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Mark Rothko - Ocre e vermelho |
Nas redes sociais, há quem morda com os dentes
da alma, outros com os do cão desdentado. Ninguém leva a mal, mesmo os
pesadelos deste mundo virtual. Há quem suspire de solidão, outros de
insatisfação. Há quem imagine o outro ideal à beira da sua mão. Há quem invente
amantes ao sabor das suas ficções. Há quem seja camaleão, sendo verde se faz
amarelo, de amarelo vermelhidão. Há narcisos para todos os gostos, mas também
quem procure elos na escuridade da solidão. Há quem tenha cem anos e escassas
rugas dos olhos de 20. Há quem se disfarce da criança que nunca foi. Ou, em
barrocas sinédoques, diga aqui estou eu: um pedacinho de pescoço, o barco à
vela panda, o rosto vazio, o fantasma espalmado, o brinco de princesa, o colar,
a flor de lis, o rego do desejo, o sinal negro do peito, o rabo do gato. Há
links, likes, posts and comments. Há quem veja tudo a preto e branco ou quem
não distinga o preto do branco, enquanto outros vêem-se a implodir em
pancromáticas festas dionisíacas. Há fotos do artista enquanto jovem, da mãe,
da amante, dos avós, dos amigos em eufóricos convívios ou simulados tagatés. No
recanto do jardim, na montanha, na orla do mar ou do vulcão. Há muitos vídeos
de paisagens, sobretudo crepusculares, e corpos em manobras rosas, com músicas
melosas, tipo jardim das delícias para enamorados em cios de lua cheia. Mas
também há vídeos musicais sublimes, daqueles que nos fazem sentir o dedilhar da
mão de Deus. Há muita poesia, boa, má, assim-assim. Há poetas esquecidos,
outros por esquecer, outros a amanhecer. O importante é escrever. Infinita é a
paciência do teclado. Há músicas que nos enlevam, outras que nos matam de tédio
ou de bolor. Erudita, popular, popular-erudita e erudita- popular. Uns dizem
gosto, outros desgosto, outros nem por isso. Há quem diga, foi tão bom, Ninó,
mas já passou, para o ano há mais. Não caias em nostalgias! Há quem se baste
com o contacto ou com o toque, estou aqui, alguém está lá? Há chats e chatos,
mas outros de humor corrosivo. Convém estar atento a estes casos, pois podem
corroer o computador. Pior que os vírus! Mas há também quem respire de tédio,
num arfar tão forte capaz de corromper a rede. Estes são os mais perigosos. Há
narcisos e rosas de Santa Terezinha. Lol e fol, fol e lol. Corações negros e
bolas de cristal. Círculos de riso amarelo de tanto rir. Mas há também quem
chore, para dentro, obviamente. Há jogos, causas e jogatanas para todos os
paladares. Podes mesmo plantar alfaces no teu ecrã imaginário e exportá-las
para a Cochinchina, com a vantagem higiénica de manteres as mãos imaculadas.
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Magritte - Ceci n'est pas une pipe |
Há
floras suspeitas, canções de ódio e de amor, esgares de revolta. Crepúsculos e
ressurreições na paisagem dos corpos. Há quem abane fantasmas pelos corredores
do medo. Há Big Brothers a vigiar masturbações, subversões e outras corrupções
- nus em pose ou pousados em sossego,
falos gastos de tanto uso, escorpiões cravados nas gargantas, vozes a apelar à
sensata utopia de acabar com a indignidade e a exploração. Cuidado com os
apelos à louca ideia de mudar este mundo! Há quem diga mal dos políticos que
nos lixam, mas tudo dá em catarse. Ao menos, nesta democracia mediática,
podemos caricaturá-los, dar-lhes safanões, calcá-los, roer-lhes os ossos, que a
terra não treme nem as grades se fecham por tal escárnio demolidor de ídolos de
barro. Há também quem defenda a Terra, mas nunca tenha posto os pés na terra. Há
gatos e cadelas a ronronar nos colos das Madonas. Dinossauros de laçarote
estendidos na areia dos desertos da Líbia. Corpos esfíngicos de bronze em
Carcavelos ou Copacabana.
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Chirico - O Enigma do Oráculo |
Mas Apocalipse, como dizem algumas más-línguas com piercings de inveja, por aqui só se for
português-suave. Eu faço aqui a minha psicanálise, barata e com rede. Tenho mil
amigos que nunca vi nem verei. Outros mil na janela da minha expectativa. São
os meus fantasmas mais fixes e os meus sábios analistas. Em suma, os meus
amigos mais fiéis. Nunca me traem, como me traíram os da outra “vida”. Eu adoro
o FB ou o Google, este universal desvario de triliões de sinais. Odiava o caos,
mas este tornou-se progressiva e intimamente a minha casa. Estou só na companhia
das infinitas vozes do universo. Aqui todos podem criar o seu mural, a sua cronologia,
as fotos do seu ser vertebral ou o invertebrado, a sua inaudita ficção pessoal,
e voar para lá do cabo do mundo. Posso disfarçar-me de rei, imperatriz,
meretriz ou pedinte. A propósito não têm uma aspirina para a dor de calo? Hoje
já fiz a minha revolução: a sexual, a política, a ecológica e a doméstica. Amanhã
com a ajuda do Deus cibernauta outras mil me esperam. É só teclar, publicar e
esperar. O mundo está rendido a meus pés. Se isto não é o Paraíso, eu me chame
Pantaleão. Estou aqui tão concentrado que já não reparo nos corpos e paisagens
ditas reais. Afinal real, mesmo real, é este mundo virtual. O mundo sou eu e as
formas vazias que preencho ao sabor das minhas fantasias. E sabem que mais,
aqui tornei-me imortal, nem as Parcas se atrevem a entrar neste reino divinal.
Bolas! Finalmente sou feliz! E atirei com o meu psicanalista para o desemprego.
PS- Este “post” encontrado amarfanhado,
num contentor de um afamado hospital psiquiátrico da capital, contém conteúdos
que não se identificam com as opiniões do responsável deste blog. Resolvemos
apesar de isso publicá-lo, enquanto testemunho de uma vida inteiramente votada
ao universo das redes sociais.
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Paul Klee - Monument in Fertile Country |
Pois seria de alguém para quem o mundo é uma infâmia. Sete vidas já gastas e novas emprestadas de ousar. o silêncio da noite tem uma esquizofrenia cor de rosa. A " burca" virtual perdeu o ser que acompanhava Édipo.
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