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Andre de Dienes (1913-1985) - Marilyn Monroe |
Há
umas duas semanas, antes de um jogo de Portugal para o Mundial,
publiquei no Facebook uma fotografia de Andre de Dienes - fotógrafo
americano de origem húngara (1913-1985) que se celebrizou pelas suas
fotos de Marilyn Monroe, entre outras estrelas cinematográficas, e
pelos nus artísticos - com uma jovem nua na praia em ginasticada
posição acrobática como quem dá um pontapé no ar. Com pretensão
humorística, acrescentei o seguinte comentário: “Com este ponta
de lança a nossa equipa seria outra coisa”. Cerca de 10 dias
depois recebi uma intimação do Facebook para retirar essa foto,
caso contrário o meu acesso seria bloqueado, pois uma alma generosa
e protectora dos bons costumes tinha denunciado a natureza obscena de
tal imagem.
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Andre de Dienes (1913-1985) - Nu (1940) |
Convém
referir que, numa 1ª fase, o “gestor” e “guardião da pureza”
informou-me da queixa e da intenção de analisar previamente a
diabólica imagem e assim agir em conformidade. Numa primeira reacção
de indignação, publicitei no meu portal a arbitrária ameaça e,
para provar a minha “inocência”, republiquei a foto e o
respectivo comentário. Para meu espanto (santa ingenuidade!), alguns
segundos depois o meu acesso fora bloqueado. Deste modo, fui
compelido a retirar imediatamente a imagem “satânica”. Houve
mesmo quem me sugerisse que a denúncia dever-se-ia provavelmente
mais ao comentário, considerado corrosivo pelo patrioteiro
denunciante, mordido pela miserável prestação da equipa nacional
do que pelo simbolismo da imagem. Para o caso tanto faz!
Sei
que este tipo de interdições, embora aleatoriamente, constitui uma
prática dos gestores do Facebook, mas naquele momento senti-me na
pele dos acusados da Santa Inquisição, pois era castigado sem a
possibilidade de defender a minha posição ou conhecer a identidade
do denunciante. Como era comum naqueles malfadados tempos, bastava
alguém embirrar com o nariz do parceiro do lado para o denunciar por
práticas heréticas. Também durante a nossa ditadura a “bufaria”
fazia parte do quotidiano dos cidadãos. Denunciar alguém era para
muitos um prazer “mórbido” ou um acto do qual esperavam uma
compensação do poder totalitário vigente.
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Felice Casorati (1883-1963) - Midday (1923) |
Agora
temos de novo em cima de nós um Olho Vigilante, sempre que pisamos o
risco. O problema está no facto de não sabermos exactamente onde
passa esse “risco”, embora, convenhamos, os códigos do Facebook
coloquem as razões do falso pudor acima dos valores estéticos.
Estamos de novo no reino do absurdo.
Lição:
limita-te a publicitar flores, gatinhos e outros animais de
estimação, desde que obviamente não sejam predadores, paisagens
tipo carta-postal, fotos de ti em jeitos diversos mas com pudor,
inocentes aforismos e outros produtos do universo “kitsch”. Desse
modo, poderás ter a ilusão de que intervéns neste mundo
globalizado, gerido pelos nossos estimáveis “Big Brothers”, sem
sobressaltos. Quanto à distinção entre Arte e Pornografia, isso é
apenas conversa fiada de pseudo-intelectuais. Aqui deixo, segundo
espero, o objecto do meu crime. Espero no entanto a absolvição
depois da minha morte! Lastimo perder o meu tempo e o daqueles que
tiverem paciência de ler este arrazoado, mas tinha de desabafar. É
o que nos resta!
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Andre de Dienes - Nu (o objecto do crime) |
Olá Dr. Vítor
ResponderEliminarTambém eu, em tempos, não no Face mas num outro espaço blogueiro, fui confrontada com algo semelhante.
Havia publicado a foto de um menino índio, de uma etnia que já não retenho, num contexto de "perfis humanos".
O menino estava nu, tinha a cara pintada de acordo com a sua tribo ... nada de mais. creio.
Fui intimada a retirá-la. Como não o fiz, "saquearam-me" todos os álbuns de fotos que eu tinha, sob os mais variados temas, retirando as fotos que muito bem entenderam, deixando os respectivos "buracos" e nunca mais mas devolvendo, apesar de ameaça de tomada de outros procedimentos legais, por usurpação de bens pessoais.
Os textos escritos, salvei-os "in extremis" ( passei uma noite inteira a imprimi-los )...
É a sociedade, o país que temos ... os cidadãos inclassificáveis que nos rodeiam... Enfim !!!
Um abraço