sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Cafés, Tertúlias e Memórias


Almada Negreiros - Retrato de Fernando Pessoa
 Segundo G. Steiner, "A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa [...]. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos [...] em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. [...] Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa» (A Ideia de Europa). 
Desde a adolescência fui um frequentador assíduo de cafés. De manhã, mal saía de casa, o café era o meu espaço privilegiado. Muitas vezes uma "bica" dava para uma manhã inteira. O dinheiro não abundava. Lia, reflectia e conversava com os amigos que iam chegando a esse lar aberto a todos os interessados. Foi por ali que aprendi muito do que sou hoje, mais talvez do que na escola ou na universidade. Naquele tempo, esse espaço mágico atravessava e congregava diferentes gerações e até pessoas com diferente estatuto económico-social. Era frequente os jovens terem à mesma mesa gente na casa dos 40 ou mesmo mais. Os meus cafés desse tempo eram sobretudo o Ribamar e o Tamar, em Algés, por circunstâncias de proximidade habitacional. Algés não era, como hoje, um dormitório de Lisboa, mas uma aldeia às portas da capital. Houvera também um outro café, o velho Cristal (se a minha memória não atraiçoa o seu verdadeiro nome), com a estrutura em ferro e uma singela escada em caracol que conduzia ao 1º andar. Porém, este seria destruído, em inícios da década de 60, para dar lugar a um monstro de betão (o Catavento) que ainda funcionou como café e depois como supermercado. Hoje ainda não tive coragem para verificar a sua actual vocação.
Por esses cafés paravam algumas figuras ilustres da nossa cultura. Lembro, por exemplo, Manuel Ferreira e Augusto Abelaira que ora liam ora escreviam fragmentos das suas obras. Também Vasco Graça Moura, então estudante de Direito, se embrenhava nos calhamaços do seu curso - não sei se terá escrito aí alguns poemas dessa época. Havia ainda os conspiradores sempre desconfiados dos ouvidos atentos da mesa ao lado, possíveis pides ou meros informadores. No fundo éramos quase todos conspiradores, uns menos outros mais, naquele tempo ditatorial que ia corroendo os nossos desejos e sonhos juvenis. Mas os nossos projectos eram muitas vezes mais teóricos do que práticos. A queda do regime era mais uma ansiosa espera do que actividade real. Nem em todos obviamente. Nos cafés também se passavam de mão em mão planfletos ou livros clandestinos. Fumava-se muito nos cafés, pois apesar das muitas proibições do regime, contrariamente à actualidade, podia-se fumar em espaços fechados (a saúde pública não era ainda uma prioridade). Havia apenas um inconveniente para aqueles que se arriscavam a trocar os fósforos pelos isqueiros, ao poderem ser surpreendidos pelos fiscais que controlavam as licenças para seu uso. Caso não as tivessem eram multados. Um modo bizarro, dizia-se, de Salazar proteger a indústria fosforeira nacional.
Também se namorava. Às vezes tudo começava com um ligeiro encosto de joelho com joelho sob a mesa, uma involuntária voluntariedade. Claro que os gestos amorosos tinham os seus limites. A moral sexual era muito rígida e serôdia, sobretudo no que dizia respeito à sua exibição pública.
Os proprietários de alguns cafés é que não apreciavam muito estes consumidores de "bica" por uma manhã ou uma tarde. E começaram a afixar uma tabuleta onde se dizia expressamente: "É proibido estudar". Isto num país com tantos analfabetos! Mas negócio é negócio, e eles lá tinham de sobreviver.
Discutia-se filosofia, arte e política. Discutia-se muito. Embora por vezes os diálogos fossem substituídos por monólogos a três ou quatro vozes. Nem todos sabiam o mesmo. Havia gente de leituras várias, outros nem tanto. Mas acabávamos todos por aprender alguma coisa.
O café era um lugar de espera, de meditação e de boatos. Aliás, não se poderá escrever uma história da nossa cultura moderna ou uma sociologia da cultura sem uma geografia dos cafés das principais cidades e vilas do país. Românticos, simbolistas, modernistas, neo-realistas e surrealistas sacralizaram à sua maneira muitos desses lugares. As tertúlias iam surgindo ao sabor dos tempos culturais e políticos, algumas com vida efémera outras com vida mais longa. O café era um espaço de convívio e de confronto de ideias. De preguiça esperançosa, também. E de tédio, quando a espera do tempo novo nos exasperava. E nada se passava.
Almada Negreiros - Auto-retrato num Grupo
Em Algés, durante o dia, escolhíamos sobretudo o Ribamar, pois as suas paredes envidraçadas deixavam passar a luz com abundância, mesmo em dias soturnos, e permitiam-nos prolongar o olhar sobre o rio, numa cumplicidade entre o mundo interior e a paisagem. Mas à noite era o Tamar o nosso preferido. Ou melhor, o seu longo corredor, uma extensão que separava os consumidores da "bica" nocturna e o salão de chá destinado aos "burgueses" mais acomodados. Nesse corredor, mesas de um lado e do outro, misturavam-se estudantes, aprendizes de poetas e funcionários de serviços, todos identificados com a oposição ao regime. Era um mundo simultaneamente aberto e fechado. Um espaço rectangular mais ou menos controlado e reservado a dialogantes contestatários. Depois as longas noites, sobretudo no Verão, dispersavam-nos por tascas, cervejarias (o Relento fechava às 4 da manhã), ou em deambulações sem nexo pela marginal de Algés. Naquele tempo éramos felizes? Talvez não. Por isso havia os que partiam, quando se conseguia passaporte, algo problemático a partir do início da guerra colonial, sobretudo para Paris, a cidade-quimera da nossa geração, onde a liberdade possibilitaria a virtualização dos nossos desejos.Hoje a maioria dos cafés foi desaparecendo ou foram-se transformando em híbridos e bizarros snacks. Alguns sobreviveram; é por isso urgente fazer a sua história e cartografia. Entretanto muita coisa mudou. Os livros sobre as mesas dos cafés vão sendo substituídos por minúsculos computadores. Outras formas de ler e de ser. Os modos de convívio alteraram-se, os escritores fecham-se em casa e os poucos leitores (aliás, em Portugal nunca foram muitos) também.
Será possível reinventar o espírito das tertúlias? Ou será apenas uma esperança de velhos caturras que querem teimosamente reencontrar o seu passado no presente?


4 comentários:

  1. Ola Pai, adorei o texto! Morro de saudades dos cafes europeus, mesmo que ja nao sejam os centros de convivio que eram antes. Beijinhos!

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  2. Achei graça ao teu texto sobre os cafés, porque ontem ( 29.01) Escrevi o seguinte:" E, por falar nisso, o que nós aprendíamos à mesa do Tropical! Grandes tertúlias, onde nós mais novos e mais novas aprendíamos, sobretudo, com os mais velhos e com as conversas em que eles nos deixavam participar. E quando falavam de alguma coisa que não sabíamos, não desatávamos logo a perguntar. Calávamo-nos, fingíamos estar a acompanhar e depois lá íamos fazer as nossas pesquisas (ainda que ainda não houvesse a www), porque tínhamos pudor em expor a nossa ignorância. Mas aprendíamos coisas novas. "
    De maneira diferente, porque o tempo também é ligeiramente diferente, acabamos por reconhecer que também aí aprendemos muito.
    Um abraço Gi

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  3. Tb gostei do texto, Vitor. Isto pq eu vivo numa cidade onde ainda há alguns cafés com essa missão. Gi, tb me lembro muito bem das tertúlias do Tropical e qd tu entravas e dizias: hoje que estou tão gira não está cá ninguém para me ver!!!

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