terça-feira, 27 de maio de 2014

Peripécias dum Velho Eleitor Camponês

Ivan Kramskoi (1837-1887) - Cabeça de um velho camponês (1872)


Acomodado no meu velho sofá, com rasgões que dão para afundar as minhas  memórias, olho para o ecrã da televisão doada por um vizinho benevolente, cuja cegueira recente (cataratas, segundo disse) já não lhe permitia sequer entrar nesse mundo de reais ilusões, imaginadas e fabricadas a preceito, ou seja, com a eficácia necessária para manter a atracção do olhar nesse mundo distante que magicamente se tornara uma espécie de nossa segunda casa. O problema eram as constantes faltas de luz na aldeia, e candeia acesa não ilumina ecrãs.
Algumas imagens e vozes fugazes deram-me então a perceber que proximamente deveria ir votar para as eleições europeias, embora eu da Europa só conhecesse o que as televisões episodicamente me mostravam e eu era capaz de entender, ou aquilo que um companheiro rural, ex-emigrante em França, me contara desses mundos fabulosos, donde segundo percebera tinha vindo dinheiro a rodos para encher a pança dos portugueses, ou, na versão avermelhada, por isso suspeita, de outro velho resistente da aldeia, de alguns portugueses, os privilegiados do costume. Na minha aldeia, último refúgio de reformado viúvo com poucas posses, viviam já apenas 6 habitantes tão enferrujados como eu. O que sabia dos partidos limitava-se à algaraviada televisiva, isto é, um modo de dizer, pois,  homem do Norte, pouco sei dessas expressões sulistas, talvez memórias escolares me suscitem tal expressão. Sabia que havia o Passos e o Portas, o Seguro e os comunas e pouco mais.
Embora com as pernas entorpecidas, tomei nota do dia do voto e decidi cumprir o meu dever cívico, como o meu filho me ensinou a dizer. O problema estava em quem votar, ou ainda pior como poderia chegar ao local de voto,  a uns bons 10 quilómetros de distância. Fiz das tripas coração e aventurei-me à caminhada árdua com a ajuda da sempre amistosa bengala. E pensei que talvez durante o sinuoso (palavra lida no Borda d'Água)  percurso me surgisse a iluminação de uma escolha sensata. Por experiência recente, apenas sabia que o partido do Passos no poleiro me reduzira a parca reforma de feitor, com 70 anos de labuta no campo. Por isso, contrariando o conselho do padre, que mensalmente visitava a aldeia (actualmente nem isso, porque o rebanho era demasiado reduzido para tão longa viagem), decidi secretamente, não fosse o diabo tecê-las, mudar o sentido do meu costumeiro voto laranja.
Mas que teria tudo isto a ver com a Europa? Dizem os do poleiro que nos endividámos com tantos velhos e velhas (sobretudo velhas que teimosamente duram eternidades), calões e estropiados a esmolas do Estado e estradas a perder de vista. e que a santa Europa usurária, palavra douta ouvida a um adepto da oposição, logo se prestou a emprestar o carcanhol. Pouco mais sabia. Mas desta vez, contas feitas, a reforma mal dava para a boroa, ora bolas para os laranjas que assim  me pagavam décadas de fidelidade, pensei com os meus botões coçados. Não pedi conselhos ao meu filho, a viver em Lisboa, pois sabia das suas tendências demasiado comunistóides para meu gosto, efeitos certamente de más companhias, e, além do mais, o meu rendimento não dava para fazer telefonemas a despropósito.
No dia aprazado, cheguei exausto, palavra desnecessária tendo em conta a lonjura e a idade, à vila onde estava recenseado. Pediram-me o bilhete de identidade e deram-me um papel com as siglas dos partidos. Aí começaram as minhas aflições, pois tantos eram os emblemas em presença. Eu bem procurei o rosa, incitado à última hora  por um conterrâneo partidário do Seguro. Mas nada. Seria dos meus olhos turbados? Pensei então em fechar os olhos e atirar a cruz, Deus me perdoe, ao acaso para o bafejado quadrado. Ou então, como em miúdo,  entoar uma cantilena para esvoaçar o voto ao sabor da sorte. Com tanta hesitação, o tempo foi-se prolongando demasiado no "escondidinho" do voto, e não me livrei, pensei eu, da suspeição de sabotagem aos olhos dos senhores da mesa. Nos tempos que correm, nunca se sabe! Atirei às cegas, embora com o risco de acertar no tal Passos que me encolhia o tempo da sobrevivência ou nalgum partido vermelho. Pior a emenda que o soneto! Mas, quando abri os olhos, verifiquei com terror que a cruz estava fora dos quadrados, fora dos quadrados de todos os quadrantes. Com suores frios ou quentes, já nem me lembro, coloquei então velozmente uma cruz em todos os quadrados, não fosse o meu atraso ter terríveis consequências europeias. Dobrei o papel conforme a Lei e coloquei-o na respectiva urna, palavra de mau gosto para tal cerimónia, diga-se em abono da verdade. Lá regressei a casa, mancando cada vez mais, mas feliz porque tinha cumprido o meu dever cívico. A Europa iria certamente agradecer-me pelo acto, só espero ainda estar vivo para receber a justa recompensa.


Ivan Kramskoi (1837-1887) - Retrato de um velho camponês com muleta (1872)




domingo, 6 de abril de 2014

Para não falar de política!

Carel Willink  (1900-83) - Paisagem com Estátua Caída (1942)

De que é feita uma vida? Hoje com setenta anos ainda não sei responder. Cada caso é um caso, diríamos carregados de bom-senso, embora todos estejamos condenados ao mesmo desenlace. Por vezes penso que uma aparente fugaz imagem pode ser o cerne da questão. Uma imagem que de certo nada vale ante as peripécias narradas por uma comunicação social (a famigerada agenda noticiosa) que inexoravelmente ritma os dias do nosso quotidiano: atentados, guerras, especulações bolsistas e outras, naufrágios, bizarrias meteorológicas, pequenas e grandes catástrofes - por vezes tão longínquas, apesar de mediaticamente próximas, que depressa se apagam da memória -, traições e anedotário político, delitos,corrupções e necrologias dos afamados. E, quando os grandes entusiasmos das paixões ideológicas ou outras passaram no tempo curto da nossa história, fica então esta sensação de vazio que nada pode preencher. A voracidade do tempo é desmesurada e na caminhada vão ficando as máscaras destroçadas que nos couberam em sorte ou desnorte.


Giorgio de Chirico (1888-1978) - O Enigma da Hora (1911)


Depois, quando despojado de tanta ficção, o nosso corpo enrugado continua apenas aberto aos sinais da natureza,  enquanto os sentidos não vão obviamente embotando completamente: rumores, aromas, paisagens, gestos paralisados no tempo. Então descobrimos que a felicidade é uma ficção que os deuses inventaram para nos iludir, seja na terra ou no céu. A vida é um litoral branco, onde podemos imaginar palavras ou imagens que possam dar algum sentido à caminhada. Mas, para lá disso, o que fica é um corpo com as suas necessidades básicas a que por vezes chamamos desejos, desnudado já das pequenas e grandes verdades que motivaram a rota de tantas vidas. As convicções persistem, mas descolaram-se do corpo, como um hábito ou uma rotina já sem a capacidade sequer de sulcar a pele dos nossos dias.


Giorgio de Chirico (1888-1978) - Melancolia de uma Bela Jornada (1913)


E hoje, 6 de Abril de 2014, dia em que escrevo esta sensaboria desconexa e vagamente pessimista, a Primavera aí está com todo o seu esplendor apolíneo. E este lugar-comum que habita as conversas quotidianas, ao sabor dos códigos sociais, se não me euforiza, pelo menos desperta-me agonicamente os sentidos para o voo das árvores, das flores e das aves, entes que nunca tiveram a necessidade de se interrogar sobre o sentido da vida ou da felicidade. Deixemo-nos então esvoaçar aos ritmos das asas deste cenário que não se deixa enredar nas teias da infinita busca de sentido. Hoje é um bom dia para apenas existirmos, se é que dizê-lo tem paradoxalmente algum sentido.  


Giorgio de Chirico (1888-1978) -  A Jornada Ansiosa (1913)

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Corpos e Números


Abraham Harriton (1893-1986) - 6th Avenue Unemployement Agengy (1937


O que é preciso é criar quanto antes novas elites […] Não elites que nos subjuguem – mas elites que nos conduzam para a beleza e para a justiça...”

Raul Brandão, Memórias, v. III (ed. Póstuma,1933)


Rudolf  Dischinger (1904-1988) - Ameaça (1935)


Embora numa linguagem datada, esta aspiração brandoniana tem hoje toda a sua pertinência tanto no plano nacional como no europeu. A falência de ideais coloca-nos sob o jugo absoluto do poder financeiro e dos seus servis executores políticos, habilitados com uma retórica contabilística e de endeusamento dos mercados. Mas, paradoxalmente, estes nem sequer fizeram ou fazem do país ao menos uma mercearia bem organizada. A cultura é tratada como luxo parasitário, o supérfluo que apenas alguns pretensos intelectuais se atrevem a defender. O circo mediático cumpre a sua nobre função de aniquilamento do que resta do espírito crítico dos portugueses. Mas há outros luxos a combater, tal o caso do democrático direito à Saúde e à Educação. Tudo em nome da nobre missão dos actuais governantes de salvar o país da bancarrota. Eles têm a bandeira na lapela, um sinal para ocultar a imperativa acção de resguardar os interesses usurários dos nossos credores, nobre cruzada nesta mascarada trágico-cómica de venda de Portugal a retalho. E, numa Europa, feita nau à deriva, de ajustamento em ajustamento, lá vamos disciplinadamente ao fundo.


José Viana Dionísio (1922-2003) - Ordem (1946)

Não são apenas os jovens qualificados a emigrar, mas também gente desesperada com mais de 50 anos. Basta andar na rua para perceber o estado calamitoso a que chegámos: lojas e fábricas fechadas, conversas fortuitas sobre profundas carências, gente desempregada ou explorada até ao tutano que vai desistindo de viver. Corpos dilacerados que os burocratas de serviço não querem ou não sabem contabilizar. Quanto ao redentório “milagre económico” proclamado pelo arguto Pires de Lima, vem o FMI com o seu relatório imperial a proclamar mais austeridade até ao dia do Juízo Final.


Joe Jones (1909-19363) - Descarregadores (1934)

Entretanto, o fascismo, nas suas diversas variantes, vem paulatinamente ocupando em vários países europeus o lugar vazio destas fictícias democracias. O cenário condiz com as palavras, pois, como afirma o douto dirigente do PSD Luís Montenegro, “a vida das pessoas não está melhor, mas o país está muito melhor”. O odor fascizante deste comentário não deixa dúvidas. O país já não são as pessoas, mas uma mirífica abstracção ideologizada típica dum poder totalitário. O país é certamente, nesta óptica, um deserto apenas ocupado por números manipulados ao sabor da estratégia desta “elite” simultaneamente apatetada e desumana que nos coube em sorte, ou melhor, em desgraça. Os corpos destroçados deste país terão ainda capacidade para mandar estes bonifrates para o definitivo deserto de onde por lapso dos deuses nunca deveriam ter saído? Cabe a este povo sem rumo reencontrar-se e dar a conveniente resposta.


Dorothea Lange (1895-1965) - White Angel Breadline (A Sopa dos Pobres), S. Francisco, 1933



Dominguez Alvarez (1906-1942) - Enterro Pobre (1929)


Renato Guttuso (1911-1987) - A Morte de um Herói (1953)


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O Regresso às Crónicas e aos Mitos

Gustave Courbet (1819-1877) - Auto-Retrato, O Desesperado (c. 1843-45)

Depois de uma longa ausência, por motivos alheios à minha vontade, retomo com mais rugas da idade e do desalento as despretenciosas crónicas sobre o espectáculo deste mundo. Não me apetece falar de recalibragens nem do despudor retórico destes abutres, os daqui e os da estranja, que nos “governam”, nem da sonolência que parece afectar este e outros povos igualmente desditosos. Talvez porque está tudo dito e redito ou talvez porque me faltem as palavras para me reencontrar com a fúria lúcida necessária nestes dias de cinza. Basta de trovadores da desgraça, embora este mundo esteja amputado de graça, basta de lamentações e outros ecos da perdição. Os bonifrates do poder, numa surdez calculada, repetem os gestos habilmente orientados pelo grande manipulador, actor coberto pela neblina do anonimato. A engrenagem funciona e aparentemente nada a pode deter. Os cenários montados por servis agentes, nos meios de comunicação social, completam a eficácia do sistema, ou seja, a retórica imaginária do poder absoluto. Os mercados, esse sujeito sem contornos e sem alma, um vazio imperativo, ditam o nosso destino. Estamos armadilhados na teia destes símbolos habilmente forjados para nos submeter. Não é sequer uma conspiração dos grandes financeiros para dominar o mundo, pois eles já o dominam. A novidade está nesta estratégia de imposição de uma única visão do mundo como algo natural ou decorrente da genética humana, assente na credibilização da iniquidade através das máscaras da equidade do dito mercado. Chamar ao lobo cordeiro e ao cordeiro lobo. Ou convencer-nos que em cada vítima há um coração de carrasco, em cada carrasco um coração de vítima. A coisificação das relações humanas produz cegueira. É um mundo sem avesso e por isso naturalmente sem horizontes alternativos. Estamos condenados a ser os nossos próprios carcereiros. E aqui está como um cronista bem intencionado, contra sua vontade, se foi transformando num trovador da desgraça.



Paula Rego - O Jardim do Interrogador (2000)


Então eis que, neste patriótico interregno de silêncio e quase apatia, a morte dum homem de seu nome Eusébio – originário de um bairro pobre de negros da então colonial Lourenço Marques e que se tornaria um fabuloso artista da bola, reconhecido mundialmente e por isso manipulável, no quadro da cruzada salazarista, em torno do mítico multirracial ecumenismo lusíada, na década de 60 – vem, em plena crise, reconfigurar a nossa cenografia mitológica. Como afirmou solene Luís Filipe Vieira, “Eusébio já tinha ganho em vida a condição de mito” e a sua morte, digo eu, eleva-o à condição de super-mito, ou seja, numa identificação hiperbolizada “Eusébio é Portugal”, como nota José Mourinho. É então urgente reescrever a Mensagem de Fernando Pessoa, pois, segundo os escribas de serviço, este grande artista da bola teria sido a primeira figura do português global. E o discurso mitológico amplia-se: imortal símbolo de Portugal; Rei-Ídolo ou King, para dar um tom mais universal e eternizado.



Henri Rousseau (1844-1910) - Os jogadores de futebol (1908)


Realmente, para além de Ronaldo, próximo Comendador por iniciativa presidencial, onde encontrar hoje alguém que pudesse preencher o actual vazio de heróis lusos? O Barroso, presidente da Comissão Europeia, palavroso executor dos senhores do nosso destino? O Cavaco destes tempos tormentosos, actor menor para os desafios desta farsa trágica? O Coelho, salvador da pátria, que retoricamente identifica a sua missão de destruir o que resta deste país com o próprio Portugal? O Seguro, o mais inseguro líder do exército “socialista”?
Certamente Eusébio, conforme cruzada em curso, merece a máxima consagração nacional: o seu corpo deverá vir a ocupar um lugar ao lado de outros imortais do Panteão Nacional, aliás bem heterogéneos e tensos, para não dizer pior, nessa coexistência forçada (escritores liberais e democratas como Almeida Garrett, Guerra Junqueiro, João de Deus ou Aquilino Ribeiro; políticos da 1ª República como Teófilo Braga e Manuel de Arriaga; Sidónio Pais, um precursor da ditadura; Óscar Carmona,um eminente representante do Estado Novo; Humberto Delgado, um digno opositor da ditadura e finalmente a popular fadista Amália Rodrigues).



Dorothea Lange (1895-1965) - Neto de fazendeiro (1939)


Claro que os excessos retóricos ditirâmbicos, repetidos à exaustão nas televisões e na Imprensa, correm o risco de se desgastar prematuramente. Aliás, eles sabem lá o que é um mito ou um símbolo, e assim banalizam o que, na sua óptica, não devia ser banalizado. Sem disso ter consciência, estes discursos consumidos e a consumirem-nos à saciedade tornam-se aceleradamente lugares vazios, a não ser que uma estranha nostalgia bolorenta dos tempos imperiais do chamado Estado Novo os reanimem. De qualquer modo o quase unanimismo perturba-me e assusta-me. Mas sejamos claros, Eusébio merece ser um símbolo do nosso futebol, nas suas virtudes e nos seus defeitos, o problema está em transportarem o símbolo para o domínio da nação. Calem-se as Musas que outro feito se alteia, sussurrará estranhamente Camões nos Campos Elísios. Mas de facto que importância tem altear a bota e desvalorizar a pena neste mundo de computadores? Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades!

Porém convém, no meio da algazarra, sobretudo não esquecer o menino negro que pôde realizar o sonho de se tornar numa estrela futebolística. É esse jeito de sonhar que deve ficar como imagem de Eusébio. Os mitos são as ficções dos que vão ficando, por enquanto. Nada mais.





 





sexta-feira, 7 de junho de 2013

Os Governantes e a Mitologia Lusitana


Vieira da Silva - História Trágico-Marítima ou Naufrágio (1944)


Em 2 de Fevereiro de 2012, li num jornal que o nosso insigne ministro das Finanças de nome Gaspar, numa entrevista ao Financial Times, numa retórica e patriótica comparação, declarava que os abissais desafios com que actualmente nos confrontávamos eram insignificantes para um povo que historicamente tinha já superado obstáculos bem mais gigantescos: “quando os nossos navegantes se fizeram ao mar […] não tinham controlo absoluto sobre como seria o seu desempenho perante as tempestades”. Mas, inspirado no poema épico de Camões e assumindo a tradição dos Bartolomeus, Eanes e Gamas, acrescentaria: ”Temos tradição de ser bons marinheiros e de nos prepararmos para todas as tempestades”. Na noite anterior à entrevista pedira aliás a um dos seus devotados adjuntos que lhe lesse um resumo d’Os Lusíadas, pois o tempo era escasso para tão árdua leitura. Precisava de se inspirar nas Musas da Pátria, as Tágides da sua memória escolar, bastante desgastada com a sua longa ausência da terra natal, devido aos apelos dos Bezerros de Oiro que na estranja há muito reconheciam os talentos deste sábio do numerário.


Otto Griebel  (1895-1972) - Um Desempregado dos Anos 20

Mas, para infelicidade nossa e do Gaspar, este teve de mudar o rumo das histórias, já que tudo o que previra para superar os Adamastores da nossa crise financeira havia naufragado, com tantas trombas de água e enjoos a bordo face a tal turbulência. Em Maio de 2013, o nosso Primeiro, o astuto Coelho, face ao naufrágio anunciado do seu guru financeiro, entretanto regressado de uma ilha deserta para onde o cataclismo o lançara com outros destroços, resolveu aconselhá-lo delicadamente a mudar a rota das metáforas. Talvez o Fado, essa genuína toada da alma nacional, sugeriu o notável Gaspar. Dolorosamente pensativo o nosso Primeiro teve então um clarão súbito, melhor do que o Fado, demasiado abstracto para os ouvidos da populaça, talvez a recente história trágica do Benfica, essa glória asada dos anos 60 e com cem milhões de adeptos pelo mundo, nos pusesse a navegar à bolina do imaginário nacional. Mas eu sempre fui do Sporting, ripostou apreensivo o notável Gaspar. Não te preocupes, com uns telefonemas arranjo-te um cartão de sócio até com a data do teu nascimento. E assim foi. Em 30 de Maio de 2013, durante um almoço de empreendedores, organizado pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola, o insigne Gaspar foi convidado a proferir uma douta conferência sobre o estado da Nação. E quando a ilustre assistência se preparava para ouvir uma sábia lição sobre o presente e o futuro desta depauperada nação (empresas falidas, um milhão e meio de desempregados, as trombetas do Apocalipse a troar no céu lusitano), eis que da voz simultaneamente sibilina e humorada do conferencista saíram estas palavras inesperadas: “Queria pedir a vossa simpatia pelas semanas que tenho vivido como adepto do Benfica. Esta questão de perder sucessivamente 2 – 1, em alguns casos depois do tempo regulamentar, é de facto uma provação que merece toda a simpatia”. E assim se deu a volta ao texto, melhor ele deu uma prova da sua identificação com o genuíno trajecto da gesta nacional: derrotados mas eufóricos por mais estas vitórias morais.


Frederic Watts - Esperança (1886)

E para aqueles que pensam que o tempo dos três efes (Fado, Fátima e Futebol) passou à História, desenganem-se, pois para esta tragicomédia acabar em apoteose, o nosso Presidente Cavaco agradeceu a Nossa Senhora de Fátima pela aprovação da 7ª Avaliação daTroika. Será que o nosso D. Sebastião estará prestes a regressar do nevoeiro?


Salvador Dali - Construção Mole com Feijões Cozidos (1935-36)


PS – E para os mais distraídos que pensam que esta história se passou no Reino da Barataria, é meu dever de cronista informá-los de que todos estes factos são verdadeiros e se passaram nesta infortunada nação chamada Portugal que, segundo o Poeta, é o rosto da Europa que “Fita, com olhar esfíngico e fatal,/ O Ocidente, futuro do passado”.


Gustave Courbet - Tromba de Água (1869-70)

Albrecht Dürer - Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (1497-98)


James Ensor - Os Sábios Juízes (1891)


James Ensor - A Raia (1892)


Hendrik Mesdag - Regresso dos Barcos de Pesca (1895)



Bonaventura Peeters  (1614-1652) - Tempête dans le Grand Nord (2º quartel séc. XVII)



Pieter Bruegel - O País da Abundância (1567)


terça-feira, 30 de abril de 2013

A Crise da Democracia e os Nostálgicos da Ditadura


Jacob Burk (1904-1982), The Lord Provides, litografia,1934


 Nasci em 1943 (11/12) e vivi até aos 30 anos sob o domínio da ditadura “fascista” de Salazar e do seu sucessor, na fase crepuscular do regime, Marcelo Caetano (1968-1974). Em 1958, com a farsa eleitoral que opôs o General Humberto Delgado ao totalitarismo da direita reinante, tive o primeiro sobressalto na minha consciência política. Para lá do reconhecimento abstracto do terrorismo oficial, um familiar fora preso e enviado para Caxias, pelo único pecado de ter colaborado na candidatura do General.


George Grosz - Sem título (1920)



Os dias cinzentos, na magnífica expressão de Mário Dionísio, toldavam-nos o olhar e enclausuravam-nos o corpo, por isso a luta contra o absurdo da mais longa ditadura europeia - que sobreviveu, contra muitas expectativas, à derrota nazi-fascista na 2ª Guerra Mundial e pôde até integrar-se com a cumplicidade das potências ocidentais democráticas na NATO, em 1949, em função da nova conjuntura (a chamada Guerra Fria) – foi um processo complexo, no quadro de uma repressão política e sociocultural com projecções em todos os actos quotidianos. Só, na década de 60, com a eclosão da guerra colonial, na qual a minha geração foi forçada a dar o corpo ao manifesto, o regime começou a ser isolado internacionalmente. O fantasma de Salazar, que morreu em 27 de Julho de 1970, acompanhou-nos pelo menos até ao 25 de Abril de 1974.


George Grosz - Os Pilares da Sociedade (1926) 

Mas o exorcismo desencadeado pela Revolução de 25 de Abril, com toda a euforia colectiva, sobretudo nos meios urbanos, não impediria, para espanto dos que sofreram no corpo e na alma os malefícios desses anos de chumbo, que a sombra do ditador abandonasse definitivamente a cena do nosso imaginário colectivo e pudesse ressurgir mais ou menos santificado, em momentos de crise do nosso sistema democrático, tal como acontece com a actual conjuntura.


Júlio Pomar - Gadanheiro (1945)

A festa revolucionária foi intensa mas de curta duração, a democracia paralisou-se no gesto pragmático de “meter o socialismo no bolso”, depois veio o Eldorado da CEE, fundos e fundos a sumirem-se nas areias de Portugal, mas pagos com a destruição do nosso já débil aparelho produtivo, ou nesse delirante mar de betão onde nos afundámos. O poder político e a Banca empenharam-se e empenharam-nos, durante esse período glorioso, na ilusória felicidade do “consumismo”.



Hanson Duane - Senhora do Supermercado (1969)


Basta ver que entre os mais ricos de Portugal contam-se os proprietários das novas catedrais de consumo. Mas com a crise financeira internacional, espoletada pelos bem embrulhados “produtos tóxicos”, o reinado das ilusões desabou subitamente. Somos hoje o país da EU com mais desigualdade social e mais de um milhão de desempregados. Durante a ditadura, de 1960 a 1974, um milhão e meio de portugueses, rurais e analfabetos na sua maioria, partiram “a salto” para França. Hoje é o benemérito governo que aconselha os portugueses a emigrarem. A casa está em ruínas!


Frank Holl - Partida de Emigrantes (1877)


Numa recente sondagem, mais de metade dos inquiridos admite mesmo que a economia  (56,7%) e a justiça (49,1%) funcionavam melhor antes do 25 de Abril. Claro que nunca ouviram falar dos Tribunais Plenários, onde os opositores ao regime eram expostos às arbitrariedades do poder, em julgamentos que eram verdadeiras farsas-trágicas, para não falar da prorrogabilidade das medidas de segurança por períodos indefinidos que permitiam ao poder manter na prisão os “subversivos” muito para além do tempo das penas atribuídas em tribunal. Não ouviram falar ou trata-se de um caso de amnésia colectiva.


Álvaro Cunhal - Projecto 4

Quanto à economia, Salazar ficou famoso por ter sido capaz de restaurar o nosso equilíbrio financeiro, mas à custa de um povo brutalmente empobrecido e controlado policialmente nas suas reivindicações. A imagem dos “pobretes mas alegretes” tinha muita força. Apenas um exemplo: em 1974, éramos a sociedade ocidental com o índice mais elevado de mortalidade infantil (em 1960, em cada 1000 habitantes, 77,5; em 1975, 38,9). Hoje, temos uma das mais baixas taxas no mundo desse flagelo social. Nem tudo correu mal nas 3 últimas décadas no que concerne à estruturação do Estado Social - aliás, um conceito de formulação duvidosa, pois se o Estado hipoteticamente não estivesse ao serviço do bem-estar dos cidadãos, para que serviria? Para reprimir os recalcitrantes, cobrar impostos e garantir os lucros fáceis do poder económico-financeiro?


José Dias Coelho - Morte de Catarina Eufémia (c. 1954)

João Abel Manta - Preso Político Ladeado por um Pide e um Guarda


Mocidade Portuguesa (1936-1974)

Mas, actualmente, com o “neo-liberalismo” imposto por este governo e seus mandantes internacionais, em nome da austeridade, está-se a destruir o nosso chamado Estado Social. A democracia portuguesa vai-se desintegrando, pois deixou de corresponder às necessidades vitais da sobrevivência da nação como estado independente. O povo oscila entre a resignação e a revolta, o fatalismo e a procura de alternativas que começam a superar as fronteiras dos partidos que até aqui têm monopolizado a vida política. Há um divórcio cada vez maior entre os cidadãos e os partidos, tal como noutros países do sul da Europa. Entre nós, estão então criadas as condições para o regresso em força dos velhos fantasmas, sobretudo a nível da população mais despolitizada ou amputada de memória colectiva.

George Grosz - Desempregado (1934)


Claro que o actual tecnocrata ministro Gaspar não parece ser tão bom em números como o fora Salazar, aliás, um precursor da austeridade como medida salvífica dos povos. Mas no tempo da outra Senhora não havia Estado Social, apenas um arremedo, nem sindicatos livres, nem oposição legal. Gaspar é, de resto, um cosmopolita agente do capitalismo financeiro internacional, disfarçado de ministro das Finanças de um governo à deriva e na situação de bancarrota.


Salazar (décadas de 30-40)

Salazar era, em contrapartida, um austero “provinciano” que, no entanto, bem serviu os donos tradicionais de Portugal: “O meu isolamento tem essa vantagem: permite-me estar ao lado de todos os portugueses, permite-me não viver, aqui ou além, para viver simplesmente em Portugal!” (Entrevistas de António Ferro a Salazar, 1932-38). Estar ao lado de todos os portugueses, isto é, numa versão maligna, estar sorrateiramente de múltiplos olhos vigilantes como Argos, não fosse a “besta democrática” fazer das suas. A isso chamou-se primeiro PVDE e depois PIDE (a polícia política e um exército de informadores, sempre à escuta das eventuais palavras da subversão). Depois o olhar aterrorizador da Censura lá estava para completar esta devassa à alma dos portugueses. Silenciados, a maioria dos portugueses vivia a sua videirinha. Não te metas em trabalhos de galé, isto é, falar de política, era conselho de pais para filhos. Por isso os portugueses, na sua maioria, são ainda hoje peritos no monólogo e inábeis no diálogo. Os gestos mentais são lentos na mudança, demoram gerações. Depois há a memória mais antiga dos tempos inquisitoriais. É muito peso para um povo dito semiperiférico. Nunca ninguém se lembrou de fazer uma antropologia do modo de andar dos portugueses. Um campo semiótico a explorar. Cada corpo transporta consigo espessas camadas seculares de monólogos, queixumes e sussurros como uma expiação. Ao menos habituem-se a gritar, se não os salva pelo menos alivia. É um peso a menos no andar.

Rogério Ribeiro

Hoje estão, no entanto, criadas as condições, com a progressiva decomposição desta democracia, numa União Europeia sem rumo ou subjugada pelos interesses hegemónicos do especulativo capitalismo financeiro, para uma beatificação do camponês-doutor de Santa Comba Dão, que “morreu com as solas rotas”, e viveu gloriosamente para o bem-estar da grei, como já li em algumas mensagens das redes sociais. Com a novidade de ser referido o seu longo reinado como a negação do nepotismo e da corrupção. Nesse Portugal mítico omite-se obviamente que durante a ditadura se hiperbolizou a “cunha”, essa sagrada instituição nacional. Claro que o espectáculo grotesco, que a nossa actual classe política vem desenvolvendo, cria as condições ideais para uma ressurgência de uma mitologia messiânica encarnada num reinventado Salazar. Quem serão os candidatos à reencarnação?


Mocidade Portuguesa (1936-74)

É de facto urgente fazer um balanço destes 39 anos de democracia, tanto nos seus aspectos positivos como nos negativos (sobretudo a tortuosa conivência entre o Estado e os poderosos grupos económicos ou a corrupção de alto coturno tipo BPN), e reinventar a democracia, que não é uma fórmula fixa, mas o resultado de uma permanente luta colectiva e de uma capacidade inerente de ser questionada, de nos questionarmos, para lá dos formatados partidos políticos, em geral pouco inclinados à reflexão. Obviamente a solução não está em regredir para modelos conservadores, mas investir na busca de mundos alternativos que devolvam a dignidade aos cidadãos. Como é possível que na Grécia, em Itália, em Espanha e Portugal haja dezenas de milhões de desempregados? A situação é explosiva e implosiva. Do caos passemos então a um novo paradigma democrático. É tempo de acabar com os fantasmas! Quem diria que, quatro décadas após o 25 de Abril, ainda perco tempo a terçar armas com os nostálgicos do ditador.


João Abel Manta - As Idades de Salazar 1

João Abel Manta - As Idades de Salazar 2

João Abel Manta - As Idades de Salazar 3



João Abel Manta - As Idades de Salazar 4



João Abel Manta - As Idades de Salazar 5