Praceta das Amoreiras, nº6-4º dto
Rinchoa- Rio de Mouro
D. Augusta,
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Pintura de Alberto Giacometti |
Claro que a morte é, em última instância, um acto solitário, mesmo no anonimato do espaço hospitalar ou outro. Mas o teu corpo putrefacto ficou, sem tua vontade ou responsabilidade, como um símbolo ou uma sinédoque do abandono a que a grande cidade sujeita milhares de velhos, os eufemisticamente idosos. Mas não só, tu és também um símbolo do horror "urbanístico" que as sucessivas autoridades autárquicas foram permitindo no concelho de Sintra e em todo o país. Estes subúrbios da capital tornaram-se um verdadeiro inferno-dormitório - basta uma viagem de comboio entre Sintra e Lisboa para nos elucidar parcialmente do horror deste caos de betão.
És o dedo apontado, sem o saberes ou quereres, a uma sociedade que substituiu o sentido da comunidade por um dito "individualismo" corruptor dos valores da cidadania, isto é, dos valores inerentes a uma verdadeira cidade. E a tua casa nem sequer estava num ermo. Vivias a 50m da estação de comboios, num prédio de 5 andares, com 3 apartamentos por piso, e na tua praceta até havia um café. De facto, andamos todos muito distraídos com a crise financeira e quando chegamos a casa, já tardiamente, apetece-nos apenas olhar para o ecrã mágico e adormecer. Não temos tempo para os outros. Por isso, nesses blocos de cimento dos subúrbios, cada "vizinho" é um estranho quando não alguém potencialmente hostil. Os outros são o inferno, como diria Sartre. A acrescentar a isto há que assinalar o profundo corte no convívio entre as várias gerações. À convivialidade dos velhos bairros sucedeu este mundo suburbano de alheamentos e isolamentos. O outro é uma entidade inimiga a não ser que seja marchetado a ouro, o antigo bezerro d´oiro. E se não fossem as janelas abertas da tua casa (estávamos no mês quente de Agosto), com a invasão de moscas e sequentes larvas, o que teria acelerado a tua decomposição, julgar-se-ia um milagre o teu corpo não emanar o odor da putrefacção e da morte. Por isso, as pituitárias dos concidadãos não foram minimamente incomodadas. Aparentemente tudo decorria na normalidade do quotidiano suburbano. Se vivesses numa aldeia do cada vez mais desertificado mundo rural, o teu corpo não teria tal destino, pois alguém teria dado de imediato pela tua falta. O teu caso é tão exemplar que, num lugar-comum, poderíamos dizer que a tua realidade ultrapassa de longe a ficção.
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Pintura de Arnold Böcklin |
Ao menos que o teu caso (um "case study", diriam os americanos) sirva para que os líderes autárquicos, os políticos, os urbanistas, os arquitectos, os sociólogos, com os empresários da construção a reboque, comecem a pensar na urgente humanização da vida urbana. Sei que isto é mais um desejo meu do que uma futura realidade imediatamente concretizável, mas sabe sempre bem dizê-lo. Façam cidades onde a sociabilidade seja possível e contribuam para a criação de estruturas sociais onde a única solidão admissível seja aquela que decorre da própria opção dos cidadãos. E sobretudo não deitem para o lixo os velhos (perdão, os idosos). Reformas decentes, assistência médico-social normalizada e espaços urbanos, onde apeteça estar e conviver, não serão uma panaceia para os dramas do envelhecimento e da morte, mas contribuirão de facto para uma maior dignidade de todos.
Certamente estarás de acordo comigo, D. Augusta.
Cá temos, outra vez, o tema da morte - cativante! Ando a ler "La carte et le territoire" (prémio Goncourt), do Michel Houellebecq, aqui autoficcionado como personagem do romance, que vem a ser vítima de um assassínio bárbaro. Vale a pena, ainda que para o fim, a meu ver, a história "desiquilibra-se".
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