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Pierre-Henri de Valenciennes - Na Vila Farnese - Os dois choupos (1770) |
Hoje puxado pela efeméride
apetece-me falar de coisas simples. De árvores e de pedras. Raul Brandão
(1867-1930), que nunca apreciou a classe política do seu tempo, mas amou sem
retórica a natureza e os humildes fez, em 1901, este singular comentário: “Há
neste doce país o desprezo da flor – a não ser que ela se possa trocar em moeda
corrente. Não é raro vermos numa praça pública abater-se sem protesto uma
árvore. É até vulgar!... Quando a árvore começa a ser bela, esgalhada e enorme,
cheia de ruídos e de sombra, surge o vereador e corta-a, sem imaginar, sequer,
que mais vale um simples e humilde plátano do que um conselheiro de Estado. O
político é inútil… Faz mais diferença à natureza o assassinato de uma grande
árvore, que dá sombra e frescura, que tem a alta missão de purificar a
atmosfera, do que a morte de meia dúzia de conselheiros de Estado gravíssimos e
calvos. Perdoem-me!...” (“Maio”, A pedra
ainda espera dar flor – Dispersos, Quetzal, org. de Vasco Rosa, p. 20).
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Paul Cézanne - La Montagne de Sainte-Victoire (c. 1885) |
Mudam-se os tempos, mas por aqui
não se mudam as vontades. Há dias li num jornal o protesto de alguns munícipes
de Cascais contra o abate de plátanos junto ao Mercado. Problemas de
parqueamento, segundo parece, na razão camarária. Os vereadores deste país,
tirando raras excepções, continuam com a mentalidade do visado por Raul Brandão
em 1901. O panorama não difere muito do dos outros concelhos do país. Como já
referira Almeida Garrett, “há muito pouco entre nós o culto das árvores” (Viagens na minha terra, 1842). É bem uma
questão de cultura, isto é, de “provincianismo” alarve. Esta mentalidade está
bem mais enraizada do que as mais nobres e seculares árvores deste país. Na sua
soberba de betão e rotundas, em relativa falência com esta crise, os autarcas e
o poder central vêem nas espécies arborescentes um estorvo às suas políticas
“desenvolvimentistas”, com excepção dos eucaliptos, ou à sua visão curta de
estereótipos turísticos. Árvores abaixo, pois precisamos de espaço para os
paradisíacos e “ecológicos” campos de golfe, um chamariz para turistas fartos
de ver árvores nos seus países de origem.
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Carl Blechen - A Torre do Castelo de Heidelberg em Ruínas (1830) |
Claro que a pedagogia ambiental
devia começar nas escolas, ou melhor, na relação saudável das crianças com a
paisagem arborizada. Nós estamos apenas em trânsito pela terra, daí a
necessária humildade na coabitação com a biodiversidade. Se a hegemonia dos
números, ainda por cima mal contados, não fosse apanágio da nossa classe
política, talvez não estivéssemos em bancarrota. Falta aos nossos actores
políticos uma verdadeira cultura humanista ou pelo menos aprender a escutar, em
silêncio ritualístico, a música sussurrada pelas árvores. Depois poderiam
seguir, um pouco mais sábios, nos seus potentes automóveis, para as suas
reuniões de “salvar o mundo”. Hoje é o dia da Terra, que continuará caso haja
vontade dos homens e dos deuses. Ah! Esqueci-me de falar das pedras… Fica para
a próxima!
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Félix Vallotton - Les alyscamps, soleil matin (1920)
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Félix Vallotton - Paysage (1918) |
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Abel Manta - Rua de S. Bernardo (1928)
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Pierre-Henri de Valenciennes - Vista do Monte Cavo sobre o Lago Albano (1782-84)
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Excelente artigo, como sempre magnificamente ilustrado. É muito curioso o que diz porque me fez lembrar um ensaio que li há uns anos, de Juan Goytisolo, intitulado España y los Españoles. Neste livro há um capítulo ou uma parte dedicada ao ódio que os Espanhóis supostamente têm às árvores. Vou tentar encontrá-lo na net e, se der para copiar e não for muito extenso, coloco aqui a citação.
ResponderEliminarUm abraço.
POR AGORA SÓ VOU PARTILHAR, PORQUE MERECE UMA LEITURA ATENTA. COMO SEMPRE. ABRAÇO
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