sexta-feira, 8 de julho de 2011

O Lixo e as Armas

Bordalo Pinheiro - O Ultimatum
Estamos de novo num clima de revolta patriótica, próximo daquele que se gerou com o Ultimatum Britânico de 10 de Janeiro de 1890, donde surgiria a “Portuguesa”, marcha patriótica de Alfredo Keil e Henrique Lopes Mendonça, mais tarde, com a República (1910), consagrada como hino nacional.
Na época, eram os nossos brios ofendidos pela imposição imperialista anglo-saxónica de abandono imediato de territórios ultramarinos que, segundo o nosso mapa cor-de-rosa (la vie en rose), nos caberiam por direito legítimo. Daí o fervor patriótico e belicista do nosso protesto bem presente na letra e no ritmo da “Portuguesa”: “Às armas! Às armas! (...) Contra os canhões (dos britânicos) marchar, marchar.”
Foi obviamente mais um gesto para acariciar o nosso ego colectivo, do que um apelo efectivo e prático para nos confrontarmos com a mui poderosa máquina militar do Império Britânico, aliás, o nosso mais velho aliado. Os povos têm destas coisas quando a sua auto-estima anda muito por baixo.
Mudaram-se os tempos, mas eis-nos de novo de orgulho colectivo ferido, e ainda por cima de bolsa rota, já não por um Estado Imperial, mas por uma dita Agência de Rating Moody’s, ou seja, por alguns agentes do capitalismo financeiro internacional, cuja tarefa é avaliar o corpo agónico da nossa economia e, se for caso disso, atirá-lo borda fora, mas sem primeiro sorver até ao tutano os ossos da nossa desgraça.
Numa busca breve ao Dicionário, notei que rating (não confundir com ratting, caça aos ratos – não iria tão longe a sua ousadia), significa avaliação; já moody levanta algumas suspeitas, pois leio taciturno, melancólico, carrancudo, rabugento, mal disposto, sorumbático, de temperamento instável. Uma carranca de meter medo mesmo aos santos. Ora a nós que não somos santos, mas pecadores inveterados, atirou-nos para a “lixeira” do capitalismo.
Este gesto, próprio dum “almeida” camarário, levantou uma onda de protestos de norte a sul e ilhas: no facebook, surgem apelos à indignação; o Procurador Geral da República dispõe-se a pôr a dita em tribunal; as autarquias rompem os seus contratos com a dita; publicam-se via internet imagens de  D. Afonso Henriques a atacar briosamente as instalações da dita, clamando “Morte aos ´mouros´ do Norte”; as caixas de bolacha Maria (a lembrar a nossa Maria da Fonte) são ilustradas com símbolos anti-moody; idem para as da sardinha, fósforos e tabaco; fazem-se calendários para 2012, postais, cromos, leques, com inscrições alegóricas visando a dita. De tal modo o movimento é gigantesco que, para espanto dos especialistas, a nossa economia começou subitamente a crescer, a crescer, a crescer, mas no domínio do puro delírio colectivo.
Max Beckmann - A Sociedade Parisiense
Bastante combalido está o nosso 1º de Massamá. Segundo disse “levou da Moody´s um valente murro no estômago”. Compreende-se a sua desilusão, depois das medidas radicais que tomou (o povo é sereno!), mais troikista (não confundir com trotskista) que a Troika, a acenar a Bruxelas e às agências de Belzebú, atirarem-lhe o reino para a lixeira dos indigentes, é algo de pôr um Job de cabelos em pé! Mas no estômago com um soco certeiro, isso não se faz. Já agora, a propósito, na formatação de dirigentes made in PSD não se ensinam técnicas de boxe ou de karaté? Uma falta imperdoável nestes tempos conturbados.
Mas o mais estranho de tudo isto, é ver como os nossos políticos da direita dita neo-liberal, ou os seus comparsas que dominam o comentário televisivo, ainda há bem pouco tempo, defendiam com unhas e dentes que não tinha qualquer sentido beliscar as agências de rating, pois isso só iria prejudicar Portugal e as nossas finanças abolerecidas. Talvez isto sirva de lição aos nossos talentosos neo-liberais, para que no futuro entendam melhor os segredos do negócio. Mas não serve porque a sua devoção ao sacrossanto mercado é inquebrantável. Os crentes têm pouca apetência pela razão das coisas.
Resta-nos então para consumo interno reinventar a “Portuguesa”. Aqui fica uma hipótese desajeitada:

“Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Não a lixeira do mal!

Às armas! Às armas!
Pela pátria lutar,
Contra a Moody marchar, marchar.

Mas à falta dum letrista e dum inspirado compositor, terminemos com estas palavras sensatas, anteriores ao anátema do lixo, de Frei Bento Domingues: “O pior da crise actual não são as desgraças que já provocou. Pior é a cegueira de quem não quer ver a falência do capitalismo financeiro e desregulado, de raiz anglo-saxónica com sede em Wall Street e na City de Londres e ramificações nas principais praças financeiras do mundo. Importa fazer objecção de consciência à economia de jogos financeiros e promover uma economia orientada para a construção do bem comum.”(Público-19-6-2011).


Répine - Os Sirgueiros do Volga
 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A Mercearia e as Finanças


Grosz - Eclipse do Sol (1926
Como diria Guerra Junqueiro, se fosse vivo, já que não podemos ter um grande ideal colectivo, ao menos que tenhamos uma "mercearia" bem ordenada. Para a boa contabilidade colectiva, temos os chamados Ministros das Finanças. Na nossa História do século XX, já tivemos um "merceeiro", formado na douta Universidade de Coimbra, que começou a pôr as Finanças em ordem ainda no tempo da ditadura militar (1928). Mas ele mesmo, 4 anos depois, tornar-se-ia a alma da dita ditadura. Durou até Abril de 1974, embora alguns tiques ainda hoje persistam. Tinha as contas em ordem, mas o povo pobre, adoentado, triste, analfabeto e submisso. Como se dizia na época "pobretes mas alegretes". Merceeiro sem escrúpulos, com os seus auxiliares de olho vigilante espalhados pelo Reino, sempre atentos ao mínimo sinal de subversão, lá foi mantendo a paz podre que nos coube em sorte. Não chegou a ver o fim da ditadura, porque foi assassinado por uma cadeira, certamente de tendência revolucionária. Enfim, contas em ordem e corações em desordem. Assim também eu, diria a Ferreira Leite, aquela que proferiu a célebre frase: "Para reformar o Estado seria preciso suspender a democracia durante 6 meses". Com a democracia pós-25 de Abril os "merceeiros" sucederam-se durante 37 anos e enganaram-se nas contas. E, neste mundo de enganos, todos se foram enganando uns aos outros. E o Zé Povinho, com melhor aspecto do que no tempo da ditadura, julgou-se ilusoriamente no paraíso com os fundos e fundilhos da União Europeia.
Hoje os tempos já são outros. Temos democracia mas tutelada por uma Troika, um neologismo que nos foi imposto pelos sacrossantos mercados. A língua é uma realidade dinâmica, ao sabor das conjunturas.
Com este novo governo de direita e neo-liberal, a palavra de ordem é dar todo o poder ao teocrático mercado. Dizem que o novo Ministro das Finanças é jovem, universitário, tecnocrata, estrangeirado, experiente, hábil, bem relacionado com bancos e banqueiros, enfim, uma reencarnação sebástica no domínio das finanças. Eu, que nada sei do deve e haver, não tenho pretensão a contestar tão esperançosa asserção. É um técnico e um "independente": bom para os mercados, para os nossos credores, segundo dizem, não sei se para o povo também.
Grosz - Os Pilares da Sociedade (1926)
Os nossos televisivos jornalistas, um eco indisfarçado do discurso político dominante, dizem que é bom ser de tal condição - técnico e independente. Quem sou eu para duvidar! Mas, estimados politólogos, economeses, canalhólogos e tudólogos televisivos, se, para vós, o mais relevante deste governo são a economia e as finanças, não poderiam admitir, mesmo por instantes, que a economia deveria estar ao serviço do homem e não o contrário? Talvez o mais urgente, isto acrescento eu, seria mudar o "paradigma cultural" dominante, aqui, na Europa e no Mundo. Pois é, eu, que sou um zero em números, atrevo-me a dizer que a cultura é mesmo o mais importante. Mais do que a economia, as finanças e os pepinos da PAC.
Mas como o futuro próximo deste país já não nos pertence, talvez tenham razão: o importante é ter bons gestores para administrar sapientemente os nossos compromissos com a tal Troika. De outro modo, vejam a Grécia, que desgraça!
Tudo é agora uma questão de gestão, de boa gestão: com os estômagos vazios o povo estiola, mas cuidado com as congestões. Sem coração e sem cabeça, que nos resta senão esperar as bondosas benesses dos nossos credores cuja paciência, aliás, não é infinita!
E para inspiração do novo Ministro das Finanças, de quem ignoro o nome, aqui vai este fragmento poético de Armando da Silva Carvalho:

Eu sou
o mais boquiaberto
dos ministros.

Estas finanças
doem
como um calo.

Estas finanças
devem ser um galo
cantando o ouro
que urinam
as crianças.

Estas finanças
devem ser um falo
ubérrimo brasil
de esquálidas
donzelas.

P.S. No meu programa de Revolução Cultural, é óbvio que não proponho um poeta para as Finanças.

sábado, 18 de junho de 2011

Praias há muitas ou como litoralizar o Interior


No dia 10 de Junho, que já foi o "Dia da Raça" e agora é apenas de Portugal, enquanto durar, o Senhor Presidente da República, num discurso arguto e "inovador", alertou-nos para o facto trágico de os portugueses estarem todos comprimidos no litoral, como mexilhões na rocha, enquanto no Interior cresce paulatinamente o deserto. É pois urgente repovoar o interior e até regressar à agricultura. Disse isto, com a inocência própria de alguém que tendo sido primeiro-ministro durante uma década (1985-1995) nada fez para alterar tal assimetria. Ou mesmo pior, com os famosos acordos da chamada PAC muito contribuiu para a destruição da já débil agricultura portuguesa. Mas perdoemos-lhe, pois os políticos não sabem o que dizem, ou melhor, dizem apenas o que convém ao sabor das circunstâncias.
Entrámos então no reinado do betão que durou até ao presente, ou seja, à "bancarrota". Mas felizmente há, entre nós, capitalistas (perdão, empreendedores) que sabem reagir prontamente e com originalidade aos apelos dos nosso dirigentes. E então proliferaram projectos agrícolas por esses campos fora como flores silvestres na Primavera. Puro engano!
Em Mangualde, simpática urbe que dista 100km da costa atlântica, surgiu um projecto de espantar, tal como já, aliás, foi reconhecido em quase todos os países europeus com um profundo interior. Assim, inspirado em Maomé, já que os portugueses não vão para o interior, nem à voz de um Pol Pot, o célebre ditador que compulsivamente expulsou os cambojanos das cidades e os instalou no campo, algo obviamente impossível na democracia portuguesa, façamos o milagre de trazer o mar e a praia para os campos do interior. E aí temos em Mangualde a "Live Beach", em inglês,como é de bom tom, para assim atrair os turistas e fazer concorrência ao "Allgarve", pois como afirmou o sábio presidente da autarquia "o espaço marca de forma definitiva o concelho na área do turismo". "Live Beach", a praia-cenário, que, como a marca indica, será certamente mais viva e com mais vida do que as praias naturais da nossa costa atlântica. O marketing tem um poder imenso, até o de inventar a natureza, onde não faltam as palmeiras tropicais, tão próprias da costa atlântica.
A tarefa parecia à partida impossível, mas também a construção do Convento de Mafra o parecia, não fosse a vontade de D. João V (convém reler o Memorial do Convento, de Saramago). Ora o milagre da "Live It Well", um empreendorismo lusitano exemplar, converteu o sonho em pura realidade. Numa fusão retórica entre o campo e o mar, pode ler-se em letras gigantescas num cartaz à entrada da inventiva praia: "Que bem que se está na praia aqui no campo". Aí está um modo criativo de fundar um novo bucolismo à portuguesa, o que é preciso é ensinar as ovelhas a nadar para o cenário ser perfeito.
A área de 22.500m2, propriedade da autarquia e em estado de abandono (estranha-se que nunca se tenha lembrado de destinar o terreno para a prática agrícola), foi cedida gratuitamente e ocupada com 10.000m2 de areia e um espelho de água em forma de lua (não sabemos se cheia ou quarto crescente e se previram algum eclipse), com 300m2 e 1,5m de profundidade (um modo de poupar nos nadadores-salvadores), e, ao fundo, um painel de um azul intenso, com algumas nuvens para criar mais verosimilhança, a simular a linha do horizonte marítimo, isto é, um verdadeiro simulacro do infinito, embora, na verdade, esta fantasia contrastre com o horizonte real. Mas para sonhadores o que conta é o jogo da ilusão.
Há apenas um percalço para quem provincianamente tinha a expectativa de ver o mar real. De facto, esta "piscina olímpica" não tem ondas, cabe a cada um dos utentes imaginá-las. Depois este cenário de encher o olho é feito com 15.000 euros de sal, 20 kg de cloro, para inventar o mar, e 6,5 toneladas de areia para inventar a praia. Este acontecimento tem já um tal relevo na cultura portuguesa que os nossos linguistas já estão a pensar inventar um neologismo do tipo "mangualdizar", ou seja, transformar o sonho da litoralização do interior numa realidade. As palavras têm muita força e o nosso léxico ficará mais rico.
A entrada é triunfal com uma longa passadeira: um corredor vermelho, certamente inspirado na festiva entrega de prémios em Hollywood, ladeado por tendas que negoceiam bugigangas coloridas made in China. Aí sentimo-nos epicamente heróis desta odisseia, tal como Ulisses navegando para Ítaca, neste caso, um enorme palco ao fundo para concertos (o Tony Carreira será o primeiro a celebrar o evento, numa verdadeira dimensão popular).
Tudo isto aos pés da Serra de Nossa Senhora do Castelo com a sua ermida, que a Senhora nos perdoe, ou melhor, lhes perdoe! Ah! É verdade, há ainda "tasquinhas" abertas até às 4 da manhã (nos dias úteis) e às 6 da manhã aos fins-de-semana. As libações que necessariamente ritualizam esta festa da ilusão. E se espera entrar de borla neste Éden à beira-mar plantado, cuide-se, pois a entrada custa 5 euros por pessoa.
Vendedores de ilusões como estes precisam-se, já que os políticos já nem isso podem fazer, pois o barco está a afundar-se.

sábado, 4 de junho de 2011

A Violência Juvenil e a Ampliação Mediática


Paula Rego, A pequena assassina, 1987


Dois casos de violência juvenil mereceram de modo diferenciado algum relevo da imprensa e da televisão, na segunda quinzena de Maio. O primeiro, no recato de uma interioridade pouco apelativa para os meios de comunicação de massas, rapidamente perdeu pertinência enquanto mais-valia informativa. Já o segundo, pela sua ampliação mediática nas redes do facebook, foi objecto de uma reiterada exposição televisiva, com reprodução exaustiva e obsessiva das imagens captadas na dita rede social e comentários de psicólogos, sociólogos, juristas e dos tudólogos do costume.
Vamos à primeira história: na pacata cidade de Trancoso, uma adolescente de 13 anos, aluna da Escola Básica, teria sido violada sucessivamente por quatro colegas, habitantes na mesma aldeia da vítima. De calças rotas sujas de esperma, a jovem apresentou queixa dos agressores e nada mais soubemos da sequência do processo, nos planos policial e jurídico. Segundo a imprensa, a vítima teve de continuar a conviver com os seus agressores, pois a direcção da Escola não suspendeu os violadores, dado que os abusos teriam ocorrido no exterior da instituição.
Este é um evento do país real a merecer uma análise atenta, nos planos ético e sociológico, pois o mundo rural, para lá do bucolismo convencional, parece estar sujeito a um imaginário juvenil semelhante àquele que afecta os subúrbios de Lisboa ou do Porto. Neste mundo globalizado, as imagens da cobarde virilidade adolescente, de um sadismo padronizado a vitimar os mais frágeis, de uma agressividade lúdica a apelar para as pulsões mais destrutivas de cada ser, não são um monopólio do mundo urbano.
Paula Rego - Mulher-Cão (1994)
Estranha-se, por outro lado, a passividade da direcção da Escola, como se tais actos, embora exercidos num espaço extra-muros, nada tivessem a ver com os modelos e os valores educativos praticados na própria instituição, ou seja, com a eficácia pedagógica na transmissão dos valores humanistas que devem reger a educação. Mas não sejamos ingénuos, as escolas são, de facto, ilhas pedagógicas cercadas por um imaginário nuclearmente violento, muitas vezes orientado para as camadas adolescentes. Os jogos de vídeo são disso um bom exemplo e as narrativas da violência gratuita são um bom negócio. E isso não se combate apenas com a censura, mas com a transmissão lúdica de valores de solidariedade, de fraternidade, de liberdade e de generosidade, algo que é da responsabilidade de toda a sociedade, embora saibamos que o inferno se vende melhor que os simulacros de “paraíso”. Mas ao negócio negro podemos sempre opor o ócio criativo e a escola é o seu espaço privilegiado. Segundo a etimologia greco-latina “escola” significava “o ócio consagrado ao estudo”.
Quanto à segunda história, mais badalada na imprensa e na televisão, pela carga mediática em função dos factores acima enunciados, envolve quatro adolescentes, numa cena de violência espectacular, qualificação que se deve em grande parte ao facto de ser filmada por um dos participantes e exposta como tal numa rede social da internet. Duas adolescentes, sendo uma ainda menor, agridem repetidamente com toda a violência uma colega com 13 anos de uma escola dos subúrbios de Lisboa, sob os incitamentos do jovem "realizador", que sequentemente introduziu o filme no facebook.
Paula Rego - Anjo (1998)
Trata-se de uma cena exemplar, pois, para além da violência praticada, a sua publicitação duplica semanticamente o sentido do acto. O actor principal desta ficção realista é o jovem operador, pois é a sua voz de comando, como se de um encenador se tratasse, e o seu olhar que acabam por configurar o território da violência. Esta pulsão “fascista” cenografa  como uma metáfora uma vertente simultaneamente superficial e profunda desta nossa sociedade do espectáculo. O evento real cria aqui efeitos de ficção, e nesse aspecto não andaríamos longe da estrutura dos televisivos reality shows.
O jovem "cineasta", já com antecedentes criminais, viria a ser preso. Deixo, no entanto, uma sugestão. Nas horas de ócio prisionais, não seria possível inscrevê-lo numa Escola de Cinema? Ou em alternativa exportá-lo para Hollywood, tendo em conta o seu jeito para a feitura de filmes violentos? E já que falo em violência cinematográfica, deixo aqui algumas interrogações.
Tornar a violência uma narrativa ficcional será um modo possível de catarse social, ou, pelo contrário, será ainda um factor activador do desejo sádico de destruir o outro?
Sabemos que não vivemos num mundo de anjos, mas a hiperbolização  gratuita da violência ficcional, no mundo do espectáculo, não será já em si um acto de violência social?
Interrogações sem pertinência, diz-me um benévolo leitor, nesta conjuntura em que o povo andou tão distraído com o carnaval eleiçoeiro! Ao que eu ripostei: sou apenas um humilde cronista de casos do quotidiano, e essas arruadas nem a isso chegam! 

terça-feira, 31 de maio de 2011

As Metamorfoses da Mulher na Pintura (video de P. Scott Johnson)

Botticelli - O Nascimento de Vénus (pormenor)

Cada poema,
no seu perfil
incerto
e caligráfico,
já sonha
outra forma.

"Lavoisier" - Carlos de Oliveira


O rosto é o espelho da alma, diz-se na simplicidade metafórica do senso comum. A pintura soube exprimi-lo como nenhuma outra arte, de diversos modos segundo os modelos regulados pelo tempo histórico e os seus códigos específicos.
Nesta montagem de P. Scott Johnson são rostos femininos juvenis, ora na sua epidérmica espontaneidade, ora na profundidade e mistério de cada figura. O rosto é o espelho da alma, bem sabemos, por vezes transparente, outras a turvar numa nebulosa o nosso olhar.
Há também rostos a esconder num hermetismo singular o corpo da alma. Outras vezes, a alma é uma aura à superfície dos lábios, dos olhos, da pele, das maçãs do rosto.
Rostos dispersos na nossa memória cultural, sinais tatuados de traços e manchas a simularem o arquétipo da beleza feminina (Vénus), ou a interrogarem-nos na sombra do nosso desconhecimento e das nossas dúvidas (as máscaras). Esfíngicas, torturadas ou simplesmente expostas à avidez do nosso olhar.
Rostos em metamorfoses sucessivas, ingénuas, enigmáticas, sedutoras ou íntimas, com os seus artefactos (o ondulado dos longos cabelos, os lenços, os brincos ou os chapéus), sussurram-nos em ondas de prazer a fugacidade das figuras a diluirem-se numa alteridade imprevisível, como se cada rosto já sonhasse outra forma.
Neste jogo de mutações, os rostos femininos são na sua diversidade um modo de nos perdermos oniricamente nos labirintos da História da Arte, do gótico à modernidade. Ou então, de nos reencontrarmos com a essência plástica da beleza feminina, numa tensão entre a diversidade e a unidade, para lá das suas variações de pose, tempo e lugar.
Corpo habitável e transitório do nosso desejo, virtualizado pelas sucessivas narrações da mão do tempo.



Agradeço ao meu amigo José Movilha o facto de me ter dado a conhecer este video.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades


Courbet - O Sono (1866)

Numa esplanada de um café de Colares, na mesa ao meu lado estavam seis raparigas, entre os 16 e18 anos, provavelmente estudantes do Secundário. Entre elas destacava-se uma jovem de cabelo rapado à garçon  não só pelo aspecto um tanto masculinizado, mas também pelo modo quase provocatório como exibia o seu assumido lesbianismo. Para além da ousadia com que tentava beijar as suas companheiras, com o ambivalente gáudio destas que subtilmente escapavam aos seus ataques, também enunciava as suas narrativas eróticas, frontalmente  e  a bom som, sem qualquer pudor. Além de referir as suas aventuras  amorosas, com alguns pormenores íntimos, falava das suas relações com os pais. Contrariamente ao pai que teria tentado contrariar as suas tendências, já a sua mãe ter-lhe-ia confessado o prazer único retirado de uma relação ocasional com uma colega de trabalho. No jogo exuberantemente ensaiado, confessava o seu fascínio prematuro pelas parceiras do mesmo sexo, as suas conquistas e até algumas relações fortuitas com diversas jovens, gabando-se ”virilmente” dos prazeres usufruídos com tais práticas. Uma das companheiras, para evitar equívocos, chegou mesmo a informar as presentes de que tendo dormido uma noite com ela, se vira obrigada a corrê-la da cama e a pô-la a dormir no chão. Ou a  sugerir-lhe uma amiga bissexual , com a qual poderia ter todo o êxito.
No intervalo dos seus avanços não correspondidos, criticava as suas companheiras, feitas tolas pelos interditos sociais, por não serem capazes de gozar as verdadeiras delícias da sexualidade lésbica. Tudo isto se ia desenrolando em plena galhofa colectiva, como um espectáculo de que o único espectador forçado era eu.
O erotismo perdia nesta situação o seu espaço de intimidade, como se o jogo da voz e dos gestos, enquanto expressão pública da libertação dos interditos, fosse uma condição da sua própria realização.
Enquanto “voyeur” deste ritual, lembrei-me dos tempos em que a exibição verbal das glórias eróticas eram apenas privilégio masculino, mas nesta democratização sexual em curso a fala confunde-se com o falo, o acto com a sua expressão verbal. E quem não quiser ouvir por preconceito ou recato puritano pode sempre fixar os olhos e os ouvidos,  em pleno cenário bucólico, nas águas e nos patos da ribeira de Colares.
Mas não sejamos hipócritas, sempre houve um ambivalente fascínio masculino pelos amores lésbicos. Os corpos na dança dos desejos como os anjos não têm sexo.  Esta cena insólita, no entanto, estava mais perto de uma farsa adolescente do que de uma configuração estética do erotismo. Mas cada um/uma tem o direito de brincar ao amor como sabe e pode. As vontades mudaram as modalidades do desejo sexual e a palavra poderá voar lúbrica e liberta no trânsito entre o privado e o público. A cada um/uma cabe saber os limites da transgressão do recato.




Lempicka - As Raparigas (1928)



   

terça-feira, 17 de maio de 2011

Do Declínio à Reinvenção de uma Nova Ruralidade (4)


Célia Pena Alves - Festa da terra
 O regresso ao campo pode ser, por enquanto, uma aventura de minorias, como mostra o excelente documentário televisivo (2009) com tal título, de Paulo Silva Costa. Mas até as novas tecnologias podem hoje possibilitar que certas actividades, através do teletrabalho, se possam exercer no distante mundo rural, mantendo-se o vínculo com uma empresa sediada na capital.
Gostaria de evocar, como arquétipo de fuga ao mundo urbano, o historiador Alexandre Herculano que, cansado das intrigas políticas da capital onde sempre viveu, se refugiou em Vale de Lobos, em 1867, e aí passou a produzir um excelente azeite. É um modelo para todos aqueles que, cansados da vida citadina, procuram reencontrar-se em sintonia com os ritmos da natureza. A renovação do mundo rural passa pelos jeitos, gostos e sonhos de cada um, dos que ficaram, dos que regressaram e dos que o experimentam pela primeira vez.
Talvez o meu despretencioso comentário seja idílico ou nada acrescente de novo, mas confesso, enquanto lisboeta, criado no burburinho das Avenidas Novas, que o que de mais belo ficou no imaginário da minha infância se deve às longas férias de Verão em casa do meu avô João Pena, em Vila Franca das Naves, onde me podia libertar da prisão do meu andar da Duque d´Ávila e, em correrias tontas, sentir o rumor da terra ou a vermelhidão do céu crepuscular ou os odores inesquecíveis da aldeia dos meus antepassados.
Célia Pena Alves - Queimada
Vamos todos fazer um esforço para reerguer Portugal e, sobretudo, não deixemos que se repitam casos como o da linha do Tua, deixada progressivamente ao abandono e em breve alagada pela futura barragem que produzirá apenas mais 0,07 da energia eléctrica que consumimos. Para além do desrespeito pelas populações do Nordeste transmontano, que bela e lucrativa rede ferroviária se perdeu, bastava apenas melhorá-la e promovê-la turisticamente, como se faria em qualquer país da Europa, preocupado com conservação do seu património histórico, que é também um pólo de atracção turística.
Num outro plano, calcula-se que existam mais de 2 milhões de hectares de terras abandonadas com aptidão agrícola, com situações aberrantes apoiadas pelo poder municipal, tal é o caso da zona rural do concelho de Sintra, onde a Media Capital vai construir uma hollywoodesca Cidade da Imagem, numa área de 200 hectares inseridos na Reserva Ecológica e Agrícola. Nada me move contra esta megalómena cidade do cinema e das telenovelas, mas não haveria outro local para a implantar?
Há outros maus exemplos de reactivação do mundo provinciano, tal é o caso da dita praia marítima de Mangualde, como se o Interior não tivesse valores próprios e tivesse necessidade para se promover de macaquear o litoral. Também em Ferreira do Alentejo, na Quinta de S. Vicente, um olival premiado internacionalmente por produzir o melhor azeite do mundo, será cortado ao meio pela A26 (Sines-Beja), indo perder 6000 oliveiras. Note-se, aliás, como é possível que, num país que precisa urgentemente de exportar, tal traçado rodoviário venha prejudicar uma empresa que vende 90% da sua produção ao estrangeiro.
Célia Pena Alves - Memórias
 Há, por outro lado, iniciativas exemplares, seja de pequena ou média dimensão, de norte a sul do país. Citemos apenas algumas: na aldeia de João Bragal de Baixo, a Manuela e o Eugénio, ambos licenciados, deixaram o Porto, onde trabalhavam, e abriram as Casas do Bragal, um excelente restaurante com cozinha regional criativa. Este projecto que durou uma década, infelizmente, não correspondeu totalmente às expectativas do casal e entretanto foi abandonado. Em Sara Mora (Miranda do Douro), um pequeno grupo de veterinários revitalizou a criação de burros à beira da extinção em Miranda, e com isso deram nova vida à aldeia que no último ano recebeu milhares de visitantes. Um artesão de Dominguiso (Fundão), depois de uma experiência lisboeta frustrada, regressou à aldeia, onde desenvolve um trabalho de restauro e fabrico de móveis em castanho (velho e novo), sendo ao mesmo tempo um santeiro de qualidade. Em Foz Côa, o museu recebeu no último ano cerca de 30.000 visitantes, confirmando as expectativas em torno do valor patrimonial das gravuras rupestres. Mértola renasceu com a actividade museológica, onde se cruzam diversos objectos e espaços civilizacionais, e é bom lembrar que o seu impulsionador foi um beirão chamado Cláudio Torres.
 Em S. Teotónio (Alentejo), um produtor francês implantou o maior bambuzal da Europa, exportando para todo o mundo. Em Idanha-a-Nova, na busca de novas centralidades, desenvolvem-se projectos de ecoturismo, de agricultura biológica, de pecuária e lacticínios, com a colaboração de instituições do Ensino Superior. No Alto Alentejo, a Fertiprado, única empresa da Península especializada em prados e sementes, com a cultura de pastagens biodiversas, ganhou o prémio BES Biodiversidade.
Célia Pena Alves - Sobrevivente
Conforme defende, aliás, Gonçalo Ribeiro Telles, não há plano de desenvolvimento sustentável sem a agricultura, pelo que querer reduzir os activos agrícolas a 3%, é simultaneamente um erro económico e paisagístico. A paisagem é também uma construção humana, por isso não deve haver uma fronteira rígida entre o mundo rural e o urbano. O turismo no mundo rural será uma componente importante da renovação do Interior, mas sem um novo ordenamento florestal que coabite com a polivalência das actividades agrícolas e a pastorícia não há paisagem mas terra queimada, algo pouco motivador para turistas.
Mesmo nas áreas urbanas, há também indícios de mudança de mentalidade relativamente às actividades agrícolas, sejam as hortas sociais urbanas, sejam as experiências das hortas pedagógicas. São sintomas da necessidade de uma nova relação de amor com a terra. Em tempo de crise, como a actual, começa a ser consensual, embora tardiamente, entre as nossas elites políticas, a necessidade urgente de revitalizar as actividades agrícolas. Para além do paradigma económico-político, urge mudar o paradigma cultural dominante.
Como Almeida Garrett afirmaria significativamente, “Quanto mais nacional, mais estreme e puramente nacional é uma obra, mais agrada aos próprios estrangeiros, mais segura está de se generalizar e ser conhecida […]. O que não tem cor nacional, o que pode ser para todos, é o de que todos fazem menos caso” (Romanceiro, 1843-51).
Um mundo globalizado pode paradoxalmente conviver com a riqueza específica de cada região e a perda da diversidade cultural tornará certamente o mundo mais pobre. E ter uma terra, ter um chão, é ter uma identidade. E em contraste com o ruído da grande cidade, saibamos apreciar a beleza do silêncio.


Célia Pena Alves - Simbolismo


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Do Declínio à Reinvenção de uma Nova Ruralidade (3)

Estátua de Bandarra, em Trancoso
Em regiões como Trancoso, sobretudo na chamada zona quente (compreendendo uma franja meridional que se estende entre Aldeia Nova e Maçal da Ribeira, e outra, a nascente, entre esta última localidade e Cogula-Cótimos), há que reactivar a cultura do olival, da vinha, da fruticultura, da horticultura e reflorestar com sobreiros, medronheiros e eventualmente com pinheiro-manso (para a produção de pinhão). Enquanto, na zona fria, que abrange a restante área municipal, poder-se-ia continuar a investir nos soutos, na pecuária em manadio extensivo e na florestação com folhosas como o carvalho-negral e o carvalho-roble (ou carvalho-alvarinho). Ainda do ponto de vista florestal, o concelho podia, a médio-longo prazo, especializar-se na produção de madeiras nobres (carvalho, etc.), de cortiça e na produção de desperdícios lenhosos para as centrais de biomassa. Que me perdoem os especialistas estas sugestões de um diletante na matéria em causa!
É de ressalvar também a importância da promoção da actividade cinegética, no quadro de um turismo da natureza. Neste âmbito, seria também pertinente a definição de roteiros pedestres na área rural do concelho, atraindo turistas que optam pelo prazer de percorrer os campos, através do contacto físico com a terra e a sua fauna e flora – os chamados caminheiros, também associados ao turismo sénior.
Solar dos Brasis - Torre do Terrenho, Trancoso (séc. XVIII) 
 No que diz respeito ao turismo cultural, Trancoso com o seu imponente castelo e muralhas medievais, urbe da tradicional ”raia seca”, respira História em cada uma das suas pedras. É terra de míticos heróis como o Magriço evocado por Camões, de um sapateiro-profeta, Bandarra de seu nome, que é simultaneamente matriz premonitória do sebastianismo e do Vº Império do Padre António Vieira, e está associada a essa figura miraculosa da Rainha Santa Isabel que tinha a inspiração divina de transformar as rosas em pão. Desde a Reconquista, passando pela guerra da sucessão com Castela (1383-85) ou pelas vivências atormentadas dos judeus perseguidos pela Santa Inquisição que deixaram nas suas judiarias sinais crípticos da sua presença, até às invasões francesas, quantos roteiros históricos se podem escrever como modo também de revelar a alma da urbe. Neste aspecto, é de relevar a investigação da historiadora Carla Santos no domínio da identificação do património judaico de Trancoso ou a elaboração de um roteiro das marcas judaicas na cidade e a criação de um Centro de Interpretação da Cultura Judaica, promovidos pelo município. É de evocar também, no âmbito cultural, o escritor Gonçalo Fernandes Trancoso (séc. XVI), o primeiro contista português, no cruzamento dos novelistas italianos e da nossa tradição oral, hoje bastante esquecido, sendo por isso pertinente organizar colóquios sobre a sua figura e obra.
E haverá ainda verbas municipais para recuperar algumas casas típicas beirãs das aldeias em redor, com as suas varandas em madeira, como as representadas em alguns quadros da Célia? E quanto ao turismo termal, não poderia a Câmara de Celorico dinamizar a reactivação da estância termal de Santo António de águas sulfúrico-sódicas, por exemplo em colaboração com a Universidade da Beira-Interior? Ou ainda, no âmbito da Escola Profissional de Trancoso, não se poderiam criar cursos mais orientados para o estudo do património da cidade, do turismo cultural e de natureza ou das actividades agrárias?
Célia Pena Alves - Indecisa
Tem, pois, Trancoso virtualidades que podem activar um turismo cultural, associado ao seu património monumental e natural – um verdadeiro lugar de reflexão e contemplação. Aqui “temos tempo” – para usar a expressão que intitula o atelier da escultora e pintora Maria Lino, no Feital, uma filha da terra que, depois da sua longa aventura urbana, regressou à aldeia natal, onde mantém a sua actividade criativa individual e em colaboração com outros animadores fundou a Luzlinar – nome de poema que lhe foi dedicado pelo poeta Alexandre O´Neill. Esta Associação é um bom exemplo, no plano cultural, da capacidade de ao mesmo tempo fixar e dar a conhecer antigas tradições locais e polarizar com Simpósios Internacionais uma interacção entre a acção estética visual e o espírito do lugar, bem expresso nestas palavras de Sant´Anna Dionísio, no Guia de Portugal: “A meia distância, vista de qualquer lado, Trancoso surge como uma verdadeira e imprevista praça de armas da Idade Média que tivesse sido deixada num descampado, por esquecimento do tempo. Quem se dispuser a procurar com vagar os perfis dos seus muros e a respirar a sua estranha atmosfera planáltica, bem preencherá um dia”.
Teja - Trancoso
 A contemplação é o olhar sobre o outro sem o sentimento da posse. É uma quase fusão mística entre o sujeito e a paisagem.
Num mundo globalizado, cada vez mais uniformizado, é muito importante relevar o que de mais original cada região pode conter. E Portugal, apesar da pequenez do seu território, possui uma diversidade regional notável, tanto no plano paisagístico como nos gestos da tradição. Com vontade e imaginação, é possível dinamizar um turismo vocacionado para as magníficas paisagens do Interior com a sua fauna e flora específicas, para o seu património monumental e sua História, para as suas tradições gastronómicas e artesanais ou para o seu genuíno folclore.
Houve obviamente factores que, no plano do imaginário colectivo, têm contribuído para uma diluição dessa diversidade, tal o caso da televisão que, durante décadas, vem difundido um paradigma urbano de moral e de modos de vida, dando do mundo rural ora uma imagem miserabilista ora grotesca. Algo que felizmente vem lentamente mudando, com a relativa reabilitação do mundo rural, sobretudo em função de alguns documentários que narram a opção de urbanos que procuram no refúgio da natureza um novo modo de vida. Também as telenovelas de grande consumo popular, de um modo geral, contribuíram para a disseminação de hábitos urbanos, um ethos facilmente universalizável, mas implicando normalmente uma distorção das realidades urbana e rural. Caricaturalmente, na novela Laços de Sangue, actualmente em exibição, uma jovem rural alentejana escapa para Lisboa, em busca do mundo povoado de Centros Comerciais e pretende mesmo libertar-se do seu sotaque alentejano. Mas a contra-corrente desta tendência, segundo noticiam as revistas da especialidade, uma conhecida actriz de novelas decidiu deixar a agitação da capital e instalar-se em Nelas com a família, onde admite vir a criar uma escola de teatro para crianças. São obviamente sinais ténues de uma mudança de atitude relativamente à rejeição do chamado Interior.
É portanto urgente requalificar esse património, não deixar morrer as nossas aldeias quase desertificadas e relativamente àquelas que estão em ruínas reconstruí-las para o turismo rural ou outras finalidades, envolvendo, por exemplo, actividades no domínio da agricultura biológica ou do agroturismo. (cont.)


Célia Pena Alves - Vindima


sábado, 14 de maio de 2011

Do Declínio à Reinvenção de uma Nova Ruralidade (2)

Célia Pena Alves - Mulher curvada
A partir da segunda metade do século passado, o mundo rural foi-se desertificando, com a migração das populações rurais do interior para a zona litoral do país ou para o estrangeiro, em busca de melhores condições de vida, já que a terra em vez de mãe fora-se tornando madrasta. Com a migração camponesa e o abandono da pastorícia vieram os fogos florestais, resultado da ausência de ordenamento da floresta e da opção pelas manchas de resinosas e eucaliptos em zonas quentes, matéria-prima das fábricas de celulose, eliminando-se a biodiversidade ou a prevenção que pressupõe a limpeza regular das matas e a abertura de corta-fogos.
Calcula-se que hoje dois terços da população portuguesa viva na faixa litoral, entre Viana do Castelo e Setúbal, sendo as Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto aquelas que atraem a maioria da população migrante, uma tendência que apenas é nova no plano da quantificação, já que a macrocefalia portuguesa é fenómeno com séculos. Lisboa tem sido ao longo da nossa História, sobretudo a partir do séc. XVI, o centro político, administrativo e económico do país. Faltam-nos cidades intermédias com determinada dimensão económico-social, embora a instalação de pólos universitários ou politécnicos em capitais de distrito tenha sido aí um factor de dinamização cultural. Por outro lado, entre 1960 e 1974, calcula-se que teriam emigrado, sobretudo para a Europa, um milhão e meio de portugueses, na sua grande maioria dos meios rurais, o que também contribuiu para uma profunda alteração estrutural do Interior e da sua paisagem, com o abandono da agricultura, sobretudo a familiar, e a progressiva degradação arquitectónica das nossas aldeias. Os emigrantes da primeira geração quando regressavam à sua terra natal tendiam, como forma de ruptura com o passado, a construir inóspitos casarões sem qualquer relação com a tradição, algo que se foi alterando com a segunda e terceira gerações que, com uma nova mentalidade, começaram já, em algumas regiões, a reconstruir as velhas casas familiares seguindo a traça tradicional. Mas, em muitos casos, a degradação foi irreversível, pois muitos emigrantes da primeira geração acabaram por se fixar definitivamente no estrangeiro, e por aí ficaram essas monstruosidades em betão em processo acelerado de decomposição. O concelho de Trancoso, por exemplo, em 1960, tinha 18.224 habitantes, enquanto, em 2004, este número descera para 10.639. Notando-se, por outro lado, um envelhecimento progressivo da população e a manutenção de índices de analfabetismo elevados. Em 2001, a sua taxa era de 17.9. Quanto ao número de desempregados seria, no mesmo ano, de 213.
Célia Pena Alves - À esquina
A oposição Litoral/Interior foi-se, pois, acentuando até aos nossos dias, apesar das novas rodovias que viriam aparentemente facilitar as acessibilidades entre as duas polaridades geográficas. Porém, “A orientação actual das auto-estradas e das principais vias de comunicação, polarizada pelas maiores cidades, e sobretudo por Lisboa, só vem agravar as dificuldades de estruturação à escala da província. Para quem tenha de utilizar os transportes públicos e não possa percorrer as vias transversais de automóvel, é geralmente mais difícil comunicar entre regiões relativamente próximas do que chegar a Lisboa.” (Portugal – O Sabor da Terra, de José Mattoso, Suzanne Daveau e Duarte Belo - p. 339). Esta aposta num planeamento rodoviário que desprezou o melhoramento das estradas secundárias, e o pouco investimento nas linhas de caminho de ferro ou o abandono de outras foram factores que em nada beneficiaram o Interior, enquanto se promovia a construção de duas auto-estradas paralelas entre Lisboa e o Porto.
 O envelhecimento demográfico, as alterações nas práticas agrícolas decorrentes de novos modos de produção após a nossa entrada na actual União Europeia, com negociações que prejudicaram substancialmente a nossa pequena e média agricultura, vieram acentuar os fenómenos de desertificação do Interior, devendo-se ter ainda em linha de conta o fecho recente de escolas, de transportes públicos, de postos de correio, de serviços de saúde etc., numa galopante centralização, justificado, no entanto, por razões operatórias e economicistas.
O Eldorado urbano, há décadas, um mercado de trabalho apetecível, tornar-se-ia um lugar de eleição para todos aqueles que no mundo rural não tinham grandes horizontes de expectativa. Os subúrbios de Lisboa e do Porto cresceram então caoticamente, sem qualquer critério de ordenamento do território. A qualidade de vida nos grandes meios urbanos foi-se deteriorando nas últimas décadas, acentuando-se o stress quotidiano em caóticos engarrafamentos entre a habitação e o local de trabalho, com transportes públicos deficientes, obrigando à irracional utilização do automóvel A poluição, a quase ausência de espaços verdes convenientemente tratados, a insegurança nas ruas, o caos urbanístico, as horas diárias perdidas entre a morada e o trabalho, tornaram a vida nos subúrbios de Lisboa um autêntico inferno quotidiano. Entretanto o centro de Lisboa foi-se desertificando, pois a cidade foi perdendo habitantes a favor dos subúrbios, onde as casas eram muito mais baratas. As vantagens de viver numa metrópole, por exemplo nos planos hospitalar, da oportunidade de emprego ou da oferta cultural, entre outros, convivem, portanto, com uma existência quotidiana com pouco tempo para cada um usufruir a vida com plenitude. Aliás, os casos de solidão de idosos tornaram-se um verdadeiro problema social, mais grave do que no mundo rural, já que os idosos no campo estão mais inseridos na comunidade, onde ainda funciona a sociedade-providência com a inter-ajuda entre vizinhos, são mais activos e autónomos e não sofrem do medo inerente à insegurança das ruas dos subúrbios citadinos.
Célia Pena Alves - No adro, todos os dias
Muitos dos que abandonaram as suas terras de origem regressariam certamente, caso houvesse oportunidades no plano empresarial. Talvez a actual crise económico-social possa contribuir para uma progressiva alteração da tendência migratória para as metrópoles, desde que se criem modos de vida alternativos no mundo rural, o que pressupõe uma alteração do paradigma cultural, implicando sobretudo a reabilitação económico-social da actividade agrícola e a dinamização do turismo de natureza. Os 700.000 desempregados, localizados sobretudo nas grandes urbes, ou mantêm um ciclo emigratório para o estrangeiro, embora as condições actuais sejam adversas devido à crise internacional, ou terão de repensar o seu modo de inserção no tecido económico-social. Alguns certamente poderiam regressar às suas terras de origem, desde que aí encontrassem trabalho, seja em actividades tradicionais, entretanto desprezadas como a agricultura, seja no aproveitamento das potencialidades paisagísticas (naturais ou monumentais), gastronómicas ou artesanais das suas zonas de origem. O mundo rural pode ser uma alternativa em tempos de crise para desempregados e pensionistas com reformas reduzidas, como já está a acontecer na Grécia. Entre nós, poderia, portanto, também ser uma solução viável para todos aqueles que, sem actuais perspectivas de emprego ou simplesmente fatigados com o desgaste da vida citadina, aí encontrassem um novo rumo para as suas existências.
No que concerne à agricultura, sector que urge revitalizar em novos moldes, é, com imaginação e uma adequada articulação entre as culturas e a morfologia dos solos ou as condições climatéricas, uma área económica que pode ressurgir e interessar muitos dos nossos actuais desempregados, sobretudo nos domínios da fruticultura e da horticultura. O país não pode continuar a importar mais de dois terços dos produtos alimentares que consome. Há, por exemplo, que investir também na agricultura biológica ou em áreas específicas como a produção de ervas aromáticas condimentares e nas plantas silvestres alimentares ou medicinais ou mesmo na produção de plantas decorativas. (cont.)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Do Declínio à Reinvenção de uma Nova Ruralidade (1)

Com Travo a Mosto

A análise das telas da exposição "Liturgia da Terra", de Célia Pena Alves, inaugurada em Trancoso no passado dia 8 de Maio, suscitou-me uma reflexão sobre os fenómenos do envelhecimento demográfico e da desertificação do Interior, e os novos modos de regresso à terra, enquanto possíveis factores de revitalização do mundo rural. A extensão do texto obrigou-me a dividi-lo em várias sequências que serão publicadas posteriormente.


Nas telas de Célia Alves sobressai simultaneamente um olhar crepuscular e nostálgico sobre o mundo rural tradicional, onde a comunhão dos camponeses com a terra tem uma dimensão sacral. São gestos que participam de uma memória colectiva comunitária, como que a transcender o tempo histórico. Cada figura, sobretudo as femininas, velhas camponesas, frequentemente de rosto oculto, é o paradigma de uma relação maternal com a terra, a evocar as divindades femininas telúricas, como as dos gregos primitivos: Deméter, Geia ou Reia. São os arquétipos da terra-mãe, da natureza com os seus ciclos e da terra cultivada e fecunda a perdurarem no inconsciente colectivo da humanidade.
Bago a Bago
Os seus quadros não são um mero acto contemplativo e narcísico, mas uma perspectiva que assinala ao mesmo tempo o reconhecimento grato desse outro social, o que pressupõe vivências autobiográficas desse mundo campestre, e um acto de ternura por esses seres cuja vida é sobretudo ritmada pelos ciclos da natureza e os das sementeiras e colheitas. Para lá da comunidade onde se inserem, o seu diálogo silencioso é com a terra, interlocutor incessante das suas vidas até à morte.
O pendor mais simbólico do que realista da sua pintura, sejam os povoadores ou a sua paisagem, confere uma perenidade a estas imagens que faz delas uma liturgia telúrica não totalmente redutível a uma mera mundividência sociológica. Há como que um residual incólume ao trabalho do tempo socio-histórico, por isso são figuras de uma sacralidade telúrica a ritualizar a união gestual do camponês com a terra.
Mas, apesar disso, a sua pintura é também susceptível de uma leitura sociológica, no plano da desertificação do Interior. (cont.)

Arte no Cabelo