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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Os corpos usados e o declínio da sociedade-providência

Goya - Mulher velha

Desde o início do ano foram encontrados 12 mortos nas casas da solidão. Mortes sem sobressaltos, sem direito a notas de ternura de amigos e familiares ou a duas linhas efémeras nas páginas de um qualquer jornal. Mortos no anonimato de quem há muito não tinha nome, nem desejos, nem desilusões, porque mortos em vida. Velhos em ruptura com quaisquer elos sociais, de facto existiam como se não existissem. Condenados a um autismo sem culpa formada, apenas o rumor longínquo de um vago monossílabo recordado pelo comerciante da esquina ou um vizinho ficara deles nas rugas da memória. Claro que morrer é sempre um exercício de solidão, mas estes morreram para os outros como se nunca tivessem existido. Literalmente apagados do mundo dos vivos, ténues manchas diluídas nas páginas do livro da vida. Apenas os seus corpos putrefactos ou mumificados, tudo depende do tempo da macabra descoberta, são a mais-valia noticiosa. E tudo isto está a acontecer tanto no árido espaço suburbano, como no rural, onde as aldeias cada vez mais desertificadas já não têm o vizinho providencial num processo de interajuda. A sociedade-providência está a declinar e o Estado-Providência rudimentar e cada vez mais fragilizado não tem asas para o substituir. A ruptura geracional e a débil sociabilidade lusa, agravada pela crise económico-social, estão, por outro lado, na raiz do problema. Neste mundo de afectos ausentes e de mercantilização dos seres, a esperança média de vida aumentou substancialmente, graças ao progresso da medicina e ao ainda que debilitado Serviço Nacional de Saúde. Mas a dignidade do envelhecer não a acompanhou!


Célia Pena - No seu canto


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Do Reino da Estupidez ao Reino do Vazio


Jean-François Millet - Les Glaneuses (1857)

 “Portugal só conseguirá sair da actual crise empobrecendo”, disse sagazmente o nosso Primeiro-Ministro Passos Coelho há cerca de duas semanas. E o nosso Secretário de Estado para a Juventude, do qual não me lembro o nome, tendo como destinatário os desempregados jovens, afirmaria, uma semana depois, ainda mais sagazmente, que a solução estaria na emigração: “Os jovens desempregados saiam da sua zona de conforto [isto é, o desemprego confortável] e tentem uma vida melhor no estrangeiro”. Reentrámos no Reino da Estupidez ou do Absurdo?
Quanto à primeira frase, liberta-se dela um odor antigo do tempo dos “pobretes” mas “alegretes”. Ou será, na ambiguidade da mensagem, empobrecer os ricos já que empobrecer os pobres, além de pleonasmo de mau gosto, não tem qualquer sentido? A crise, essa hidra malfadada, aí está para legitimar a fome; o desemprego; a corrupção; o fosso cada vez maior entre ricos e pobres; uma “Justiça” que não funciona, a não ser para os abastados e famosos que são os únicos a poder pagar os admiráveis advogados, sábios no modo como conhecem de apelo em apelo maneira de os processos ou as penas prescreverem; as remunerações chorudas e intocáveis dos gestores das empresas públicas na falência ou a incapacidade de reformar o aparelho de Estado, colocando-o de facto ao serviço dos cidadãos. Mas para nosso consolo aí temos complementarmente a mensagem salvífica do dito Secretário: rumem em direcção ao estrangeiro, a pátria é mais uma vez não a mátria mas a madrasta. Os portugueses jovens e menos jovens sabem, no entanto, pela voz da memória colectiva, a tradição da diáspora lusa ao longo dos séculos, como terapêutica do colectivo mal-estar, por isso não necessitavam de tão sábio conselho do tal Secretário da Juventude
Pollaiolo - Hércules e a Hidra (1460)
Então jovens e menos jovens do nosso país preparem a sacola, com os parcos haveres, e ala para a estranja que se faz tarde, que a crise não se come. Para os mais carenciados, há viagens económicas na “jangada de pedra” do Saramago, embora o destino desta seja incerto. E, como cidadão amadurecido pelas intempéries da pátria, aconselho humildemente o nosso Secretário da Emigração, perdão da Juventude, a liderar heroicamente as massas em movimento. Aliás, com a juventude na estranja, o seu destino seria também o inevitável desemprego, a não ser que o nosso primeiro transformasse a dita Secretaria da Juventude em Secretaria dos Anciãos. E rapazes apressem-se, pois a concorrência dos magrebinos ou de outros desesperados é enorme e jangadas não faltam neste mundo. E, além disso, não se esqueçam que de supetão Espanha, Itália, França, enfim, a Europa, ou mesmo o Mundo, podem também entrar em crise. Então o naufrágio seria universal e na Arca de Noé, como é do senso comum, só teriam lugar os habituais privilegiados passageiros de eleição.
Assim,  pelo menos conjunturalmente, o nosso, salvo seja, pobre Passos Coelho poderia transformar a bem da pátria, depois de aprovação do Tribunal Constitucional, este Reino da Estupidez no Reino dos Anciãos, pois estes, embora acossados pela fome, com as suas maleitas e reumáticos, não fazem greves nem manifestações, e além disso já não contarão muitos anos de vida. Assim despovoado o Reino, já não ao cheiro da canela mas da crise, o nosso governo e comparsas apenas terão de gerir o ambíguo Reino do Vazio.
Num imponente cavalo branco, à frente do seu séquito, o nosso Primeiro irá então correr o Reino, em busca dos resultados da sua arguta estratégia. Mas um enigmático nevoeiro cerrado a cobrir o território cega então o olhar do nosso preclaro e último governante. Indeciso entre a provável cegueira e os efeitos da neblina, não avista vivalma. Dirá então: “Estão tão pobres que já nem se vêem!”. Todavia ao longe consegue avistar, com o auxílio de lentes triplas, um navio fantasma a afastar-se da costa. A bordo leva para sempre o mostrengo da Crise, um misto de cágado, hidra e elefante, pelo me nos na visão delirante do nosso líder.
 “Vencemos!”, dirá então. Mas como é próprio das histórias de proveito e exemplo, reza a lenda que, enlouquecido com o vácuo criado à sua volta, se transformaria em pedra e ficaria cego Infante a simular eternamente o olhar sobre o infinito.  
  


Géricault - A Jangada de Medusa (1819)


 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Indignados



Jan van Eyck,, "A Adoração do Cordeiro Místico (painel central retábulo de Gent)", 1432 




Hoje acordei com o corpo vazio. Talvez a falta do Verão que não tive, ocupado a escrever um livro. Esqueci-me do calor meridional, envolto nas neblinas persistentes da minha aldeia numa colina a ver-o-mar. O calor veio tarde, outoniço a saber a Verão – a desordem das estações ou a nova ordem das estações. Tanto faz!
Na Líbia, mataram o tirano, em jeitos perversos; as imagens dizem tudo. Os seus ex-amigos do Ocidente agradecem, não fosse ele dar com a língua nos dentes e fazer algum sangue a espirrar-lhes o rosto de petróleo. Na Europa, políticos sem jeito não sabem como degolar o cordeiro na Acrópole. Afiam-se as facas dos senhores do mercado. Jovens por todo o ocidente instalam-se nas praças, outros menos jovens também manifestam a sua ira. Mas todos parecem estar sem rumo. Os velhos partidos de esquerda perderam a capacidade de aglutinação. O corpo colectivo em movimento sabe o que não quer, não o que quer. Eu também estou indignado. Com o Verão que não tive, com os meus governantes que aumentam o orçamento das forças de segurança, mas reduzem substancialmente o da saúde ou o da educação ou o da cultura, e sobem delirantemente os impostos. Em nome da sagrada austeridade, do equilíbrio financeiro, do pacto com a troika, lá vamos todos no engodo. Daqui a dois anos, depois desta caça inglória ao já depauperado ”tesoiro popular”, estaremos nas vascas como os helenos.
Mas, para gáudio dos descrentes, a animar a soturna festa, os polícias e os militares também estão indignados com o “bando de incompetentes que nos desgovernam”. Estes e os anteriores que contrariamente, o ciclo era outro, acicatavam os apetites consumistas do povo ou se deslumbravam com os infinitos quilómetros de auto-estradas, algumas apenas percorridas por fantasmas ou pedras rolantes. Assim se retalhou a paisagem e se acelerou o despovoamento do dito interior. Ficaram apenas alguns resistentes sem ferrovias ou transportes alternativos. São velhos, pouco consomem, pouco votam. A ordem era para consumir, numa promíscua relação entre o público e o privado. Vieram as P.P.P., as parcerias público-privadas com contratos leoninos a favor dos empresários que construíram hospitais e auto-estradas a perder de vista. Funcionários ora no governo, ora na administração das empresas de construção ou do negócio da saúde. Foi, é, um fartar vilanagem. O povo é sereno, até ver.

Pieter Bruegel - A Torre de Babel (1564)
Os nossos académicos e neo-liberais  governantes estão agora entre a espada e a parede. Ou dobram o orçamento do aparelho militar e policial, engordando perversamente o Estado, embora haja obviamente gorduras boas e outras não, tudo depende do ponto de vista, ou então arriscam-se a ter passivas forças ante o ímpeto dos famigerados “enragés”. O caos à espreita em cada esquina, a não ser que um messiânico ditador, embora em vestes “democráticas” ou “neo-liberais”, venha impor a velha/nova ordem. Os ventos da História estão, porém, como as estações, indefinidos e im previsíveis. Mais do que de uma nova política, precisamos urgentemente dum novo paradigma cultural, a nível global. Economia ao serviço da humanidade: comida para todos sabiamente repartida; comer menos mas melhor, a bem do equilíbrio dos corpos. Conceder a todos os povos os meios de produção capazes de garantir a sua sobrevivência. Crescer economicamente de acordo com as asas do desejo dos povos e a respiração da terra. Interditar a acção dos secadores de sonhos. Democratizar os saberes para que a humanidade não se deixe engodar com as palavras gordas das mafias do capitalismo internacional. Criar uma nova ordem internacional fundada em valores de solidariedade e não na voracidade infinita dos especuladores financeiros. Em nome da saúde dos povos e do planeta!
Nada de novo, pensará acertadamente o meu leitor mais atento. Mas, como diria o poeta e pintor Almada Negreiros, “Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade.”

Isto digo também eu, que acordei com o corpo vazio mas indignado. A ver o mar!




"Convergências",  Praia Grande, 2011


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Os Desconcertos do Mundo


Marcelino Vespeira, "Apertado pela fome", 1945






Na Somália morrem cinquenta crianças por dia por causa da fome – a região do chamado Corno de África, onde este país se insere, atravessa um dos períodos  de seca mais catastrófico das últimas décadas. Além disso, uma guerra absurda, como se todas as guerras não o fossem, de 20 anos agrava a tragédia. A miséria, aliás, agudiza as tensões tribais num Estado frágil, porque imaginado em função das estratégias das ex-potências coloniais, em 1969.
Na televisão ou na internet, imagens de corpos de crianças semi-cadaverizadas incomodam-nos, mas já estamos todos de tal modo vacinados com a inflação de imagens da tragédia africana, diariamente consumidas, que o horror se banaliza. Olhamos, fazemos uma careta e vamos à vidinha. A nossa memória é selectiva para o bem e para o mal, e aquelas figuras de mortos-vivos depressa caem no nosso rio de Letes. Neste  Ocidente cristão nem sempre bem comportado – muito gostamos de carregar no gatilho – preocupamo-nos mais com o atropelamento do gato da vizinha (chama-se a isto ter o coração a olhar para a nossa esquina) do que com as tragédias longínquas, sobretudo dessas  que acontecem a negros lá no Corno de África (com tal designação toponímica não era de esperar outra coisa, dirão mesmo num sussurro os mais preconceituosos em questões de raças). Mas podia ser o Corno da Abundância, caso o mundo não fosse tão iníquo, dirão os mais sensatos. Pois é! Com tanta tecnologia e tanta preocupação encenada com o mal-estar dos outros, como é possível que meio milhão de crianças estejam à beira de morrer por falta de alimentos, quando no Ocidente cristão se morre de obesidade pelo excesso de alimentos consumidos? Seria bom então que, em benefício de uns e de outros, a gula ocidental fosse controlada e o excedente fosse enviado para os países da geografia da fome. Ocidentais mais saudáveis e elegantes e negrinhos com a fome saciada lá no tal Corno de África. Como ele é ingénuo, pensará o meu benévolo leitor. E quem pagaria os tais excedentes? Os ocidentais obesos pagam os excessos consumistas com pilim bem sonante, nem que para isso tenham de se endividar. O último a fechar a porta que pague a conta, mas os negrinhos...
E uma taxa mínima, qualquer coisa como 0,00001% sobre juros e dividendos, não seria uma solução? Tudo se resume a uma questão de boa vontade cristã. E os ricos estão cada vez mais ricos.  Aliás a obesidade capitalista também pode ser um factor de doença. Veja-se o ar angustiado dos nossos ricos! A angústia sempre foi uma luxuosa maleita dos de barriga-cheia. Doença? Essa é boa, sobretudo para os outros, os pobres que estão cada vez mais pobres! - dirá um leitor com pulsão socialista. Doença ou inveja?  - dirá, por sua vez, um leitor malévolo e reaccionário. Assim ninguém se entende, diria eu.
E depois há os paraísos fiscais e o Tea Party que se entorna logo que ouve falar em taxar as grandes fortunas. Isso é lá nos "States", quanto aos paraísos fiscais não seria possível fazer com que tais utentes passassem previamente pelo purgatório? -  questiona um  leitor, perito em Teologia. Meu Deus, como o entendimento de coisas fáceis é tão tremendamente difícil.
E entretanto entre a escrita desta verborreia e a sua leitura, alguém me saberá dizer quantas crianças morreram já com fome?