“O espantoso não foi os portugueses terem acorrido em massa ao Pingo Doce – 50% de desconto é muito e estamos muito pobres. O extraordinário […] é não terem acorrido em massa às manifestações ou cercado o parlamento. […]. Essa resiliência nacional é histórica. Foi esse atavismo que nos permitiu aguentar 48 anos de ditadura sem que a oposição organizada fosse substancial. […].Portugal continua a ser o país do retrato de Alexandre O’Neill: uma feira cabisbaixa, questão que temos connosco mesmos, remorso.”
Ana Sá Lopes, jornal i, 3-5-2012
Bruegel - O País da Abundância (1567)
Em vagas sucessivas, carros a empurrar carros de mão com toda a gana do assalto aos arraiais do amigo/inimigo (as prateleiras dos supermercados Pingo Doce, repletas de manjares dos deuses a derreter os olhos do povo, por cada dois pagas um, pechinchas a acalorar os estômagos vazios, ou em vias disso, dos consumidores), lá iam famílias inteiras e inteiriças, pais, pais dos pais, avós e avôs, infantes e infantarias, varões e varoas assinalados em busca da nova Taprobana: o país da Cocanha, esse utópico reino da Abundância, tal como Bruegel tão exemplarmente a pintou em 1567, tornado pela benfeitoria miraculosa do Rei Ubu da Distribuição Lusitana realidade por um dia, até ver: o 1º de Maio de 2012. Assim se faz a nova História – o celebrado dia do trabalhador viraria aos olhos estupefactos do mundo dia dos consumidores consumidos pela astúcia voraz de um luso mercador, para ilustração moral do mundo do trabalho. No rio de Lete ficarão para sempre esses corajosos trabalhadores de Chicago que, em 1886, se manifestaram pela reivindicação das 8 horas diárias de trabalho e viriam a consagrar tal data como o seu dia. Mas a partir do passado dia 1 de Maio tudo mudou no mundo: um novo ciclo se abriu ou não fôssemos nós os pioneiros da globalização. Claro que nem tudo correu bem, o que daria azo às críticas sempre maléficas da esquerda.
Ensor - A Raia (1892)
As massas são controláveis como se pôde observar nas disciplinadas manifestações convocadas pelas duas centrais sindicais, apesar da austera austeridade da Troika e dos seus lacaios, mas uma multidão em fúria consumista não. Os últimos a chegar deparavam com o horror do vazio, por isso as hordas em movimento precipitavam-se em fúria para o seu destino, num atropelo desvairado de desvairadas gentes (arraia-miúda, arraia-média e arraia-miudinha). Muitos destroços iam ficando pelo trajecto entre a entrada, depois de longas horas em impacientes filas sob o olhar atento dos seguranças, e o lugar das Delícias: crianças, ceguinhos, coxos, velhinhos, mulheres obesas ou escanzeladas; chinelos, bengalas, chupetas, saquetas de rebuçados, óleos derramados, sangues dos arranhões da luta pela sobrevivência ou menstruais; um carneiro vivo perdido no vaivém das imperiosas passadas; arroz, muitas bagas de arroz como réstias de festas casamenteiras; alhos pisados como em almofariz e cebolas a lacrimejar dos olhos; ananases e anonas a dar um odor tropical; rins com litíase de vaca e porco; seguranças inseguros e funcionários, amargurados com o infernal feriado, espezinhados; fígados de raia e raias desfiadas, petingas amarfanhadas; amálgamas de cabidela, águas de Colónia e aguardentes; bolas de naftalina; bacalhaus de rabo na boca a saber ainda a maresia; sacos rotos de farinha a empoeirar os rostos carnavalescos, e até um enorme leão de plástico a fingir de verdadeiro. Todo um magma em movimento sôfrego, como a fúria de um vulcão ou de um tsunami. Primeiro de Maio, ex-dia dos trabalhadores, agora dos mercadores, sábios e astuciosos no lograr das massas ditas consumidoras. Massas, farinhas ou multidões tanto faz. Carcaças pelo chão. E nem faltaram os abutres a esvoaçar junto ao tecto, na mira dos despojos da batalha. O caos em movimento – uma multidão de desejos de dentes arreganhados, máscaras de terror das fantasias grotescas de Goya ou Ensor.
Goya - Cabeça e quartos de carneiro (1808-12)
No altar, o Rei Ubu gargalha prazenteiro e sorrateiramente vai dando alfinetadas nestes servos alvoroçados deste reino sem rumo. Com uma luneta avista eufórico, lá ao longe, as manifestações ordeiras dos obreiros, seja na Alameda seja na Avenida da Liberdade, com os líderes sindicais a apregoar slogans rituais para os cem mil do costume: estandartes, cartazes, bandeiras vermelhas e negras, caricaturas das Troikas, palavras de ordem (não da desordem), passo certo como exército proletário que se preza. E Ubu escuta-os cinicamente risonho: “Exploram-nos, façamos-lhe a vida negra com as bandeiras da fome!”; “Abaixo O Bezerro de Oiro e seus serventuários!”; “Abaixo os que secam os Sonhos colectivos!” “Abaixo os vampiros que voam cada vez mais raso!”. E assisadamente o nosso Ubu murmura sarcástico: “ Paroles, paroles …! Quem vos dá o pão sou eu, e não esses retóricos palradores da fome dos outros. Sou o Rei Ubu das mercadorias, se eu fechar a loja e me puser na alheta para a Holanda, morrem de fome. Num mundo de loucos só um louco Rei como eu vos pode governar. Vinde a mim políticos, meus serventuários, lá vos tenho que atirar com mais uns ossos de luxo para vos enredar no meu rebanho!”. E o meio milhão que, num corrupio frenético, invadiu por esse país as Catedrais do Agridoce - uns de saca cheia, outros com ela a meio, e outros, os fracos perdedores da corrida, dela vazia, ou melhor, das ilusões de tal bondade mercantil - não pode ver nem entender essa outra multidão (aqui para nós bem menor) que sabe que as astúcias mercantis dos reis Ubus deste mundo só dão o que podem tirar com lucros abusivos a estes acossados pelas miragens do dito consumismo. Dividir para bem reinar. E em tempos de crise, as migalhas são miragens de suculentas iguarias. Mas ao menos, diria eu, poupem-nos a este deprimente espectáculo. Pois é, pão e circo, mas quando o pão escasseia pode o circo afundar-se nas suas ruínas. Claro os cavalos em pânico e extenuados no fim da corrida também se abatem. Talvez um dia todas as pessoas se lembrem que, antes de consumidores logrados pela “merdre” dos ubus, são pessoas com inerentes direitos à dignidade. Mas enquanto o estômago aperta lá estarão de braços abertos os Ubus deste mundo e do outro. A fome tem muita força!
PS: Pedi emprestado ao dramaturgo Alfred Jarry (1873-1907) o nome da personagem burlesca, absurda e tirânica do Ubu roi, mas qualquer coincidência com a realidade deste meu texto é um mero produto do acaso, com excepção do “merdre”, provocação ubusiana ao público com a qual se iniciava o seu espectáculo de 1896.
Ensor - Esqueletos lutando pela posse de um enforcado (1891)
Começas com o vocativo “meu amor” na 1ª carta dirigida au teu amante francês, Cavaleiro de Chamilly, antropónimo não nomeado conforme as conveniências, expondo pela palavra a plenitude do teu ser em contraste com o vazio da tua clausura conventual. Mas terá ele existido ou tudo terá sido obra do teu engenho amoroso? Paixão, a narrativa em forma de cartas com que deste sentido à tua vida ditada até então pela vontade de teus pais, já que excluída de dote para poderes casar e dar o teu corpo ao repouso do guerreiro como era de convenção. Após a partida do teu amante foste tecendo a teia da totalidade sem exterior, pois nada existia para lá desse círculo inexpugnável de desejo. Isso fecundaria o óvulo vazio da tua existência, fazendo desse nado-morto o sentido de uma vida. Acto de desmesura, loucura em linguagem comum, ou cegueira para tudo o que estava para lá do teu círculo mágico. Da tua inexorável solidão inventaste a íntima relação solidária com um cavaleiro que não te merecia mas que tu criaste com a força do teu desejo, um corpo a abrir-se à tempestade da paixão. O caos magnífico no lugar da ordem anquilosada. Tu eras eu, eu eras tu, sem fronteiras e necessárias pontes. O outro de ti fez crescer o absoluto em ti, o dizível indizível feito de palavras de nostalgia (a dor do impossível regresso) e simuladas vinganças (o suicídio como punição de amor). O espelho partiu para sempre mas não se fragmentou dentro de ti. Ou melhor, com os fragmentos dispersos, os estilhaços dos afectos, foste reconstruindo pela palavra a unidade perdida: o paraíso reencontrado com o sangue das palavras – o único sentido da tua vida. Diria contigo.
Amo, continuo a amar-te no meu delírio de frases a flutuarem das entranhas do teu/meu corpo. Amo, logo existo. Deixei de ser a morte em forma de vida contra os códigos castradores. Escrever-te é o meu exercício da paixão, continuar a inventar-te como o elo que faltava para fundar a minha vida, para além da clausura imposta pelos fantasmas sociais. Dizer-te o meu corpo liberto na fúria dos afagos e dos beijos. O meu corpo aberto aos ritmos das tuas mãos e do teu pénis, faca terna a ferir-me na festa do prazer. Afirmação do meu corpo, do nosso corpo. Meu amante idealizado, como pudeste partir, partir-me, deslocar-me das raízes do meu sonho. És simultaneamente o adjuvante e o oponente, quando as tuas cartas escassas me iam destruindo a ilusão da tua paixão. Cheguei a dizer-te subjugada e humilde, ao menos a compaixão, como forma de te sentir ainda ligado a mim, mais não fosse pela piedade, pela ternura última do grande amor. Mas já estavas longe, demasiado longe, distância lida na cada vez maior brancura das tuas cartas tão escandalosamente formais.
Foi todavia, Mariana, essa lonjura que seria a tua pulsão apaixonada da escrita da paixão. Escrever foi a tua catarse, foi o teu modo de te reinventares na ficção da paixão. Foi o teu modo de morrer de amor e ressuscitar pelo verbo: ocupar uma ausência – um lugar vazio. Dupla clausura a do teu corpo: a cela conventual e o insulamento definitivo. Mas escreveres foi o teu modo de reinventar o desejo, o teu e o dele. Amar é diferenciar, desamar é indiferenciar. Escrever o ardor do corpo amante, olhar o seu retrato, olhar-se como se fosse ele, até ao limite da perdição, da desordem (o caos interior), do dizer-se “eu não sou eu”, desapossada de ti pelo ser da paixão. Até ao limite de confessares “eu escrevo mais para mim do que para ti” – círculo encerrado para sempre nos ardores do teu narcisismo. Da criação do absoluto. Fizeste então da paixão um exercício de estilo, a palavra do corpo para sempre liberto dos cilícios sociais. Daí a distância do ele da 5ª e última carta – a alteridade confirmada a desmerecer-te. Eros e Thanatos. Mas não morreste de amor, porque, das cinzas do que te tomou como mulher-objecto, renasceste no negro a tingir as folhas brancas da tua vida morta. Palavras – teu corpo liberto. Escrever é tornar possível o desejo do impossível – a eternização do instante.
PS - À maneira de glosa das Cartas Portuguesas de Soror Mariana Alcoforado (freira no Convento de Nossa Senhora da Conceição, em Beja (1640-1723), traduzidas para francês e publicadas em Paris, em 1669, como sendo de autor anónimo.
Hoje queria contar-vos coisas terríveis, absurdas, abomináveis, incómodas ou imprevistas, como aquela cena do cão que mordeu o dono com os dentes da alma que não tem ou a do político que se suicidou com o veneno do vazio das suas causas ou a do homem que implodiu em plena rua com a força da raiva reprimida. Da fome que vai pelo mundo e dos que exploram a fome do mundo, dos estilhaços de bomba dos desesperados da terra, das sopas de letras dos poetas em défice de engenho e arte, das galinhas poedeiras a desgastar as unhas nas pranchas soletradas pelos burocratas da Desunião Europeia, dos amantes enlouquecidos que brotam ácido sulfúrico no rosto dos amados, da resignação colectiva face aos fados e factos dos grandes poderes financeiros, da pobreza desta nossa democracia a esmolar nas ruas da desdita, dos políticos que dizem que sim mas que não, dos banqueiros que bancam as nossas desgraças, dos desempregados a apodrecer nas praças de fome e solidão. Da Síria ou da Guiné com as suas guerras fratricidas, do Inverno que nos tolhe em plena Primavera, dos fardos de solidões no silêncio dos casarios. Ou mesmo o mais comezinho: a última operação plástica ao rosto nefelibata da Lili, milagre caseiro do eterno rejuvenescimento, ou a medalha de ouro a atribuir ao corredor de fundo Mota Engil, pelos briosos actos cívicos em glória da pátria. Mas hoje não sou capaz. O nada tolhe-me os movimentos, o nada cala em mim os gestos deste mundo sem rumo. Como se nada de importante estivesse a acontecer, como se tudo se resumisse a este vazio interior. Hoje de facto nada aconteceu para mim. Apenas aconteceu o silêncio rumoroso de o dizer.
O romance Gaibéus (1939) de Alves Redol; a poesia da colecção do “Novo Cancioneiro” (1941-44), na qual participaram Fernando Namora, Mário Dionísio, Joaquim Namorado, J. J. Cochofel, Álvaro Feijó, Manuel da Fonseca (em 1940, já havia editado Rosa dos Ventos), Carlos de Oliveira, Sidónio Muralha, Francisco Tenreiro e Políbio Gomes dos Santos; a colecção “Novos Prosadores” (1943-44), onde se publicaram os primeiros romances de Fernando Namora, Vergílio Ferreira e Carlos de Oliveira, ou os contos de Mário Braga e Mário Dionísio; e a refundação da revista Vértice (1945) são os momentos fundadores da prática literária neo-realista. Esta revista, na sequência de O Diabo (1934-1940) e Sol Nascente (1937-40), seria um elemento importante na teorização de uma arte que fosse um factor cultural da luta política contra a ditadura e o sistema capitalista. Assim se foi forjando, apesar do rígido aparelho censório e persecutório salazarista, uma contra-imagem cultural de Portugal e do seu povo relativamente àquela que era imposta pelo Estado Novo (uma fusão do aldeanismo mitificado e do imperialismo ultramarino, tal como havia sido encenada na Exposição do Mundo Português em 1940), habilmente administrada pelo ex-futurista António Ferro com o seu Secretariado de Propaganda Nacional e a sua “política do espírito”. Estávamos na fase heróica do Neo-Realismo (bem assinalada nas Canções Heróicas de Fernando Lopes-Graça, com poemas de autores neo-realistas, ou nas Canções Regionais, algo que viria a estar na génese, nas décadas de 60 e 70, da música popular de intervenção com Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira), pois a derrota das forças nazi-fascistas, na 2ª Guerra Mundial, fazia prever, com um optimismo datado, para breve a queda da ditadura. À arte – com relevo, no imediato pós-guerra, para a poesia, pois, tendo em conta o alto grau de analfabetismo nas classes trabalhadoras, poderia ter transitoriamente como destinatário ideal o público-auditor em vez do público-leitor, embora a ficção narrativa venha a ter um papel primordial no movimento – cabia assim tonificar as aspirações revolucionárias populares nesta conjuntura. Como diria mais tarde Joaquim Namorado, “A poesia é uma máquina/ de produzir entusiasmo”. A partir da década de 40, os escritores neo-realistas iriam de modos diversos amadurecendo o seu modo de escrever o mundo, uns no sentido da articulação problemática e contraditória do eu com um tempo bloqueado historicamente, outros na busca de novas formas, tendendo por vezes para o simbólico ou o alegórico, para expressar a tensão entre a esperança e a desesperante continuidade desse quotidiano ritmado pela repressão, num quase patamar do absurdo.
Júlio Pomar - Estudo para o ciclo "Arroz" II (1953)
Júlio Pomar (1953)
Em suma, o povo da macronarrativa neo-realista transitaria programaticamente, no campo ficcional, de objecto da História (ou das histórias) e do enunciado, como acontecera com o realismo-naturalismo, para virtual sujeito da História e enunciador ficcional mediatizado pela voz dos escritores identificados com a codificação marxista da emancipação popular e da configuração de um novo tipo de intelectual, tal como havia sido teorizado, desde os primórdios da década de 30, por Bento de Jesus Caraça (“cultura e liberdade identificam-se – sem cultura não pode haver liberdade, sem liberdade não pode haver cultura”). Mais do que escrever sobre o povo urgia escrever com o povo. Daí uma articulação entre a difusão da literatura popular (destaquemos, como exemplo, o Cancioneiro do Ribatejo de Alves Redol, de 1950, recolha colectiva de quadras populares, ou a publicação da responsabilidade de Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira dos Contos Tradicionais Portugueses, em 1957), tal como o fizeram no campo da música Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti, e a integração nas suas obras ficcionais de textos (lendas, quadras, rimances, aforismos, etc.) de origem popular ou da sua relevância como factores no processo de elaboração romanesca. Ao etnografismo estilizado e domesticador do Estado Novo, opunham os neo-realistas um etnografismo da dignificação popular, húmus donde se iriam gerar as suas obras. Por isso Alves Redol precedia a laboração dos seus romances com uma presença junto das comunidades rurais a representar ficcionalmente (gaibéus, avieiros, fangueiros, valadores, no universo ribatejano, ou os pequenos vinhateiros do Douro), de molde a captar o seu sociolecto específico, o seu folclore e as suas vivências. Este material recolhido, com bloco de notas e máquina fotográfica, seria posteriormente montado nos seus romances de acordo com a perspectiva criativa e empenhada do autor. Deste modo o eu-etnográfico distanciado transfigurava-se num eu que comungava das vivências populares, pelo que o seu universo romanesco tem uma dimensão coral, numa interacção, no plano da linguagem, entre o sociolecto popular e a sua voz “erudita”. Mas esta via etnografista redoliana, visando uma arte popular, seria apenas um dos modos de configurar a dimensão épico-lírica do Neo-Realismo, já que com Carlos de Oliveira, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca ou Fernando Namora, a escuta/escrita da voz popular e a busca de uma nova poética colocar-se-ia noutros níveis de pesquisa literária. Cada percurso de vida iria cristalizar-se de modo diferenciado, na busca de uma poética da emancipação popular: com Soeiro, numa articulação entre a sua militância político-cultural e o operariado alhandrense, tendendo para um lirismo coral bem expressso em Esteiros (1941); com Fernando Namora, pela sua experiência inicial de médico da província na Beira-Baixa ou no Alentejo, na fronteira entre o realismo crítico e a epopeia neo-realista; com Manuel da Fonseca, num lirismo da errância e da rebeldia, num Alentejo depurado pela memória e com uma dimensão mítica; com Carlos de Oliveira, numa solidão/solidária com o povo oprimido da sua Gândara infanto-juvenil, paisagem e povoadores (camponeses e uma burguesia provinciana anquilosada), permanentemente reinventados ao longo da sua obra, siglas que metaforizam, tanto na poesia como nos romances, o princípio da esperança (“Cantar/é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras/ fique embora mais breve a nossa vida”) ou um tempo bloqueado e sulcado pela desolação. O canto interventor irá dar lugar a uma caligrafia mais intimista, num trabalho de depuração das palavras que atingirá com Finisterra (1978) o seu clímax, crepúsculo e morte de um mundo e expectativa, já sem a convicção explícita de outrora, que das trevas possa gerar-se um novo mundo.
Mário Dionísio - Reunião Clandestina (1947)
“A vida será, por muito tempo, uma questão de estômago vazio?”, interroga-se o narrador de Mineiros (1944) de Manuel do Nascimento. E embora a semântica da fome não esgote a temática neo-realista, hoje sabemos para mal da humanidade que ainda cabemos nesse tempo, com a agravante de sabermos também que é, como era, mais um problema político do que da ausência de recursos a nível mundial. Já não há gaibéus, esses camponeses depauperados que desciam ciclicamente da Beira Baixa ou do norte do Ribatejo para a Lezíria, onde “alugavam” temporariamente os seus braços para a ceifa do arroz, sujeitos à prepotência do lavrador e da malária, mas há ainda trabalhadores migrantes que entre nós ou no estrangeiro se sujeitam a uma exploração quase “esclavagista”. São os novos gaibéus. O desemprego (algo que havia sido tematizado por Soeiro e Leão Penedo, entre outros) é de novo um flagelo. Resta-lhes a emigração, largar a casa “confortável”, segundo a retórica cínica do poder, e aí podemos lembrar-lhes as obras de Ferreira de Castro, José Rodrigues Miguéis ou Joaquim Lagoeiro. As mulheres emanciparam-se, mas a sua condição social continua desigual, mais baixos salários que os homens, duplificação de tarefas no quotidiano (o emprego e o trabalho doméstico), marginalização a nível de promoção nos seus ofícios. Com as devidas distâncias, ainda se podem ler a tal respeito as obras de Manuel do Nascimento, Leão Penedo, Afonso Ribeiro, Faure da Rosa e Maria Lamas. Hoje há liberdade de expressão, mas o défice de cidadania é um obstáculo ao direito democrático à palavra. Felizmente já não sofremos a arbitrariedade da censura como aconteceu no tempo do Neo-Realismo. Não há censura, mas há olhares censuradores e censuráveis. Há, continua a haver espoliados e explorados, sem-abrigo, pobres e pobrezinhos, sopa dos pobres e caridade, mas a sociedade-providência já não é o que era e o Estado-Providência está a falir. Os neo-realistas ficaram entre nós, estão vivos e recomendam-se. O direito de todos à dignidade é a sua mensagem perene. E hoje também sabemos que a democracia não é uma dádiva, mas uma construção quotidiana, o que implica luta e uma consciência emancipada. E não esqueçam que sem cultura não há liberdade. Aliás, da luta clandestina, em tempos de ditadura, pela libertação do povo português nos ficaram também narrativas de Mário Dionísio, Soeiro Pereira Gomes, Manuel Tiago, Mário Braga e Manuel da Fonseca.
Podemos reinventar uma poética neo-realista como o fizeram diversamente José Cardoso Pires, Urbano Tavares Rodrigues, Augusto Abelaira, Orlando da Costa, Baptista-Bastos, Mário Ventura ou José Saramago, na área do romance, ou, na poesia, Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão, António Reis, Zeca Afonso (o seu estatuto de cantor de intervenção quase apagou o reconhecimento da muita qualidade dos seus textos poéticos) e Manuel Alegre. Reinventar é uma maneira de dizer, escreveram de outro modo o Livro do Neo-Realismo. E a propósito, com tantos nostálgicos do salazarismo ou de outros reinos semelhantes, leiam o sempre actual Barranco de Cegos (1961), de Alves Redol, uma liturgia do poder totalitário e a sua desmontagem desmitificatória. Ou, para os nostálgicos do Império, o belíssimo romance de Orlando da Costa, O Signo da Ira (1961), Terra Morta (1949) de Castro Soromenho, ou então as narrativas cabo-verdianas de Manuel Ferreira, obras onde se ficcionaliza o olhar do colonizado sobre os feitiços do nosso “lusotropicalismo”. E para acabar, lembro que os neo-realistas não foram retóricos humanitaristas, falaram pouco de si por pudor ou porque falar dos outros foi uma maneira de falar de si, por isso vos deixo com um raro fragmento autobiográfico de Alves Redol: “Agora começo a parecer-me com um pássaro, descobri-o ontem no perfil de uma fotografia. Meio pássaro, meio índio velho, raízes à superfície das mãos que tanto amor inventaram, tanto rosto, e tanto, vincos de pensar, vincos de chorar para dentro, vincos de apetecer, penas de pássaro cansado de ninho e sem ninho, penas de sonhar, quase uma ruína, ou mesmo uma ruína, e na qual ainda vibra a mesma semente de juventude, pronta a reverdecer a qualquer hora, como as cordas de um instrumento onde a vida passa os dedos para me ressuscitar.” Ou, finalmente, com este belo “Soneto” de Carlos de Oliveira:
De todos os movimentos estéticos portugueses do século XX, o Neo-Realismo é aquele que mais tem sido objecto de interpretações equívocas e redutoras. Ora é desvalorizado pelo seu carácter panfletário e partidário, ora associado a uma retórica populista do miserabilismo económico-social, propensa a uma cenografia maniqueísta de angelização do proletariado e de diabolização da burguesia. É frequente, nos nossos dias, em análises de produtos culturais, ler-se, como paradigma de mau-gosto, que tal obra é demasiado neo-realista. Haveria assim, no século XX, gerações de criatividade estética assinalável, como a do Orpheu, a da Presença ou a surrealista, enquanto a neo-realista destacar-se-ia pela sua esterilidade semântica. Como em geral tais analistas desconhecem as obras neo-realistas, torna-se fácil perpetuar estereótipos sobre o movimento (1). É óbvio que, como nas outras tendências acima referidas, há obras que não resistiram ao trabalho do tempo, sendo sobretudo documentos históricos do imaginário da resistência à ditadura salazarista, outras há no entanto que continuam a merecer leitura atenta. Depois há que ter em conta os modismos culturais em cada época. Hoje, há uma predilecção para o consumo de obras de ficção de centração intimista ou de evasão exotista (veja-se o êxito internacional das “bestas céleres” do actual ciclo vampiresco americano ou do esoterismo de pacotilha), algo que, de resto, não é novo na história da modernidade literária. Houve, desde o Romantismo, conjunturas dominadas pelo aprofundamento do “eu-individual” ou de apego exotista e pitoresco, outras marcadas pelo registo do “eu-social”, seja como denúncia, seja como apelo à luta sociopolítica. Em cada conjuntura, as condições de recepção das obras estéticas mudam em função dos horizontes de expectativa dos virtuais leitores. Mas o que está na moda, não esqueçamos, é o que frequentemente morre mais depressa.
Por isso convém contextualizar, no plano histórico-social, as obras literárias, de molde a entender a sua génese, o seu modo de circulação e de recepção. Aliás, embora num clima bem diferente da repressão ditatorial que nos coube em sorte, ou melhor em desgraça, desde a década de 30 a 1974, as tensões sociais hodiernas apelam de novo a uma arte que cristalize a dinâmica social no seio da comunidade. Não se trata de retornar aos modelos estéticos neo-realistas da década de 40 até aos anos sessenta do século XX, mas descobrir neles veios inspiradores para uma arte que possa fundir os problemas individuais com os da comunidade. Convém por isso ler ou reler os livros de Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Faure da Rosa, entre outros, não apenas como documentos do imaginário colectivo arquivados para sempre no Museu do Neo-Realismo, mas também como linguagem narrativa ou poética comprometida com a transformação do mundo, o que pressupõe simultaneamente o modo idiossincrático como cada um dos autores se implicou, tanto no plano ideológico como no da escrita, nessa prática de dizer universos alternativos aos dias cinzentos do nosso fascismo.
Para mudar hoje este mundo iníquo, dominado por forças financeiras não sufragadas, urge mudar o olhar do mundo, tendo aí a arte uma função exemplar, como virtual contrapoder relativamente à visão dominante promovida pela manipulação mediática dos poderes que reificam os homens ao sabor das suas estratégias. Contra os fatalismos da História e as sequentes acomodações individuais e colectivas, se escreveram, embora com registos diferentes, as obras dos neo-realistas ou as dos surrealistas, ambas poéticas da emancipação e da libertação, numa articulação entre o individual e o colectivo, no primeiro caso, ou, numa matriz mais individual e num imaginário rebelde ao controle racional, no caso do segundo. A prática literária é sempre um jogo com as palavras, mas também um trabalho sobre a linguagem com óbvias projecções sociopolíticas, distintas consoante a mundividência dos indivíduos ou dos grupos em que se inscrevem. Um labor solitário/solidário com as palavras da comunidade.
Rogério Ribeiro - Ilustração para "Até Amanhã, Camaradas" (1975-76)
Claro que a modernidade do Neo-Realismo não se funda na tradição da ruptura vanguardista como aconteceu com a geração do Orpheu, mas na tentativa de, a partir de uma síntese superadora do romantismo social e do realismo, criar uma arte democrática, tanto no plano da linguagem como no plano do destinatário, embora num ciclo longo a influência de outras correntes estéticas seja de assinalar. E se a mundividência marxista foi a sua matriz, não podemos por isso tomar a sua poética como uma mera transposição de tal sistema ideológico, o que justificaria, nesta conjuntura de crise das metanarrativas históricas e dos sistemas de valores (neste reino dito do fim das ideologias), a desvalia do Neo-Realismo. Mas terá algum sentido, por exemplo, avaliar hoje a obra romanesca de Zola em função da datada “infra-estrutura” filosófica positivista que a impulsionou? Do mesmo modo poderíamos reduzir e avaliar a poesia de Fernando Pessoa em função da sua ideologia conservadora liberal e antidemocrática ou, como a formula Raúl Morodo, em função do seu nacionalismo libertário e “sintético”?
Todas as obras literárias são simultaneamente uma inscrição ideológica e a sua superação polissémica, por isso fruitivas pela latência dos seus sentidos, sendo cada leitura uma actualização temporal da sua virtualidade semântica. Um texto redutível a uma estrutura ideológica será neste aspecto, pela sua transparência monossémica, um texto com morte anunciada.
Na década de 40, a fase da “inocência épico-lírica” do Neo-Realismo, a centração implícita numa comunidade de ideias, afectos, valores e imagens, específica desta geração, coexistiu, no entanto, com uma diversidade formal desde a sua génese e que se acentuaria na década seguinte, embora os compromissos com uma arte de intervenção social, em oposição ao autotelismo estético da Presença (1927-1940), fossem consensualmente aceites por todos aqueles que se empenharam na emergência de uma arte que contribuísse, no seu âmbito específico, para uma democratização cultural suportada por uma mitologia da libertação e da predição utópica de um mundo novo sem opressores nem oprimidos.
(1) Como contributo para uma história da narrativa social, de Ferreira de Castro a José Saramago, no século XX, cf. Vítor Viçoso, ANarrativa no Movimento Neo-Realista – As Vozes Sociais e os Universos da Ficção, Lisboa, Colibri, 2011.
“Mas passa pela cabeça de alguém que eu queira vender a ideologia? Eu quero é vender o vinho!”
João Lourenço, Presidente da Câmara de Santa Comba Dão (Público, 17-3-2012)
Salazar já não é apenas o ditador “iluminado” que nos governou, entre 1932 e 1968, agora é (será) também uma marca de vinhos made in Santa Comba Dão. Isto é, um símbolo da nacionalidade, da terra, ou, dito de outro modo, do sangue e do solo lusitanos, com atributos capazes de qualificar hiperbolicamente o néctar de Dioniso: natural, saudável e biológico. A marca Salazar faz vender livros aos milhares, a marca Memórias de Salazar fará vender pastas de dentes, preservativos, louças, canivetes, chouriços, bolas de bilhar, canções de embalar, porta-chaves, relíquias diversas e muitas mesmo muitas garrafas de vinho. Pode parecer estranho, irritar os antifascistas, ou até cair mal no goto de alguns nostálgicos do Estado Novo, mas, para o Presidente da Câmara, trata-se de um mero negócio. Como diria Pessoa, num primoroso achado publicitário, primeiro estranha-se e depois entranha-se. O líquido era outro, mas bem podemos adaptá-lo a este espiritual néctar salazarento.
Face à desertificação do interior, que agora tanto preocupa Cavaco Silva (serão remorsos?), nada melhor do que reinventar um génio nato nesses torrões esquecidos para atrair novas gentes, tal o caso da agora árida Santa Comba. Ora há nomes que morrem depressa, o tempo do trespasse, outros transportam para sempre o peso imorredoiro da História. Pelos maus motivos, diríamos nós, mas gostos não se discutem, argumentaria o insigne autarca, um sábio engenheiro das novas eras. Pois é, a marca é que conta neste mundo de mercadorias, polémicas para quê? Mas a odisseia não acaba aqui, pois o pragmático autarca tem também uma costela espiritual. Para lá do negócio vinícola, está na sua mente com o dinheiro ganho nessas libações de Baco e com mais uns fundos arrecadados pelos devotos de Sua Eminência, o Dinossauro Excelentíssimo, como diria José Cardoso Pires, erguer um Museu para celebrar a memória do ditador.
Claro que neste Museu imaginário não entrarão certamente imagens iconoclastas do campo de concentração do Tarrafal, ou das prisões de Caxias, de Peniche ou do Aljube, onde o inspirado Pastor encerrava as almas transviadas dos deveres pátrios; ou a carantonha grotesca da Censura sempre atenta às palavras subversivas dos escribas vermelhos ou aparentados (rosados ou alaranjados), daí o contraste cromático do lápis azul; ou a proibição dos pobres de pedir nas ruas de Lisboa para não afugentar turistas mais sensíveis; ou as imagens nada abonatórias da cruel guerra colonial durante 13 anos, ou, maldição das maldições, essa subversiva cadeira de lona que o empurraria para a morte na flor da idade dos oitenta anos. Em contrapartida aí figurarão os chinelos de quarto; a caneta com que deu à luz os textos da sua gloriosa oratória; o vaso com alecrim a evocar a sua origem rústica; o seu Livro de Horas; uma fotografia a lembrar a sua saudação fascista; um estilhaço de unha encravada por causa das botas; o chicote com que se fustigava clandestinamente para afugentar os pecados da carne; postais de Fátima autografados pelos pastorinhos; um punhal com o qual trespassou os cromos de Marx e Lénine, emanações de Belzebu; um retrato de Humberto Delgado todo riscado a tinta azul e legendado com a frase “Aos traidores nunca perdoo”; as suas missivas para a Pide, aconselhando astuciosamente, para cada caso, o uso intercalar da cenoura e do bastão; um relatório das centenas de pobrezinhos que sempre caridosamente ajudou; a longa correspondência com o Cardeal Cerejeira e finalmente, entre outros artefactos, o térreo e terno penico que nunca largou em horas de aflição. Enfim, símbolos de um português que sempre soube gloriosamente unir o pragmatismo telúrico e a aspiração indelével aos azulinos destinos celestes.
Velazquez - Os Bêbedos (1628-1629)
Os peregrinos em Santa Comba aí poderão adquirir a preços módicos réplicas das relíquias do maior estadista português de sempre. Será um corrupio imparável das massas em direcção à Santa Terra, para gáudio da boa gente (especialmente comerciantes, hoteleiros e fabricantes de relíquias) do concelho e do seu líder autárquico. É o começo do fim da desertificação deste interior.
Ficará dele a imagem sacral do intrépido político que tão bem soube defender os valores do Ocidente contra o comunismo e as devassas democracias que não souberam entender os seus altos desígnios nesse Portugal que se estendia tão briosamente de Minho a Timor. Entre o devorismo de Sancho e as quimeras de D. Quixote parece assim oscilar a vontade do nosso exemplar autarca, ora fascinado com o cifrão, ora imbuído da nobre missão de resguardar das arestas do tempo a memória de Salazar, o maior obreiro da Pátria.
Claro que esta farsante democracia em que estamos bem contribui para o germinar dos nostálgicos do antigo regime ou para os mais jovens visionarem Salazar como o grande gestor pátrio, o estadista que equilibrou as finanças (o que até está na moda com o nosso Gaspar sob a batuta da Troika), construiu escolas, estádios, tribunais, bairros sociais para os pobrezinhos ou a majestática ponte sobre o Tejo agora chamada de 25 de Abril, uma vil usurpação onomástica. Historiadores para que vos quero? Países pobres e empobrecidos como o nosso não se podem dar ao luxo de pagar a historiadores, sobretudo os que pretendem dedicar-se a historiar o século XX, aqui tão perto das nossas paixões. Vivam os mais jovens com a memória do presente e os mitos do passado que bem lhes chega. E as universidades? Terão também apagado do mapa a brumosa História recente deste recanto para ócio dos reformados nórdicos? O pós-modernismo é que está a dar ou o pós-pósmodernismo, da vaga mais recente. E assim de pós em pós lá vamos cantando e rindo, num arraial de vaidades, pois o fascismo nunca existiu, foi tudo invenção de comunistas, adeptos do mau perder. Serventuários e lacaios do verbo é vê-los de bocas pandas a oficiar de acordo com os gestos do poder nessas televisões, onde se mima em tricas e tricas os convenientes gestos do centrão cada vez mais à direita e “neo-liberal”. E depois há sempre contentores para os esfomeados, esses respigadores dos novos tempos.
Mas quanto ao vinho Salazar, o pior que lhe pode acontecer, é que se a moda pega por essa Europa fora, teremos o vinho Franco, o vinho Pétain, o vinho Mussolini, o vinho Hitler, para não falar dos vinhos da América Latina, onde vários nomes emergem como candidatos de nomeada. Nessa Babilónia etílica ainda haverá então lugar para o Dão Salazar? Dá que pensar, Sr. Autarca!
PS – Não no sentido ritualístico acima visado, teria todo o cabimento a criação de um espaço reservado à exposição do imaginário social do Estado Novo (livros, cartazes, cinematografia, fotografia, etc.), ao mesmo tempo acessível ao público e a investigadores interessados na nossa História Contemporânea. Os mitos dos heróis providenciais encontram na amnésia colectiva o húmus propício para o seu crescimento, sobretudo, tal o caso actual, em períodos de crise. Confrontarmo-nos criticamente com o nosso passado é tanto um modo de nos situarmos no presente, como de nos projectarmos no futuro.
Em O Aprendiz de Feiticeiro (1971), Carlos de Oliveira, tendo-lhe alguém notado que as mulheres pequeno-burguesas dos seus romances eram recorrentemente pecadoras mentais, explicita tal modelo mental em função de um contexto sociocultural específico que enquadra estas personagens da sua ficção: “A moral sexual da província portuguesa (onde se passam esses livros) é um caldo rançoso com alguns feijões de pedra no fundo, os mitos que todos conhecemos: noiva de hímen intacto, fidelidade conjugal só da mulher, prática convencionalíssima do amor, etc. A mulher, aqui, nem sequer pode considerar-se o objecto erótico do marido. Talvez fugidiamente nos primeiros meses, mas passa logo à condição mecânica de incubadora, se não for estéril; se for (porque não há-de ela perpetuar esta sociedade, esta moral?), torna-se quase desprezível. O erotismo é pois um jogo para homens, fora do santo país do matrimónio. [...] A mulher casada ou aceita o código em vigor, transformando-se no útero indiferente, transferindo os prazeres da cama para os filhos, os doces, a má língua, o croché, a caridade, um pouco de luxo se possível (vestidos, anéis, pulseiras), a mansa escravatura do lar [...] ou cai no erotismo imaginado, sem parceiro, a pior solidão”.
Inserindo o autor este paradigma cultural na tradição judaico-cristã, por isso extensível “a todas as comunidades ocidentais”, esta suspeição do homem relativamente à mulher, configurada num imperativo espaço de impureza inerente à sua natureza sexual, geraria um ódio latente ao feminino, que poderia coincidir, porém, com um equívoco fascínio recíproco, convertendo-se ao longo da História, em períodos mais extremados, nos rituais do diabolismo, da feitiçaria ou da purificação pelo fogo. E acrescenta: “os resíduos de tal mentalidade, particularmente visíveis na consciência da província, são hoje o algodão em rama que serve aos homens para agasalhar e esconder no armário o esqueleto das suas mulheres”.
A ideologia do Estado Novo, acrescentaríamos nós, por outro lado, não é despicienda relativamente a tal problema, pois atribuía à mulher o mero estatuto de dona de casa e reprodutora, portanto, com raros direitos de cidadania e totalmente dependente no plano jurídico do poder marital, algo que era, aliás, comum à concepção nazi-fascista no que concerne ao papel ideal da mulher na sociedade.
Nos romances de Carlos de Oliveira, as personagens femininas da classe média (um primeiro plano das narrativas) exprimem a aceitação benévola de uma solidão imposta e dos rituais quotidianos inerentes à mulher num meio social de matriz machista. Aquelas são, pois, domésticas domesticadas de acordo com o padrão e os códigos sexuais dominantes. No micro-universo da Gândara, paisagem matricial obsessivamente reinscrita na obra de Carlos de Oliveira, surgem-nos ainda, embora num plano de retaguarda, as camponesas (um colectivo duplamente submetido) vergadas à impiedade da infértil terra gandaresa e dos seus senhores; e as criadas de servir que se ocupam fielmente e quase sempre sacrificialmente das tarefas que os patrões burgueses lhes impõem. Mulheres que nasceram para servir e doar afectos, e a quem cabe, por vezes, habitar no campo sexual o lugar vazio da matriarca (por ex., a personagem Maria dos Anjos de Casa na Duna). É, porém, no seu corpo que existe a capacidade de paixão (casos de Glória e Clara, respectivamente de Alcateia e Uma Abelha na Chuva) para lá dos códigos sexuais burgueses, sendo por isso vitimadas pelos preconceitos e os enredos senhoriais que directamente não lhes diziam respeito. Finalmente, releva-se o mundo da prostituição provinciana aceite na sua vísivel invisibilidade pelo bom senso burguês, onde a mulher mercantilizada se torna objecto erótico dos prazeres do macho insatisfeito com o amor doméstico. O corpo prostituído é a moeda de troca do “esqueleto da esposa no armário”, ou seja, morta a apetência erótica familiar é com ele que o homem desenvolve a cena imaginária da sua virilidade revitalizada, tal como se regista exemplarmente com o protagonista de Pequenos Burgueses.
Fragmento de "Do útero indiferente ao erotismo imaginado: as personagens femininas nos romances de Carlos de Oliveira", Nova Síntese - textos e contextos do neo-realismo, n.os 2/3, 2007/08, Campo das Letras.
“Só para recordar”: “José Afonso era um defensor da luta armada, da ditadura do proletariado e dos princípios perigosamente lunáticos da esquerda mais radical, glorificando a acção política violenta em várias das suas canções, nas quais propunha, por exemplo, “atirar aos fascistas de rajada” […] Só para recordar, agora que se assinalam os 25 da sua morte e muita gente vai associar a palavra “liberdade” ao nome de José Afonso”.
Post de Eurico de Barros no blog “Forte Apache” (22-2-2012)
Senhor Eurico de Barros,
No Diário Notícias de 26-2-2012, ao passar os olhos por um artigo de um cronista semanal, dei conta de uma referência ao seu “post” aviltante para o músico e cantor José Afonso, no ano em que se comemoram os 25 anos da sua morte, embora a sua voz e perfil de cidadania o preservem do esquecimento, que é como se sabe a segunda morte dos mortos. Foi por isso com curiosidade que fui visitar o blog "Forte Apache" para analisar o estilo do seu grito de guerra. De imediato a sua prosa rasteira pareceu-me digna da indiferença, mas, posteriormente, reflectindo melhor, dei conta que o seu “post” se integrava cabalmente no paradigma de uma certa direita caceteira cuja matriz longínqua está no “miguelismo” oitocentista, embora no seu caso disfarçada com roupagens liberais, por isso merecedora de algum esforço analítico. O seu caso só me interessa pois enquanto expressão de uma categoria mental do nosso imaginário colectivo. Ora aqui vai a minha prosa em jeito de desabafo e como modesto contributo para a memória do cantor que sabiamente articulou a arte musical com uma intervenção político-cultural direccionada para as camadas populares.
O José Afonso não cabe nesse quadro grotesco em que o inseriu, nem os que com prazer o evocam pela sua arte e pela coerência do seu trajecto de vida. Tem todo o direito de não gostar da música do autor, nem da sua personalidade ou da sua prática político-cultural, mas os contornos da imagem “contramítica” que dele produziu, com estereótipos convenientemente manipulados do chamado PREC (1974-75), libertam um bolor salazarento, uma nostalgia dos inquisitoriais tempos que queimavam os corpos e os olhos da alma. Só faltou chamar-lhe “estalinista”, a ele que sempre preservou a liberdade do gesto e, num anarquismo muito peculiar, sempre lutou contra as prepotências deste mundo.
A sua cruzada para “heroicamente” desmontar a mitologia de esquerda, consoante a sua “posta” sobre o cantor, tem aliás curiosos antecedentes, conforme vim a descobrir posteriormente na Wikipédia, onde o senhor é biografado, para além de crítico de cinema e jornalista do DN, como negacionista do Holocausto (“É também conhecido como negacionista do Holocausto”). Esta talvez tenha sido a sua batalha nuclear em nome da liberdade de expressão. Com efeito a sua militante postura face àquilo que considera outra ficção da História (“E. B. não acredita que o Holocausto tenha feito 6 milhões de mortos” 1) ajuda-nos a entender a formatação ideológica da sua homilia contra o cantor: o Holocausto praticado pelo nazismo, durante a 2ª Guerra Mundial, alinhando parcialmente com o “negacionista” David Irving, um historiador britânico simpatizante do anti-semitismo nazi e teórico do revisionismo histórico da epopeia hitleriana, condenado, em 2006, a três anos de prisão, na Áustria, pena que viria a ser reduzida para 13 meses, com o qual o Sr. Eurico teria trocado correio electrónico, não teria, portanto, passado de uma reles efabulação dejudeus e historiadores preconceituosamente anti-nazis. Claro que o senhor é um confesso não-nazi e um amante da liberdade, por isso um implacável perseguidor das mentiras convencionais que muitos mal-intencionados fabricaram sobre os confrontos políticos e militares da contemporaneidade. No plano internacional, eis o Eurico, não o presbítero, cavaleiro andante em busca do Graal da História ou da sua dama (a Verdade Verdadeira), arauto da sagrada liberdade de investigação, sobretudo de temas que são considerados “tabus religiosos”. Ora o Holocausto, segundo D. Irving, terá sido mais uma pérfida manobra de judeus para se vitimarem. E assim se diabolizou o Hitler (“o maior amigo dos judeus na Alemanha desde o início da guerra”, segundo D. I.) e seus capangas, pois além do mais a História é sempre escrita pelos vencedores. Mas para repor a verdade aí estão os Euricos para libertarem o nosso mundo dos falsificadores da História. Nem sei se alguma vez leu Mein Kampf (1924) de Hitler, onde o preclaro futuro estadista declarava: ”Eméritos conhecedores das possibilidades do emprego da mentira e da calúnia foram em todos os tempos os judeus. Começam eles a mentir ao tentarem provar ao mundo que a questão judaica é uma questão religiosa, quando, na realidade, se trata apenas de um problema de raça…e que raça! Um dos maiores espíritos da humanidade [Schopenhauer] estigmatizou esse povo com uma frase, que ficará eternamente justa, quando os designou como “os maiores mestres da mentira”. Quem não reconhecer essa verdade ou não quiser reconhecê-la, não poderá nunca concorrer para a vitória da verdade “.
Pois é a verdade, sempre a verdade. Se não leu, o que duvido, estará de acordo que parece ser um fragmento inspirador da demanda negacionista neste mundo de trapaceiros da História. Mas regressemos a casa, pois desconheço outras gloriosas batalhas desta sua odisseia pela Verdade, e à actualidade, onde uma nova gesta se anuncia a fim de libertar as mentes nubladas por um mito esquerdizante: “Só para recordar, agora que se assinalam os 25 da sua morte e muita gente vai associar a palavra “liberdade” ao nome de José Afonso”. Deveras preocupante! E que recorda o Sr. Eurico? Da vida do cantor a sua acção político-cultural, convenientemente destorcida conforme convém, no conturbado período sequente ao 25 de Abril, de 1974 ao 25 de Novembro de 1975. A luta do poeta-cantor, no período da ditadura, onde sofreu perseguições e mesmo a prisão em Caxias, foi simplesmente omitida. Então no seu labor de desconstrução deste mito “esquerdista”, mais uma cruzada em nome da verdade, eis o cavaleiro Eurico a anatematizar o cantor, por ter sido apologista da violência revolucionária, dos princípios da esquerda “perigosamente lunática”, militante das campanhas de dinamização cultural do MFA (um escândalo num mundo rural dominado pelo analfabetismo), apoiante do 11 de Março e das arbitrariedades da Reforma Agrária etc. etc. etc. E teria chegado mesmo a enunciar a crueldade de “atirar aos fascistas de rajada”, frase que o Sr. Eurico adulterou e descontextualizou a partir de um versode uma canção de Zeca Afonso. O Sr. Eurico, que tão preocupado está com a saúde da nossa memória e do nosso imaginário colectivos, esquece que tal período foi de confronto agudizado entre duas visões da democracia portuguesa, tendo aliás a visão que viria a vencer alianças pontuais e espúrias com a extrema-direita (cf. a acção terrorista do ELP). Para simplificar diria que de um lado da barricada estava a força da utopia, do outro a força do pragmatismo, mas que paradoxalmente, como os caminhos da História são sinuosos, nos acabaria por conduzir à trágico-cómica situação actual, falidos e infinitamente enredados nas teias do capitalismo financeiro. Dos dois lados da barricada houve excessos, embora convenhamos que a dita Revolução de Abril, para o bem e para o mal, foi ardendo e ardeu nos lusos brandos costumes ou num clima português-suave. Houve algumas vítimas, mas curiosamente mais à esquerda do que à direita. Quase quatro décadas depois seria desejável o proliferar de análises lúcidas sobre o PREC, embora saibamos que não há enunciadores libertos das suas convicções ideológicas. Ora o discurso do Sr. Eurico não só não acrescenta nada ao já dito pela direita lusitana, mas também pelo seu tom radical e provocatório vem contribuir para incendiar os ânimos. Tem porém um atributo: revelar uma conflitualidade violenta não resolvida porque razoavelmente recalcada (veja-se o tom dos comentários dos seus prosélitos no referido blog), o que não é uma originalidade portuguesa, basta ver, guardadas as devidas distâncias, o que está a acontecer na vizinha Espanha com o reacender das disputas em torno das memórias da guerra civil (1936-39).
Por outro lado, goste-se ou não do perfil humanista e libertário de José Afonso, o quadro grotesco em que o Sr. Eurico o quis inserir é um mero acto calunioso. Quantos cantores, com a sua qualidade, trocariam a carreira por um empenho político-cultural na luta popular por uma democracia socialista. Além disso, em última instância, a arte não é redutível a uma leitura meramente ideológica, ou pior ainda a uma caricatura feita de estereótipos comportamentais tal o caso do texto do Sr. Eurico, ilustre escriba do Diário de Notícias. Mas, em abono da verdade, diga-se também que a sua personagem, digna de perfilar na galeria acaciana de Eça, ignora qualquer apreciação da qualidade específica da arte (canto e composição) de José Afonso. Ele não foi um rudimentar cantor-panfletário, mas um músico que soube aliar a espontaneidade comunicacional a um complexo tratamento da linguagem musical, algo reconhecido por muitos musicólogos não alinhados no seu campo político. No seu “post”, o único objectivo é o de achincalhar o seu perfil de combatente pela liberdade, como forma de desmitificar um “ídolo” da democracia aos olhos de “muita gente”. Mas há desconstrutores de mitos, tal é o seu caso, que, em nome da verdade e da liberdade, deixam escapar o lastro de uma outra mitologia, fundada na intolerância e, portanto, incapaz de reconhecer talento nos que se situam na oposta orla ideológica.
De qualquer modo convém lembrar, entrando no jogo daqueles que não se identificam com o modo de ver e estar no mundo do Zeca, que, por exemplo, Fernando Pessoa era politicamente um conservador liberal anti-democrático ou, segundo Raúl Morodo, um nacionalista libertário e “sintético”, ou, num outro nível, Amália Rodrigues foi, a contragosto, um símbolo cultural da ditadura, mas, tal como José Afonso, apesar das ideologias, pela sua arte, diversamente praticada, todos eles ficarão na memória colectiva, enquanto o escriba Eurico estará condenado a mergulhar subitamente no rio de Lete. E José Afonso não foi apenas um grande cantor e músico, foi também um excelente poeta, daqueles que fazem dançar as palavras, daí o meu convite à leitura de Textos e Canções, Lisboa, Relógio d’Água, 2000. Mas talvez a “violência” das palavras de Eurico não pretendam apenas denegrir o cantor, mas todos aqueles que assumiram o 25 de Abril como um símbolo de caminhos alternativos à desumanidade reinante neste mundo dos “barões do cifrão”, para parafrasear Almeida Garrett. Ou como cantou José Afonso, ”A bucha é dura/ Mais dura é a razão / Que a sustém / Só nesta rusga / Não há lugar / P’rós filhos da mãe”.
1 Todas as informações sobre a militância “negacionista” de Eurico de Barros foram extraídas da sua biografia na Wikipédia e do artigo do Correio da Manhã “Preso por negar Holocausto” (21-2-2006). Refira-se ainda que, neste texto, Eurico de Barros surge como um dos portugueses que estão ao lado de Irving. Outros nomes referenciados no campo “negacionista” são os de Silva Resende, Mário Machado (Frente Nacional) e José Pinto Coelho (PRN). Assinale-se finalmente que o Sr. David Irving continua actualmente a sua campanha pela reabilitação de Hitler nos EUA e na Europa.
Em dois ensaios insertos neste volume (“Psicanálise Mítica do Destino Português”, 1978, e “Da Literatura como Interpretação de Portugal”, 1975), o ensaísta, no contexto do pós-25 de Abril, revela-nos o modo paradoxal como nos fomos imaginando desde os primórdios da nacionalidade, com particular incidência no século XIX. Aliás, diríamos com mais acerto o modo como as nossas elites culturais foram construindo ou reconstruindo a nossa mitologia em prol da comunidade imaginada chamada nação portuguesa. Um povo, para lá de actor histórico, é um produtor de auto-imagens que virtualizam a sua identidade e, portanto, a sua relação com o mundo. Ora o que o autor salienta como núcleo duro dessas constelações imaginárias decorre do "irrealismo" como nos fomos retratando ao longo dos séculos: à nossa fragilidade enquanto actor na história do ocidente, contrapusemos uma ideal imagem de nação messiânica com um destino e uma génese providenciais. Mas esse irrealismo em momentos de crise, sobretudo a partir do romantismo, viria a transformar-se em prolíferas imagens da "nação-cadáver", ora em busca dos símbolos da ressurreição ora em irreversíveis perdições. Tal consciência infeliz decorreria da fixação mítica numa idade do ouro da nossa história, seja a medievalidade idealizada por Alexandre Herculano, seja a efémera glória da nossa aventura dos descobrimentos, entre o século XV e o início do século XVI, cristalizada nas palavras sublimes e heróicas de Camões, simultaneamente epopeia e epitáfio, sinfonia e requiem, tal como nos surge no poema romântico de Almeida Garrett sobre o épico em 1825.Para Eduardo Lourenço, com os nossos românticos «Portugal, enquanto realidade histórico-moral, constituirá o núcleo da pulsão literária determinante». Ou seja, a problematização do eu individual integra como inevitável comparsa o drama do eu colectivo. É óbvio que as circunstâncias histórico-políticas que envolveram os dois românticos podem explicar essa comunhão de destinos. Ambos combateram na causa liberal contra o absolutismo e confrontaram-searduamente com os fluxos e refluxos na implantação do liberalismo, sendo compelidos ao exílio no período do “miguelismo”, ou com os desencantos resultantes das tensões no próprio campo liberal,após a vitória na guerra civil de 1832-1834. O nosso liberalismo foi pois um palco de lutas entre os “devoristas”, os ritualistas do “cifrão”, ou como Garrett lhes chamou caricaturalmente o novo reino dos “barões”, e os que idealizaram a nova pátria como o rosto da ressurreição moral desenhada pelos ilustres cidadãos que assim substituíam os súbditos do “ancien régime”.