segunda-feira, 22 de abril de 2013

O Dia da Terra, as Árvores e os Políticos

Pierre-Henri de Valenciennes - Na Vila Farnese - Os dois choupos (1770)


Hoje puxado pela efeméride apetece-me falar de coisas simples. De árvores e de pedras. Raul Brandão (1867-1930), que nunca apreciou a classe política do seu tempo, mas amou sem retórica a natureza e os humildes fez, em 1901, este singular comentário: “Há neste doce país o desprezo da flor – a não ser que ela se possa trocar em moeda corrente. Não é raro vermos numa praça pública abater-se sem protesto uma árvore. É até vulgar!... Quando a árvore começa a ser bela, esgalhada e enorme, cheia de ruídos e de sombra, surge o vereador e corta-a, sem imaginar, sequer, que mais vale um simples e humilde plátano do que um conselheiro de Estado. O político é inútil… Faz mais diferença à natureza o assassinato de uma grande árvore, que dá sombra e frescura, que tem a alta missão de purificar a atmosfera, do que a morte de meia dúzia de conselheiros de Estado gravíssimos e calvos. Perdoem-me!...” (“Maio”, A pedra ainda espera dar flor – Dispersos, Quetzal, org. de Vasco Rosa, p. 20).


Paul Cézanne - La Montagne de Sainte-Victoire (c. 1885)

Mudam-se os tempos, mas por aqui não se mudam as vontades. Há dias li num jornal o protesto de alguns munícipes de Cascais contra o abate de plátanos junto ao Mercado. Problemas de parqueamento, segundo parece, na razão camarária. Os vereadores deste país, tirando raras excepções, continuam com a mentalidade do visado por Raul Brandão em 1901. O panorama não difere muito do dos outros concelhos do país. Como já referira Almeida Garrett, “há muito pouco entre nós o culto das árvores” (Viagens na minha terra, 1842). É bem uma questão de cultura, isto é, de “provincianismo” alarve. Esta mentalidade está bem mais enraizada do que as mais nobres e seculares árvores deste país. Na sua soberba de betão e rotundas, em relativa falência com esta crise, os autarcas e o poder central vêem nas espécies arborescentes um estorvo às suas políticas “desenvolvimentistas”, com excepção dos eucaliptos, ou à sua visão curta de estereótipos turísticos. Árvores abaixo, pois precisamos de espaço para os paradisíacos e “ecológicos” campos de golfe, um chamariz para turistas fartos de ver árvores nos seus países de origem.


Carl Blechen - A Torre do Castelo de Heidelberg em Ruínas (1830)


Claro que a pedagogia ambiental devia começar nas escolas, ou melhor, na relação saudável das crianças com a paisagem arborizada. Nós estamos apenas em trânsito pela terra, daí a necessária humildade na coabitação com a biodiversidade. Se a hegemonia dos números, ainda por cima mal contados, não fosse apanágio da nossa classe política, talvez não estivéssemos em bancarrota. Falta aos nossos actores políticos uma verdadeira cultura humanista ou pelo menos aprender a escutar, em silêncio ritualístico, a música sussurrada pelas árvores. Depois poderiam seguir, um pouco mais sábios, nos seus potentes automóveis, para as suas reuniões de “salvar o mundo”. Hoje é o dia da Terra, que continuará caso haja vontade dos homens e dos deuses. Ah! Esqueci-me de falar das pedras… Fica para a próxima!


Félix Vallotton - Les alyscamps, soleil matin (1920)



Félix Vallotton - Paysage (1918)



Abel Manta - Rua de S. Bernardo (1928)




Pierre-Henri de Valenciennes - Vista do Monte Cavo sobre o Lago Albano (1782-84)



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Pesadelo do Político – Fragmentos de um Diário



Bosch - O Inferno, detalhe do tríptico O Jardim das Delícias  (c. 1500)

Sempre dormi em sossego nas asas aveludadas de Morfeu, pacificado pela benéfica cruzada patriótica de tornar os pobres mais pobres e os ricos mais ricos, em prol da Renascença Nacional, e seguindo à letra as ordens da finança internacional. Mas esta noite tive um atroz pesadelo. Estava no Inferno, rodeado de pobres que me arrancavam pedaços de carne.



Mestre Desconhecido, Escola Portuguesa 1ª metade do séc. XVI - O Inferno


Neste delírio antropofágico, queria falar mas não era capaz. Falar é uma maneira de dizer, era mais um estéril gritar que apelasse para o bom senso destes parasitas. Como se no Inferno tal fosse possível!



Bouguereau - Dante e Virgílio no Inferno (1850)


Bem lhes tentava dizer que estavam equivocados, eu não era um pedaço de vaca, era o Primeiro, o Eleito, uma versão laica do cordeiro pascal. Deviam respeitar as hierarquias, o poder supremo que o meu corpo legitimamente representava, mas apenas alguns sons esparsos se soltavam da minha garganta ou do que restava dela.



Bruegel -  Dulle Griet (c. 1562)

Era aterrorizado que via um meu braço ou uma perna a escaparem-se nas mandíbulas dessas formas híbridas predadoras. O meu fígado era sofregamente devorado por uma águia-humanóide, embora inutilmente a advertisse, é uma forma de falar, que me estava a confundir com Prometeu, esse antecessor dos perversos esquerdismos. Outros espetavam-me sadicamente garfos do tamanho de forquilhas nas coxas, no peito, nas barrigas das pernas, no coração, pois o meu corpo ora se desagregava em pedaços, ora voltava à sua forma primeira. Era cíclica e eterna a tortura como é próprio do Inferno.



Bruegel  - O Triunfo da Morte (c. 1562)

E piores que os machos eram as Fúrias, esses endemoninhados génios femininos importados do antigo imaginário greco-latino, nascidos das gotas de sangue de Úrano, que selvaticamente me ceifavam os testículos, para meu proveito e exemplo, conforme vociferavam essas megeras.



Bouguereau - Orestes perseguido pelas Fúrias (1862)





Ticiano - O castigo de Mársias (1570-76)


Eram milhões de desempregados, de sem-abrigo, de jovens emigrantes, de esfomeados, de velhos reformados e outros sem reforma, um exército indisciplinado de esqueletos gordurosos, onde não faltavam mesmo aqueles que entretanto se suicidaram de desespero, segundo as malignas vozes da Oposição. No seu estandarte pude tresler a palavra Indignação. Mas indignado estava eu com tais afrontas! Não será isto o mundo às avessas? No Inferno tudo é possível, mesmo o impossível. Aliás de ingratidões está o Inferno cheio!



Antonio Berni - Desempregados (1934)




Hubert von Herkomer - Em greve (1891)


Apesar do caos, lembrei-me, em última instância, de recorrer às Forças Armadas, ao aparelho do Relvas, aos meus amigos banqueiros, à elite dos empreendedores, aos números trocados do Gaspar, à Ângela e seus comparsas (talvez as Valquírias me salvassem, passe o paradoxo da fusão entre anjos e deusas da chacina). Sem êxito. Não tinham autorização, segredaram-me, para atravessar as portas do Inferno ou viajar na barca de Caronte. Proibição ou cobardia? Ou muitos já estariam como eu a sofrer aqui estas tropelias dos indigentes. De facto embora o fumo atenuasse a minha já flébil visão, ainda pude enxergar nebulosamente alguns Ulriches e Oliveiras que como eu padeciam às mãos-garras da turbamulta.




Orozco - Combate (1927)


Cogitei então com o que restava do meu cérebro, combalido com as investidas de Cérbero, o cão do Hades, mais serpente do que cão: se ao menos tivesse os dons de Orfeu, talvez a minha suposta flauta sossegasse estes omnívoros, cujo fito da vida parece ser unicamente comer, deglutir, devorar, manducar, digerir.



Goya  - Saturno (1820-23)


Foi por isso que a nação foi à falência. Se os deixássemos à solta ainda comeriam a Terra e outros planetas da órbita solar. Não sei como pude pensar tudo isto e ao mesmo tempo suportar as investidas destes mortos-vivos. Eu, o messiânico Salvador da Pátria, ver-me assim nestes assados simbólicos e literais. E quando os energúmenos se preparavam para me lançar ou o que de mim restava no caldeirão de óleo a ferver, acordei afogado em suor e alívio. Mas não seria o pesadelo um desses sábios avisos divinos? Pensei com os meus botões já derretidos com as altas temperaturas.




André Fougeron - Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (1937)


Contra os meus hábitos, fui à varanda em pijama para respirar profundamente o ar terapêutico da realidade, depois de uma noite de chamas e enxofre, mas eis que atónito ao longe começo a avistar um bando de trogloditas com bandeiras negras e vermelhas e gritos de revolta. Pareciam os mesmos do pesadelo. Confundiam-se, na minha cabeça, os mortos-vivos com os vivos-mortos, certamente ainda atordoada com os efeitos da trágica noite. Estaria a perder a lucidez que foi sempre a chama, salvo seja, da minha caminhada política? A irrealidade estava a tornar-se realidade? Como seria possível tal transgressão?




Jules Adler - A greve em Creusot (1899)


Teriam estes miseráveis atravessado a pé as portas do Inferno ou teriam vindo à boleia na barca de Caronte, que  resolvera inverter a tradicional viagem, persuadido pelas falsas causas desta populaça? Seriam tão ardilosos que conseguiram o que até a Eurídice os deuses negaram? 




Carracci - O comedor de feijões (1580-90)




Picasso - Os pobres à beira do mar (1903)





Foi então que admiti pôr-me na alheta, isto é, viajar para um desses paraísos tropicais, ou melhor fiscais, antes que o pesadelo se torne definitivamente realidade neste outrora jardim de brandos costumes plantados à beira-mar. De facto eles não me mereciam!




Rivera - O guerreiro índio (1931)


O sol bronzeador dos trópicos seria certamente um bálsamo para quem fez esta travessia das labaredas do Inferno, ou seja, das iras desses corpos sujos, o chamado povo, que nasceram para ser escravos, mas não entendem nunca a sua natureza e destino.



Rivera - O levantamento (1931)


A vozearia na rua, cada vez mais horripilante (nesta aflição nem sei como me surgiu tal adjectivo),  intensificava-se e, então, em sussurro ordenei aos meus seguranças que me arranjassem rapidamente umas barbas de milho e um colorante ruivo para o cabelo para assim me disfarçar e passar incólume entre a canalha vermelha.




Antonio Berni -  Manifestação (1934)


PS - Esta página de pseudo-diário esvoaçou, por mistérios insondáveis, até este blogue, talvez soprada pela tempestade que durante uma semana assolou a capital deste reino malfadado. As barbas de milho, segundo notícias da TV, entretanto começaram a arder. Mas quero relevar, após leitura atenta, o invulgar conhecimento mitológico do nosso Primeiro, algo desconhecido pelo vulgo. Ou seria apenas o pesadelo a falar? 




Ansel Adams - Agitada pelo vento (1940)




Bosch - O Inferno, painel do tríptico O Jardim das Delícias  (c. 1500)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

As Palavras Silenciosas e as Silenciadas

James Ensor - O Homem dos Sofrimentos (1892)

O poder aposta no desgaste, nas mãos que se vão encarquilhando ao ritmo deste tempo de números legitimados pelas sacrais instituições financeiras que se apoderaram desta e de outras terras deserdadas de futuro. Os indignados vão cedendo a um destino, uns emigram, outros paralisam-se na impotência de agir. Dos partidos políticos fora do chamado “arco da governação” as suas vozes de contestação perdem-se nas neblinas da comunicação social ou nos ecos das efémeras manifestações de rua. O cansaço empurra-nos para o silêncio. As palavras de revolta ditas e reditas perdem simbolismo. Seria talvez preciso inventar outras, ou outros modos de as dizer. Nem que seja como um grito - uma raiva vinda das entranhas. Não às esmolas, nem à caridade, a sopa dos pobres do reino das jonets deste mundo, mas o imperativo desejo  de impor o direito à dignidade para todos.

Jules Adler - A Sopa dos Pobres (1906)

 Em nome da austeridade, de números manipulados ao sabor da estratégia fundamentalista deste poder dito neo-liberal, prepara-se uma ardilosa e radical alteração das bases deste nosso precário Estado Social. Deixem o mercado funcionar, reduzam o Estado a um mero cobrador de impostos e à sua benigna função repressiva, dizem eles.


Edvard Munch - Ansiedade (1894)

Com tantos desempregados e precários acabaram-se os arrebites reivindicativos. Fechem as escolas públicas, os hospitais públicos, a televisão pública, o ar público, as sentinas públicas, acabem com essa coisa inútil e despesista a que chamam cultura, privatizem os corpos não usados pelas rugas do tempo, já que estes nem para isso servem, dizem eles. Proíba-se a melancolia, esse sentimento parasita. Proíba-se o minguado lazer dos pobres, não o negócio do lazer para os excelsos que enriqueceram à custa de manobras fraudulentas a coberto dos interesses partidários e das poderosas máfias.



Marcel Gromaire - O Desempregado (1936)

Erotismo para os ricos, não para os trabalhadores, uma perversa fonte de perda de produtividade. Venham os escravos dos tempos modernos! Acelere-se o fim dos eufemisticamente chamados idosos cuja longa vida se tornou um encargo insuportável para o nosso caduco Estado-Providência, dizem eles. O poder precisa mais do que nunca de almas submissas, trespassadas pela lusitana tradição do Fado, não de cidadãos, na sua óptica, meras máscaras construídas pelos diabólicos vermelhos e afins.

Peter de Francia (1921-2012) - Diário do Nosso Tempo 


Louis Le Nain - Le Bénédicité (1642)

 Mas para os bancos, meu Deus, que são o coração intrépido desta nossa odisseia, que nunca falte a solidariedade abnegada do tesouro público, sempre que as suas trapaças os coloquem à beira do abismo. O mundo é dos fortes, dos fracos não rezará a História. Proliferem as sopas dos pobres, como mil flores primaveris, nobilita os dadores e cria nos humildes a benção sagrada da dádiva. Os homens sem direitos tornam-se os números dos nossos apetites insaciáveis. Assim dizem eles.



Paul Delvaux - O Congresso (1941)

Riem o Relvas, o Moedas, o Passos e o Gaspar e os outros pastores, desta nova Igreja, daqui e da estranja. Riem os ricos cada vez mais ricos e os seus abnegados servidores. Acabe-se de vez com este país de pobres com vícios de ricos. Dizem Eles… 

E nós? Estaremos condenados ao silêncio?



Peter de Francia - A Nave dos Loucos (1972)






Edvard Munch - Operários a Caminho de sua Casa (1913-15)




Edvard Munch - Melancolia (1892-93)




José Clemente Orozco - Deuses do Mundo (1932-34)



Ilia  Répine - Os Sirgueiros do Volga (1870-73)



Murillo - O Jovem Mendigo (1645-55)



Francis Gruber - Job (1944)



Van Gogh - Três Pares de Sapatos (1886-87)



Jean-François Millet - A Rajada (1871-73)


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

As Metamorfoses no País Real e o Apocalipse

Arnold Böcklin - A Guerra (1896)


Depois de uma longa hibernação estival, despertei para esta videirinha portuguesa. A desordem das estações vem-me confundindo, hiberno no Verão, veraneio no Outono-Inverno, a tempo no entanto de poder observar os estranhos fenómenos que acontecem por aqui e escutar aquelas catástrofes que os profetas anunciam para os tempos futuros.
Vi um cavalo esverdeado montado por um agressivo coelho de dentes afiados, outro, desta feita um afoito cavalo negro, montado por um sibilino sábio financeiro que, embora autista, tem o poder de fazer perecer, num gesto austero, as gentes desta malograda terra pela fome e pela peste. Mais parece um dragão de papelão, mas quer ser o do Apocalipse.

Arnold Böcklin - A Peste (1898)

Donde vem tanta ira? Tanta que começaram a cair estrelas do céu e a lua tornou-se vermelha de sangue. Já comeram tudo o que lhes cabia nesta vida, agora satisfaçam-se com o esqueleto e o respectivo bolor! Nada pior que o pecado da gula! Assim brada o intrépido guerreiro.

 O povo desvairado com tal tormenta acotovela-se já nos aeroportos, nas estações de combóio ou mesmo nos cais, em desesperada e ilusória fuga para terras longínquas onde o dragão aparentemente ainda não impera. Sobretudo os jovens, já que os velhos cansados de deixar as ossadas pelo mundo estão condenados a ficar. De resto sabem de experiência feita que o inferno não é um privilégio lusitano.
Arnold Böcklin - Medusa (1878)

 Mas os outros dois cavaleiros são ainda mais temíveis, um montado num cavalo branco tem três cabeças viperinas e segue submisso as ordens do quarto cavaleiro, um espantalho de cifrões tatuados numa cavalgada imperial. Este cavalo não tem cor, ou melhor, tem todas as cores do mundo, para não se ver à vista desarmada. As autoridades locais têm aliás como vocação primordial proibir o uso de quaisquer lentes que possam ajudar as gentes a descortinar na neblina que o envolve a sua identidade. As caudas destes cavalos do terror são semelhantes a serpentes que rapidamente começaram a dominar o país.  Os sinais dos dias da ira vão-se propagando num tropel caótico.
William Blake - O grande dragão vermelho e a mulher vestida de sol (1806-1809)


Um pobre garoto da região de Sintra foi mordido por uma víbora venenosa. Foi o primeiro sinal. Em Setúbal, serpentes descomunais infiltraram-se nos esgotos e surgem inesperadamente no interior das casas, através das sanitas, ou na busca de ratos e homens-ratos pelas ruas da cidade. Apavorados os comerciantes fecharam as lojas, as sanitas das casas foram seladas a betão por precaução, brigadas de agentes da Protecção Civil tentam em vão impedir a catástrofe. A obstipação generalizou-se com o pânico dos habitantes. Segundo alguns entendidos na matéria, a explicação para o insólito fenómeno estaria nas radicais mudanças climatéricas, compelindo os répteis da Amazónia a subir para o hemisfério norte. Mas nem só de ofídios se apavoram estes lusos indígenas.
Ferdinand Khnopff - Istar (1888)

 No pacato rio Zêzere, foi há dias avistado um ameaçador crocodilo que num ápice devorou dois turistas em deliciada viagem de núpcias. E no também bucólico rio Tua, um majestático hipopótamo flutuou junto à futura sinistra barragem. Dizem alguns que tem uma pose socrática e edipiana, neste caso, como é óbvio, a origem etimológica do epíteto tem mais a ver com a EDP do que com o conhecido mito de Édipo que não se adequa ao inconsciente colectivo deste mamífero artiodáctilo, com traumas especificamente tropicais.
Zdzislaw Beksinski (1929-2005)

 Mas os sinais deste anómalo povoamento não se ficam por aqui. A vila da Azambuja foi subitamente invadida por alguns tigres que os mais sensatos atribuíram a uma fuga de um circo em ambulância pela região. São pareceres, discutíveis mesmo na sua sensatez. Por isso a população do burgo, a quem faltou tal sensatez, deixou o burgo deserto, agora entregue à voracidade destes felídeos entretidos com as vitualhas abandonadas.
Arnold Böcklin - Tritão e Nereida (1877)

Entretanto gafanhotos do tamanho de cavalos adejantes destroem o que resta da nossa parca produção agrícola. E nas auto-estradas do país quase sem trânsito manadas de toiros furiosos investem contra os poucos incautos automobilistas que se atrevem a circular neste inóspito asfalto poisado na ocidental praia lusitana. As praias fluviais foram também encerradas, pois milhares de piranhas abocanharam quanta perna e braço desnudos acharam nestes rios outrora bucólicos.
Zdzislaw Beksinski (1929-2005)

O caos vem-se assim instalando ao ritmo destes bestiários predadores. E há mesmo boatos que correm nas asas de escorpiões voadores segundo os quais Portugal já estaria mesmo a ser governado por enormes lagartos verdes, embora disfarçados por enquanto de seres humanos. Claro que a culpa não é dos animais como nós criaturas da vontade divina, mas dos desmandos das forças obscuras que governam este mundo. Obscuras é uma maneira de dizer, pois nesta noite de artifício todos os gatos são pardos e as lunetas da alma foram fechadas a sete chaves como o Livro dos Sete Selos. E, segundo se diz, apenas se salvarão os adoradores do bezerro de oiro.
Alfred Kubin - Adoração (1901-1902)

 Mas, para nosso ânimo e dignidade patriótica, as notícias de Espanha, Itália e Grécia, dão conta de eventos semelhantes. Os sinais do fim evidenciam-se a cada hora. E eu, ao olhar de manhã para o espelho, notei atónito que o meu rosto estava também a tomar angulosidades reptilárias. O Apocalipse entrou silenciosamente em minha casa. Estava tão surdo que não ouvi as trombetas.
Zdzislaw Beksinski (1929-2005)

PS: Quase todas estas informações foram recolhidas no jornal Correio da Manhã (1-10-2012), a interpretação dos factos e os comentários são da minha inteira responsabilidade.



Odilon Redon - O Pólipo (1883)
 
Zdzislaw Beksinski (1929-2005)



Arnold Böcklin - Angélica guardada por um dragão (1879)
Zdzislaw Beksinski (1929-2005)



Zdzislaw Beksinski (1929-2005)
Zdzislaw Beksinski (1929-2005)