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Gustave Courbet - O mar em Palavas (1854) |
O mar
De onde vem o fascínio do mar
o sussurrar dessas maresias de ternura e medo
íntimas vozes no deserto do ar
A poesia é a tensa escuta
desse rumor da nossa orfandade
o terso silabar de um búzio
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Júlio Pomar - Mulheres na Praia (1950) |
Paisagens
rostos hirtos areia
braços que espreitam
por entre gretas e medos
casas ósseas peixe magro
redes mergulhadas
nas carnes
como veias
vultos embebidos na mesma morte
cabeças cavalgando o meu sangue
Pierre Puvis de Chavannes - Jovens à beira-mar (1879) |
Jovens à beira-mar
Flutuantes e tristes
Corpos de fronteira
Perdidas na solidão das falésias
Esquecidas
Entre flores marinhas
Como se voassem
Por dentro
Sereias amputadas
Entre a terra, o céu e o mar
Que espera e meditação as ocupa
Na desnudada paisagem dos seus corpos?
Donzelas
Estátuas volantes do desejo
Na clausura dos interditos
Uma tacteando os longos cabelos
Confrontando o mar
Outra de costas
Num desespero de quietude
Outra
Numa aparente indiferença do olhar
Ocupam na lassitude dos corpos
O pesadelo das paixões sem objecto
Figuras no território das definitivas esperas
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Turner - Pôr-do-sol |
Poente
Sente-se um hálito roxo no entardecer
Objectos esparsos a nascer
Sobre a terra
Corpos ociosos
Dançam nas dunas
Como se celebrassem
Os silêncios do acontecer
Nem uma folha a morder o cio do ar
Nem o múrmur dos ossos
Nas areias da paisagem
Nem vermelhos solsticiais
A derramarem-se nas meninas do olhar
Apenas sons longínquos de remos a ciar
Rumores perdidos a navegar
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Caspar David Friedrich - Nascer da lua no mar (1822) |
Obrigado Vítor, por mais este preencher dos nossos respirares. Ainda as belas e magníficas reproduções que tão bem se ligam às palavras.
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