricada estava a força da utopia, do outro a força do pragmatismo, mas que paradoxalmente, como os caminhos da História são sinuosos, nos acabaria por conduzir à trágico-cómica situação actual, falidos e infinitamente enredados nas teias do capitalismo financeiro. Dos dois lados da barricada houve excessos, embora convenhamos que a dita Revolução de Abril, para o bem e para o mal, foi ardendo e ardeu nos lusos brandos costumes ou num clima português-suave. Houve algumas vítimas, mas curiosamente mais à esquerda do que à direita. Quase quatro décadas depois seria desejável o proliferar de análises lúcidas sobre o PREC, embora saibamos que não há enunciadores libertos das suas convicções ideológicas. Ora o discurso do Sr. Eurico não só não acrescenta nada ao já dito pela direita lusitana, mas também pelo seu tom radical e provocatório vem contribuir para incendiar os ânimos. Tem porém um atributo: revelar uma conflitualidade violenta não resolvida porque razoavelmente recalcada (veja-se o tom dos comentários dos seus prosélitos no referido blog), o que não é uma originalidade portuguesa, basta ver, guardadas as devidas distâncias, o que está a acontecer na vizinha Espanha com o reacender das disputas em torno das memórias da guerra civil (1936-39).



Por outro lado, goste-se ou não do perfil humanista e libertário de José Afonso, o quadro grotesco em que o Sr. Eurico o quis inserir é um mero acto calunioso. Quantos cantores, com a sua qualidade, trocariam a carreira por um empenho político-cultural na luta popular por uma democracia socialista. Além disso, em última instância, a arte não é redutível a uma leitura meramente ideológica, ou pior ainda a uma caricatura feita de estereótipos comportamentais tal o caso do texto do Sr. Eurico, ilustre escriba do Diário de Notícias. Mas, em abono da verdade, diga-se também que a sua personagem, digna de perfilar na galeria acaciana de Eça, ignora qualquer apreciação da qualidade específica da arte (canto e composição) de José Afonso. Ele não foi um rudimentar cantor-panfletário, mas um músico que soube aliar a espontaneidade comunicacional a um complexo tratamento da linguagem musical, algo reconhecido por muitos musicólogos não alinhados no seu campo político. No seu “post”, o único objectivo é o de achincalhar o seu perfil de combatente pela liberdade, como forma de desmitificar um “ídolo” da democracia aos olhos de “muita gente”. Mas há desconstrutores de mitos, tal é o seu caso, que, em nome da verdade e da liberdade, deixam escapar o lastro de uma outra mitologia, fundada na intolerância e, portanto, incapaz de reconhecer talento nos que se situam na oposta orla ideológica.
 De qualquer modo convém lembrar, entrando no jogo daqueles que não se identificam com o modo de ver e estar no mundo do Zeca, que, por exemplo, Fernando Pessoa era politicamente um conservador liberal anti-democrático ou, segundo Raúl Morodo, um nacionalista libertário e “sintético”, ou, num outro nível, Amália Rodrigues foi, a contragosto, um símbolo cultural da ditadura, mas, tal como José Afonso, apesar das ideologias, pela sua arte, diversamente praticada, todos eles ficarão na memória colectiva, enquanto o escriba Eurico estará condenado a mergulhar subitamente no rio de Lete. E José Afonso não foi apenas um grande cantor e músico, foi também um excelente poeta, daqueles que fazem dançar as palavras, daí o meu convite à leitura de Textos e Canções, Lisboa, Relógio d’Água, 2000. Mas talvez a “violência” das palavras de Eurico não pretendam apenas denegrir o cantor, mas todos aqueles que assumiram o 25 de Abril como um símbolo de caminhos alternativos à desumanidade reinante neste mundo dos “barões do cifrão”, para parafrasear Almeida Garrett. Ou como cantou José Afonso, ”A bucha é dura/ Mais dura é a razão / Que a sustém / Só nesta rusga / Não há lugar / P’rós filhos da mãe”.
1 Todas as informações sobre a militância “negacionista” de Eurico de Barros foram extraídas da sua biografia na  Wikipédia e do artigo do Correio da Manhã “Preso por negar Holocausto” (21-2-2006). Refira-se ainda que, neste texto, Eurico de Barros surge como um dos portugueses que estão ao lado de Irving. Outros nomes referenciados no campo “negacionista” são os de Silva Resende, Mário Machado (Frente Nacional) e José Pinto Coelho (PRN). Assinale-se finalmente que o Sr. David Irving continua actualmente a sua campanha pela reabilitação de Hitler nos EUA e na Europa.



domingo, 19 de fevereiro de 2012

Deambulações em torno de "O Labirinto da Saudade" de Eduardo Lourenço (1)

Magritte - La Mémoire (1948)



Em dois ensaios insertos neste volume (“Psicanálise Mítica do Destino Português”, 1978, e “Da Literatura como Interpretação de Portugal”, 1975), o ensaísta, no contexto do pós-25 de Abril, revela-nos o modo paradoxal como nos fomos imaginando desde os primórdios da nacionalidade, com particular incidência no século XIX. Aliás, diríamos com mais acerto o modo como as nossas elites culturais foram construindo ou reconstruindo a nossa mitologia em prol da comunidade imaginada chamada nação portuguesa. Um povo, para lá de actor histórico, é um produtor de auto-imagens que virtualizam a sua identidade e, portanto, a sua relação com o mundo. Ora o que o autor salienta como núcleo duro dessas constelações imaginárias decorre do "irrealismo" como nos fomos retratando ao longo dos séculos: à nossa fragilidade enquanto actor na história do ocidente, contrapusemos uma ideal imagem de nação messiânica com um destino e uma génese providenciais. Mas esse irrealismo em momentos de crise, sobretudo a partir do romantismo, viria a transformar-se em prolíferas imagens da "nação-cadáver", ora em busca dos símbolos da ressurreição ora em irreversíveis perdições. Tal consciência infeliz decorreria da fixação mítica numa idade do ouro da nossa história, seja a medievalidade idealizada por Alexandre Herculano, seja a efémera glória da nossa aventura dos descobrimentos, entre o século XV e o início do século XVI, cristalizada nas palavras sublimes e heróicas de Camões, simultaneamente epopeia e epitáfio, sinfonia e requiem, tal como nos surge no poema romântico de Almeida Garrett sobre o épico em 1825.  Para Eduardo Lourenço, com os nossos românticos «Portugal, enquanto realidade histórico-moral, constituirá o núcleo da pulsão literária determinante». Ou seja, a problematização do eu individual integra como inevitável comparsa o drama do eu colectivo. É óbvio que as circunstâncias histórico-políticas que envolveram os dois românticos podem explicar essa comunhão de destinos. Ambos combateram na causa liberal contra o absolutismo e  confrontaram-se  arduamente com os fluxos e refluxos na implantação do liberalismo, sendo compelidos ao exílio no período do “miguelismo”, ou com os desencantos resultantes das tensões no próprio campo liberal,  após a vitória na guerra civil de 1832-1834. O nosso liberalismo foi pois um palco de lutas entre os “devoristas”, os ritualistas do “cifrão”, ou como Garrett lhes chamou caricaturalmente o novo reino dos “barões”, e os que idealizaram a nova pátria como o rosto da ressurreição moral desenhada pelos ilustres cidadãos que assim substituíam os súbditos do “ancien régime”.     

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Eça, os vampiros e a morte das velhas livrarias

August  Macke - Mulher a ler em poltrona vermelha (1910)

Os cafés como as livrarias eram espaços simbólicos das gerações literárias – a de 70 (Eça, Oliveira Martins, Antero, Ramalho, etc.) – e a de 90 (Raul Brandão, António Nobre, Alberto de Oliveira, Camilo Pessanha), no século XIX, a do Orpheu, a da Presença, a neo-realista, a surrealista, no século XX, para citar alguns exemplos –, de tal modo que seria bem importante para a nossa história cultural moderna fazer a cartografia desses lugares mágicos.
Sobre a lenta agonia ou a morte dos cafés já me referi na crónica “Cafés, Tertúlias e Memórias” (28-12-2011), por isso hoje vou apenas voltejar em torno do desaparecimento das livrarias com história. Estas eram obviamente um negócio, mas também um lugar de ócio criativo para os leitores. Havia uma relação personalizada entre o livreiro e os clientes – o diálogo era um acto cultural. Com o advento das catedrais do consumo e as FNACs deste mundo, o atávico baixo consumo cultural português, agravado pela chamada crise económico-financeira, as livrarias da tradição foram encerrando e o livro tornou-se uma mera mercadoria. Não há qualquer diferença entre vender um par de sapatos, um livro ou um CD. O negócio excluiu o ócio criativo, ou melhor, explora o reino das bestas céleres, com a boa consciência dos consumos massivos e efémeros. Com uma agravante: a exposição e a promoção das obras obedecem aos critérios das grandes editoras nacionais e internacionais, daí que 80% dos livros expostos em escaparates ao engodo do consumismo sejam lixo estético.
Vem este arrazoado a propósito de uma recente polémica em torno do slogan “Troque Os Maias por Meyer”, inserido na “bem intencionada” campanha promocional da FNAC com o lema “A Cultura Renova-se”. Ou seja, substitua o arcaico romance do Eça pela genial autora de romances vampirescos, a jovem escritora americana Stephenie Meyer (n. 1973), que com a sua saga Crepúsculo terá já vendido em todo o mundo 120 milhões de exemplares (sobre o modismo vampiresco remeto humildemente para o meu texto, “Gastronomia, sangue fresco e vampiros”, 26-2-2011). Esta autora, abnegada fiel da Igreja de Jesus Cristo dos Santos Últimos Dias, era uma normal cidadã americana até que uma noite teve uma inspirada visão onírica do Reino dos Vampiros. Segundo a revista Forbes, em 2010, tornar-se-ia com esta divina inspiração a 59ª celebridade mais poderosa, com um salário anual de 40 milhões de dólares. Na senda dos Stephen King, Anne Price, Mark Hagen e Charlaine Harris, esta escriba iluminada tem a capacidade de transformar sem esforço o sangue das palavras em dólares. É um sinal dos tempos que a mordacidade de Eça teria comentado com o seu humor corrosivo, como o fazia quanto às mistificações culturais coetâneas, caso estivesse entre nós. Mas, aos olhos dos programados decisores da FNAC, os clássicos são lixo, por isso, num gesto de beneficência exemplar, apenas bons para serem lidos pelos “pobrezinhos” deste mundo via AMI.
Juan Gris - O livro aberto (1925)

Segundo a FNAC Portugal, este gesto caritativo visa “mobilizar as pessoas para um gesto solidário que oferece, simultaneamente, uma mais-valia promocional em que todos os livros […] que as pessoas têm em casa e que já leram […] possam ser reutilizados ao serem oferecidos a quem, provavelmente, nunca teve a oportunidade de contactar com essas mesmas obras clássicas, das várias áreas da cultura”. E obviamente “incentivar [com um vale de 5 euros] o interesse do público em geral por novos produtos e conteúdos culturais nas áreas da música, dos filmes e dos livros”. Ou seja, se tens a estante cheia de Pessoa, Eça, Camões ou Sá de Miranda, despeja-os na benemérita FNAC, pois assim terás lugar para os efémeros autores da moda. Os protestos contra o trocadilho de mau gosto (Maias/Meyer) foram tantos que a caridosa FNAC resolveu suprimi-lo da dita campanha cultural, mas acrescentando que nunca foi seu propósito desvalorizar os nossos clássicos. Tratava-se apenas de opor inocentemente, em angélicos propósitos modernistas ou pós-modernistas, os velhos alfarrábios pelos últimos sussurros dos vampiros do espírito. Assim se renova a cultura. O paradigma é óbvio: o livro usado fica desusado, logo, como qualquer objecto de consumo, vai para o lixo ou, graças à benemérita FNAC, num quadro ecológico, recicla-se para o terceiro mundo. Por isso, nestes armazéns de livros, raramente se acham as obras dos nossos clássicos, com a conivência das grandes editores que não os reeditam. Quando numa destas lojas perguntei pelo Céu em Fogo de Sá-Carneiro, logo um empregado solícito, após consulta no computador, me informou que havia uma edição da Assírio & Alvim, mas para o adquirir teria de me dirigir à editora. Este é o panorama cultural português, bem distante do francês ou dos países anglo-saxónicos, apesar dos virtuosos fazedores de vampiros. E a nossa Secretaria de Estado da Cultura, distraída como sempre, não poderia fazer algo para incentivar a reedição dos nossos clássicos a preços módicos? Assim se vai perdendo o que resta da nossa identidade cultural. Por favor não me mordam o pescoço!
PS. A distinta jornalista do Público, de seu nome Cláudia Carvalho, feitora do artigo (31-1-2012), em que me baseei para este comentário, parece não ter também grande apreço pelo Eça, pois designa Os Maias “como romance histórico” (?). Das duas uma: ou não sabe o que é um romance histórico ou nunca leu o romance, nem mesmo um resumo escolar. E não é que o meu pescoço já está mesmo a sangrar!  

Magritte - La lectrice soumise (1928)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Os corpos usados e o declínio da sociedade-providência

Goya - Mulher velha

Desde o início do ano foram encontrados 12 mortos nas casas da solidão. Mortes sem sobressaltos, sem direito a notas de ternura de amigos e familiares ou a duas linhas efémeras nas páginas de um qualquer jornal. Mortos no anonimato de quem há muito não tinha nome, nem desejos, nem desilusões, porque mortos em vida. Velhos em ruptura com quaisquer elos sociais, de facto existiam como se não existissem. Condenados a um autismo sem culpa formada, apenas o rumor longínquo de um vago monossílabo recordado pelo comerciante da esquina ou um vizinho ficara deles nas rugas da memória. Claro que morrer é sempre um exercício de solidão, mas estes morreram para os outros como se nunca tivessem existido. Literalmente apagados do mundo dos vivos, ténues manchas diluídas nas páginas do livro da vida. Apenas os seus corpos putrefactos ou mumificados, tudo depende do tempo da macabra descoberta, são a mais-valia noticiosa. E tudo isto está a acontecer tanto no árido espaço suburbano, como no rural, onde as aldeias cada vez mais desertificadas já não têm o vizinho providencial num processo de interajuda. A sociedade-providência está a declinar e o Estado-Providência rudimentar e cada vez mais fragilizado não tem asas para o substituir. A ruptura geracional e a débil sociabilidade lusa, agravada pela crise económico-social, estão, por outro lado, na raiz do problema. Neste mundo de afectos ausentes e de mercantilização dos seres, a esperança média de vida aumentou substancialmente, graças ao progresso da medicina e ao ainda que debilitado Serviço Nacional de Saúde. Mas a dignidade do envelhecer não a acompanhou!


Célia Pena - No seu canto


domingo, 22 de janeiro de 2012

O Carnaval Negro

Ensor - A Morte e as Máscaras (1897)



"Tudo somado [todas as reformas] quase
de certeza que não vai chegar para pagar as minhas despesas"

Cavaco Silva

Nesta conjuntura trágico-cómica a irrisão talvez seja o único modo catártico de encenar o nosso mal-estar. Por isso o nosso douto Presidente teve a sensatez de brincar aos pobrezinhos como a infortunada Rainha Maria Antonieta fizera, em Versailles, no crepúsculo do “ancien régime”, onde num cenário bucólico se comprazia em mascarar-se de moleirinha no seu “Petit Trianon” para gáudio enfarinhado dos seus cortesãos.
Desta feita como a humildade rural já não está na moda, o nosso Cavaco mascarou-se de urbano sem-abrigo, antecipando umas semanas o período do ritual carnavalesco. Num país de pobres cada vez mais pobres como um fado colectivo, o Presidente só podia ser também um pobre, e, embora com  140.000 euros anuais mais as mordomias presentes e futuras  inerentes ao cargo, foi tão longe a sua identificação com o povo que quis sentir na pele postiça o sofrimento dos dois milhões de pobres mais os milhões que estão a vir não tarda. "Ah, ser como vós um espoliado da sorte não o sendo, no meu conforto real de ultra privilegiado". Que bela pedagogia! Assim os pobres de verdade quando se queixam da fome, alimentam-se com as fantasias do ser supremo da nação. Se até ele sofre com as carências, como poderemos nós humildes cidadãos revoltarmo-nos com a nossa triste condição? E é vê-lo num imaginário corrupio a esticar a corda para pagar a continha, salvo seja, da mercearia e da farmácia. O que lhe vale é o mealheiro da sua Maria, previdente como todas as Marias, mais um gesto exemplar de civismo, pois a palavra de ordem é poupar, poupar, até ao tutano, como bem dizia o nosso saudoso Salazar. Contrariamente aos maldosos críticos de tal postura presidencial, eu humilde escriba deste reino do absurdo, te compreendo e apoio. E vou mais longe, porque não uma destas noites abrigares-te com a tua Maria, sempre te aquece os pés, num esconso vão de rua, à beira do teu palácio, cobertos por cartões das tuas garrafeiras, e, num directo televisivo, expores as tuas chagas pelo frio das trevas. Que jeito exemplar de mostrares à troika, às agências de rating, enfim ao mundo (até os chinocas terão pena de ti e por metonímia de todos nós, isto é dos pobres e os em vias de o serem, que dos ricos cada vez mais ricos reza a outra História), até onde vai a capacidade de resgate deste povo. A televisão e a imprensa bem domesticadas, como ajuizadamente defende o teu assessor político, um tal Lima, darão em imagens retóricas o teu gesto magnânimo. O povo ordeiro mergulhado em lágrimas acolherá no seu seio o teu gesto grato e seguirá o teu exemplo: vão-se os anéis, vão-se os dedos, as casas e os arrebiques, todos a dormir na rua que o relento endurece o corpo e a alma. Ou, numa versão neo-realista, são apenas esqueletos e esses não têm frio. E se o apocalipse estiver à porta, podes sempre dizer: “bom povo era apenas uma brincadeira de carnaval; de facto eu vivo num palácio, vocês numa choupana”. E, meu caro Presidente, desculpa-me o atrevimento de te tratar por tu. É carnaval ninguém leva a mal, e tu certamente também não. Um rei sábio o povo fará sábio, mesmo que seja apenas um ritual do entrudo.
P.S. O título foi-me emprestado pelo meu amigo Raul Brandão, que em coisas de farsas trágicas é um perito afamado.



sábado, 31 de dezembro de 2011

O Tempo é um Rio sem Margens

Chagall - O tempo é um rio sem margens (1930-39)

 
 
  Ano novo, vida nova. No percurso da nossa finitude dominado pelo tempo vectorial, para atenuar a imagem do nosso inexorável fim, fomos inventando os rituais do tempo cíclico, específico das Estações, das fases da lua ou da sucessão dos anos, neste caso, imaginando que a renovação do mundo velho incorporado no simbólico ano que termina pressupõe a encenação do caos. Ordem velha, caos e nova ordem. Por isso no trânsito entre o ano que termina e o que começa o esplendor do ruído simula simultaneamente a festa da ruptura imaginária e a efémera desordem inerente a um ritual de passagem. Antigamente, até onde a minha memória alcança, nos bairros populares de Lisboa era costume deitar para a rua os trastes velhos, como se com eles deitássemos borda fora o tempo velho. Hoje mais artificiosos, ao ritmo da festa dos fogos de artifício, do borbulhar do champanhe ou espumante, consoante as bolsas, e da gritaria, clamamos os desejos para o novo ano, comendo, segundo a nossa tradição, as doze mágicas passas. Mas, como “o mito é o nada que é tudo” (Fernando Pessoa), que seria de nós sem estas formas ardilosas de ludibriar o tempo “real”? Se não fosse a fantasia colectiva seríamos meras máquinas racionais subjugadas aos imperativos de Cronos. As ficções que criamos são a verdade da nossa mentira. É um jogo, no teatro da vida. O outro tempo é um mistério e a consciência angustiada da nossa finitude, mas ninguém pode viver permanentemente no fio da navalha, por isso criámos os tempos que tanto regulam a vida social, como nos libertam provisoriamente das imagens angustiadas do fim, de cada um de nós ou do universo de valores em que podemos dizer eu ou nós. Por isso cada civilização tem o seu modo próprio de contar o tempo de acordo com os seus paradigmas mitológicos. A passagem de ano é pois um tempo de festa, embora nem todos a possam viver como tal, nas ruas, no turbilhão dos corpos, na intimidade da casa entre amigos, ou nos comerciais “réveillons”  dos hotéis, fábricas de produzir euforia. O tempo é um rio sem margens, estas são uma construção da nossa imaginação.

Um Bom Ano para todos!



sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Histórias dum Império Crepuscular – O Fado Tropical

Afonso de Albuquerque (1460-1515)


Comemoraram-se há dias (18-12-2011) os 50 anos da queda do então designado Estado Português da Índia (Goa, Damão e Diu), após invasão ou acção de libertação, consoante as perspectivas, das forças armadas da União Indiana, com a sequente anexação do que restara do império colonial português naquele território. Também em 4 de Fevereiro do mesmo ano (1961), nacionalistas angolanos atacaram, em Luanda, a Casa de Reclusão Militar, o quartel da PSP e a Emissora Oficial de Angola, movimento insurreccional que sinalizou o início da revolta dos povos africanos pela sua emancipação relativamente ao poder colonial português. Enquanto o sequestro do paquete Santa Maria, cerca de um mês antes, por um comando liderado pelo capitão Henrique Galvão, procurava denunciar ao mundo a natureza ditatorial do chamado Estado Novo. Demoraria ainda treze anos a morrer de podre tal regime que fundia, no seu imaginário mitológico, a aldeia (o terrunho idealizado) e o expansionismo imperial (o génio português em errância pelo mundo), tal como fora cenograficamente celebrizado na Exposição do Mundo Português em 1940. O ano de 1961 seria, pois, o da anunciação simbólica do ciclo final desta versão portuguesa do “fascismo”.
 O ditador Salazar, cego, como não podia deixar de ser, ante os sinais premonitórios do fim, puniria exemplarmente os responsáveis pela rendição das forças militares portuguesas na Índia, pois, na óptica do ditador, a  sua quase nula resistência à invasão teria o odor de traição. Quatro mil e quinhentos homens mal armados deveriam pois heroicamente confrontar-se até à morte com os quarenta e cinco mil militares indianos superiormente armados. Salazar precisava, como pão para a boca, desse sangue redentório para promover aos olhos do mundo a imagem mítica duma pátria ferida pelo belicismo indiano. Sequentemente, o último governador do território, o general Vassalo e Silva, passaria, num trocadilho demolidor, a ser designado, nos corredores oficiais da caricatura, como “Vacila e Salva-se”. E apenas viria a ser reabilitado e reintegrado no aparelho militar após a Revolução de 1974. São estas as histórias do canto do cisne do último Império colonial do Ocidente; de traidores porque não souberam ser heróis, de cobardes rendidos porque não souberam ser redentores. Por isso, mesmo os militares sem responsabilidades de comando, ao regressarem à metrópole, seriam recebidos pelo poder, após 5 meses de aprisionamento pelos indianos, com hostilidade. Dos fracos e "traidores" não rezaria a história do fascizante Estado Novo.
Quanto à África, o “orgulhosamente sós” de Salazar, ante uma comunidade internacional ingrata e incapaz de compreender a gesta da ocidental nação lusitana, tornar-se-ia voz de comando de uma acção colectiva punitiva contra os “turras” (“Para Angola, rapidamente e em força”) em defesa das “nossas províncias ultramarinas”, tal como eram designadas pelo discurso oficial, sendo abolida do vocabulário, porque subversiva, a palavra “colónias”. A expressão “guerra colonial”, que efectivamente duraria 13 anos, seria então uma sigla clandestina usada apenas pelos “traidores” à pátria. Veio então o tempo doloroso da partida, em Lisboa, dos navios soturnos com os soldados a acenarem milhares de lenços brancos, como pombas da paz que não teriam, para familiares e amigos, nos cais do nosso crepuscular destino imperial. Embora muitos jovens se recusassem a tal cruzada, partindo também mas clandestinamente na vaga de um milhão e meio de portugueses que procuraram, numa nova fase da nossa tradicional diáspora, entre 1960 e 1974, além-Pirenéus uma vida mais digna. Sacrificaram-se assim em vão gerações de portugueses e africanos por causa de uma visão da História anacrónica, cruel e fantasmática. Mas se dantes emigravam contra a vontade do poder, agora é o poder paradoxalmente que apela aos jovens para emigrarem, nas vozes plastificadas do nosso Primeiro e de um dito Secretário para a Juventude. Será fado português não ter casa para os seus filhos? O outro mandava-os para a guerra, este para a labuta na estranja ou, numa versão mais temperada, nos países lusófonos. Será destino colectivo ou serão jogos do acaso?
  Ainda hoje, embora recalcadas, as feridas dessa absurda guerra e da chamada descolonização, após o 25 de Abril, não estão completamente saradas. Também o modo de avaliação do longo ciclo colonial português de 5 séculos não é consensual, ainda que esse confronto ideológico não se assuma pelo diálogo aberto e visível, no espaço público, mas se sustente de não-ditos entre os nostálgicos do Império e os que tentaram desocultar as suas mitologias, reactivadas na segunda metade do século XX, quer em torno de um luso-tropicalismo exemplar  (Gilberto Freyre) ou da atitude de tolerância, específica do nosso colonialismo (Jorge Dias), quer, com diversas variantes, do afamado  padrão cultural da nossa miscigenação com outros povos (reveladora de “uma certa liberdade em relação às fronteiras culturais, uma certa promiscuidade entre o Eu e o Outro, uma certa falta de preconceitos culturais, a ausência do sentimento de superioridade que caracteriza, de modo geral, os povos de cultura ocidental”, como referiu António José Saraiva). Mas tudo isto pode ser interpretado de outra maneira: “No caso de Portugal, a função de intermediação assentou durante cinco séculos no império colonial. Portugal era o centro em relação às suas colónias e a periferia em relação à Inglaterra. Em sentido menos técnico, pode dizer-se que, durante muito tempo foi um país simultaneamente colonizador e colonizado. Em 25 de Abril de 1974, Portugal era o país menos desenvolvido da Europa e, ao mesmo tempo, o detentor único do maior e mais duradouro império cultural europeu” (Boaventura de Sousa Santos). Ou seja, a singular mestiçagem cultural da nossa colonização dever-se-ia então não a uma qualquer idiossincrasia "genética", mas à nossa fragilidade económico-política, militar e demográfica, enquanto potência colonial no quadro da relação de poderes no mundo ocidental. Aliás, sendo um dos factos referidos por António José Saraiva, para sustentar a tese da nossa original miscigenação cultural, a carta de Afonso de Albuquerque (1460-1515), vice-rei da Índia, ao rei de Portugal, “propondo o casamento entre portugueses e indianas como forma de povoar o território”, numa estratégica tentativa de criar uma “raça luso-indiana”, um modo de obviar à nossa escassez demográfica na metrópole (à volta de dois milhões, número curto para tanta expansão); tal capacidade de tolerância na aceitação do outro seria mais tarde totalmente desmentida com a criação do inquisitorial Tribunal do Santo-Ofício de Goa, em 2 de Março de 1560, prática persecutória orientada tanto contra o criptojudaísmo, o cripto-islamismo ou as heresias protestantes, como sobretudo contra o hinduísmo. Note-se, de resto, que Goa foi o único espaço colonial português que teve o “privilégio” de receber tal instrumento de intolerância, o que se prolongaria até 1812. Entre os aculturados indianos, sobretudo afectando as elites, aos valores do catolicismo luso e os outros, há ainda muitas histórias por contar. De violentações, mas também de negociações e cumplicidades.
Não tivemos obviamente o monopólio da intolerância ou da violência no que concerne à odisseia colonial, mas convém não limpar o sangue que nos escorreu das mãos em nome da cruz, de uns míticos brandos costumes ou de uma congénita abertura para o outro, segundo a qual o “mulato” seria uma quase invenção lusa. Claro que não podemos avaliar os eventos históricos descontextualizados dos sistemas de valores dominantes em cada época, mas, neste mundo turbulento e contraditório em que vivemos, olhar crítica e criativamente para a nossa História, o que pressupõe diálogo e não monólogo, pode ajudar-nos a entender o momento de encruzilhada em que nos encontramos, desta feita no quadro do nosso ciclo “europeísta”, onde continuamos tão periféricos como no início (1986) ou na fase do ciclo imperial. Não estaremos, aliás, de novo, numa fase de crise profunda da nossa identidade colectiva?  
Quanto à nossa capacidade de aceitar o outro, conviria, por outro lado, como exercício, fazer o balanço de 30 anos de recepção dos imigrantes sobretudo africanos (situação sociologicamente nova em Portugal), pois talvez encontremos aí algumas respostas pertinentes para o entendimento hodierno das nossas relações culturais com comunidades coexistentes no nosso espaço físico, demasiado “ghetizadas” por ausência de diálogo e vontade de plena integração do outro.
Como remate para estas digressões um pouco caóticas, vêm mesmo a calhar estas palavras do “Fado Tropical” (1971-72) de Chico Buarque da Holanda: “Sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro). Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…”.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Somos todos culpados...


Ensor - A Entrada de Cristo em Bruxelas em 1889 (1889-90)

  "Portugal não caiu nesta crise por culpa dos mercados malvados, das agências de rating implacáveis, de políticos corruptos; de banqueiros irresponsáveis, de empresários medíocres e de sindicatos anquilosados. Portugal caiu nesta crise por culpa de todos, sem excepção."

Editorial (António Ribeiro Ferreira e Ana Sá Lopes) do jornal i, , 15-12-2011


Pela minha parte aí vai o mea culpa pelo milionésimo grão de responsabilidade que me cabe em sorte! Antes de mais culpados pela ousadia de existir neste terrunho implantado no extremo ocidental da Europa, pelos rituais de queixumes e lamentações que libertamos quando nos aproximamos do abismo, algo que já experienciámos noutras ocasiões de crise ao longo da nossa já longa História. Culpados pelo medo de agir, de questionar os sagrados poderes que nos foram retirando a energia de ser alguma coisa, por humilde que seja. Culpados por imitarmos toscamente os modelos de vida que mediaticamente nos chegavam dos eldorados do consumo. Culpados porque herdámos essa difusa infracção dos nossos primeiros ascendentes, a de terem comido o fruto proíbido. Culpados por aceitarmos como um fado a irresponsabilidade das elites políticas que nos governaram nas duas últimas décadas. Culpados por termos uma justiça que pune os criminosos de baixa estirpe social e deixa à boa vida os colarinhos brancos mesmo que sujos de sangue. Culpados porque nos deixámos lograr por banqueiros (os de cá e os da estranja) e suas clientelas sem escrúpulos. Culpados pela democratização dos odores da corrupção. Culpados por termos desejado um Estado Social, pelos vistos a destempo. Culpados por de barriga ilusoriamente farta nos termos sujeito á sagrada usura dos mercados. Culpados pelo vazio de ideais e projectos colectivos, pela destruição do aparellho produtivo. Culpados pela iliteracia de muitos dos nossos empresários. Culpados pelos soberbos e céleres ferraris nas ruas de desempregados e sem-abrigo.Culpados também pela crise sistémica (?) do capitalismo. Depois desta catarse confessional, talvez já não me condenem a alma às labaredas do Inferno!

Sr. António e Sr.ª Ana, a vossa retórica de comover os espíritos mais empedernidos é de facto a melhor terapêutica para apagar a responsabilidade maior de quem nos conduziu a tal desenlace. Quando dizem "Portugal caiu nesta crise por culpa de todos, sem excepção", esta asserção totalitária significa que realmente a culpa democratizou-se e assim nos liberta das justas acusações aos eleitos por tal descalabro. Ou será que acreditam ser possível levar à barra de tribunal cerca de 10 milhões de meliantes? Melhor seria (será?) talvez condenar ao desterro os espoliados de sempre. Mas, senhores, porque vos coube a vós ser a incarnação do superego colectivo? Pela minha parte submissamente me ajoelho ante a vossa voz acusatória e divinal. Lá nos encontraremos um dia no purgatório!



Ensor - A Morte e as Máscaras (1897)



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A Paisagem, o Provincianismo e a Barragem do Tua



“E os socalcos do Douro construíram-se para guardar a terra criada pelos homens, e na terra que os homens criaram e conservam, arrecada-se a vida de infinitas gerações.”
Alves Redol

Um povo que não se reconheça no espírito da sua paisagem tem um complexo défice identitário. Vítimas nas últimas décadas do esforço “progressista” dos nossos líderes em prol do betão e do cimento, não há lugar que resista, mesmo os de beleza singular, a esta vocação destrutiva. Mas o mais paradoxal é que este épico labor, em nome do “progresso”, nos conduziu ao fracassado estado económico-social em que nos encontramos, ainda por cima penalizados pelos custos paisagísticos e ambientais de tais projectos marcadamente provincianos (categoria mental associada a um falso cosmopolitismo). Ou seja, de Cavaco a Sócrates, foi um fartar vilanagem de auto-estradas, algumas sem utentes à vista, a retalhar a paisagem, sem atender às necessidades das já escassas populações do interior massaradas por rodovias que, em muitos casos, serviram fundamentalmente e de modo redundante os grandes pólos urbanos de Lisboa e do Porto, acentuando a dissimetria entre o litoral e o interior (“A orientação actual das auto-estradas e das principais vias de comunicação, polarizada pelas maiores cidades, e sobretudo por Lisboa, só vem agravar as dificuldades de estruturação à escala da província. Para quem tenha de utilizar os transportes públicos e não possa percorrer as vias transversais de automóvel, é geralmente mais difícil comunicar entre regiões relativamente próximas do que chegar a Lisboa”, José Mattoso, Suzanne Daveau, Duarte Belo, Portugal – O Sabor da Terra, 2010, p. 339).
 Entretanto foi-se deixando degradar a via ferroviária, encerrando-se linhas consideradas deficitárias, mas principal modo de circulação das gentes do interior e não só. Tudo isto revela a ausência de um plano consistente no que concerne às redes de comunicação à escala nacional, tanto a nível económico-social como ambiental, mesmo ao olhar de um leigo como eu nestas matérias. Concomitantemente proliferaram barragens onde corrente de água houvesse, para não falar no excessivo peso da construção civil na nossa actividade económica (nos anos doirados, ocupava 10º da população activa e 18% do PIB, sendo o consumo de cimento per capita o dobro da média europeia), actualmente em profunda crise, por falta de compradores (há 10% de casas a mais) e de crédito. Mas esta fúria construtora teria efeitos devastadores, pois contribuiu para a desertificação do centro das cidades e perda de moradores, como aconteceu com Lisboa, nas últimas décadas, e para um consequente crescimento, desmedido e caótico, dos subúrbios, sem qualquer qualidade de vida, tal o caso do concelho de Sintra. Para não falar nos gastos opulentos da Expo 98 ou dos estádios de futebol do Euro 2004, com alguns (Leiria e Algarve) com bancadas de betão ao desgaste do tempo e da impossível gestão. Também os nossos autarcas não quiseram ficar atrás e ei-los de rotunda em rotunda até à vitória final. O cimento tornara-se definitivamente o nosso Eldorado.
Os governantes não estiveram longe da mentalidade dos nossos emigrantes que construíram “maisons”, como manifestação de um capital simbólico emergente, pelas aldeias deste país, desfigurando-as, para anos depois, deixarem os inóspitos e incómodos (para os moradores e para os olhos dos que passam) casarões ao abandono, ora inacabados ora em ruína, pois os descendentes acabariam por se integrar nos países de emigração e não regressar à pátria. Mas obviamente àqueles, enquanto elementos de uma elite política, pedir-se-ão outras responsabilidades. Duas décadas e meia após a nossa integração na CEE (a actual União Europeia), continuamos tão desfasados economicamente dos países ricos da Europa como no início, apesar dos fundos estruturais e de coesão que recebemos tão euforicamente como D. João V recebera, no século XVIII, o ouro do Brasil. Com a agravante de estarmos hoje completamente falidos, sujeitos à gula desmedida dos credores internacionais, e só formalmente ainda independentes. Destruímos o aparelho produtivo em função dos interesses dos nossos “benfeitores” e a árvore das patacas como se veio a provar tinha curta duração e muitas e ardilosas contrapartidas. O modelo de “desenvolvimento” das últimas duas décadas foi, pois, um profundo fracasso. E, embora com significativos avanços, mesmo os nossos níveis de escolaridade estão ainda bem distantes da média europeia. Enfim! Se à partida éramos periféricos ou semi-periféricos em relação às sociedades mais desenvolvidas da Europa, neste canto do cisne da União Europeia, periféricos continuamos, e com índices de desigualdade social que nos colocam como um dos países da Europa onde o fosso entre ricos e pobres é alarmante.


Vem todo este arrazoado a propósito da polémica construção da barragem na Foz do Tua, na Região do Alto Douro Vinhateiro, promovida pela UNESCO, há dez anos, a Património da Humanidade (Paisagem Cultural, Evolutiva e Viva), da responsabilidade da monopolista EDP, e abençoada pela gestão do “betoneiro” engenheiro Sócrates. As suas palavras, no acto de inauguração da construção da dita barragem, em mais uma nefasta parceria público-privada, dirigidas ao poderoso tecnocrata Mexia, olhando com um desdém patético e alarve para aquela paisagem virgem e sacral, “Agora só falta aqui é…cimento!”, são bem uma caricatura da mentalidade provinciana que nos desgovernou nas últimas décadas. Paisagem sem cimento é como um deserto, diriam eles. Mas deserta era a alma do nosso ex-primeiro e do seu séquito, como a de outros que o antecederam.
Desta feita, porém, a UNESCO ameaça retirar o estatuto de Património da Humanidade àquela região de singular beleza. As hostes como bonecreiros agitam-se: a EDP diz que vai atenuar os estragos na paisagem, convidando para compor o cenário o reconhecido arquitecto Souto Moura; a super-ministra Cristas diz que o país não tem cheta para indemnizar a concessionária, caso suspendesse o projecto; os autarcas da zona, que sempre associaram ilusoriamente a instalação de barragens a mais progresso para os seus domínios, titubeiam. Entretanto foram arrasados milhares de sobreiros e azinheiras, um paredão de 100 metros de altura foi erguido, para memória futura dos dislates governamentais, e o vale do Tua e a sua linha férrea serão submersos com as águas da barragem. Mas afinal qual é o contributo desta barragem para a nossa produção energética? Segundo as expectativas de apenas 0,67%.
 Ora, segundo os responsáveis do turismo do Alto Douro, de Janeiro a Agosto do corrente ano, 110.000 turistas visitaram a região, pelo que a retirada de tal galardão pela UNESCO seria um rude golpe para a economia daquela zona. Por outro lado, em qualquer país que se preze uma linha férrea como a do Tua, um desfilar de imagens soberbas e únicas, seria reabilitada e promovida no plano de uma desejável gestão turística, para lá obviamente de ser um importante meio de transporte para as populações locais. Só um economicismo de vistas curtas, como é aquele que nos tem dominado, não sabe articular a preservação da paisagem e o bem-estar das populações locais com os interesses económicos. É preciso acentuar que o turismo português não se pode limitar ao mediático bronze algarvio. Portugal, na sua diversidade geográfica, apesar dos muitos disparates ambientais, ainda tem alguns rostos de paisagem com uma identidade peculiar a colocar ao olhar do mundo. Economia e gestão ambiental não são necessariamente antagónicas e, além disso, se não preservarmos o génio dos nossos lugares idiossincráticos perderemos de todo a nossa identidade. E, para isso, seria também necessário dinamizar uma consciencialização cultural das populações, de molde a defenderem a singularidade única desses espaços de eleição que lhes coube em sorte, e não a rumarem nas ilusões do falso progresso.
 É preciso reinventar Portugal, articulando tradição e modernidade, respeito pela alma da paisagem e desenvolvimento, criatividade e planificação. E salvar a foz do Tua, pois como afirmou José Pacheco Pereira, “combater a barragem que destruirá o vale do Tua transformou-se numa luta de último recurso, uma última oportunidade para termos outra paisagem que não seja eucaliptal, albufeiras artificiais, praias sobrelotadas, montanhas esventradas por pedreiras, na maioria dos casos ilegais, mas a trabalhar diante dos olhos de todos há décadas, num Portugal já demasiado estragado” (Público, 10-12-2011, p.40). De qualquer modo, saliente-se o facto de ser necessária a voz censória da UNESCO, para que a reacção de alguma opinião pública portuguesa se faça ouvir, com excepção dos militantes ambientalistas que desde logo nos alertaram para mais um crime contra o Património. Resta saber se ainda vamos a tempo de preservar esta paisagem que nos ilumina os olhos da alma: ”O que temos no vale do Tua, o rio, o vale, a linha ferroviária, o equilíbrio da terra, da água, das escarpas, da vegetação, do vento, da solidão agreste, é hoje único em Portugal. Ou seja, não há mais. […] Estamos diligentemente a acabar com outro destes vales, o do Sabor, pelo que sobra apenas o Tua” (J. P. Pereira, ibidem). Ou será que o poeta Byron tinha razão quando nos remeteu para os limbos do miserabilismo, ao exaltar em contraponto a beleza edénica de Sintra: “Escravos torpes e vis, bem que nascidos nas pompas da criação! – Porque desbarataste, ó natureza, as tuas maravilhas com semelhante gente? Eis que em vário labirinto de montes e vales surge o glorioso Éden de Sintra”(Peregrinação de Childe Harold, 1812).
Urge reaprender a apreciar a beleza do silêncio ou dos murmúrios da terra e da água, ou a sentir com plenitude os odores das plantas silvestres, com a humildade de efémeros hóspedes deste mundo mágico, que temos o dever ético e estético de preservar.