sábado, 19 de março de 2011

Como a Crise me vem afectando...

 Carel Willink, (Holanda,1900-1983), Paisagem com estátua caída, 1942.



A palavra crise está, entre nós, de tal modo inflacionada que corre o risco de se esvaziar semanticamente. O país está em crise (financeira, política, social e moral ), o mundo também, embora menos, e cada um de nós o está por arrastamento. A crise vem coabitando connosco diariamente através das vozes da rádio, da televisão, da imprensa e da internet: uma verdadeira obsessão hiperbolizada com os contornos sociopolíticos desta conjuntura.
Quando acordo já estou em crise e os meus sonhos tornaram-se pesadelos crisológicos. De dia nem vale a pena falar, tornou-se tão insuportável que até experimentei pôr uns tampões nos ouvidos e umas vendas nos olhos por causa das legendas. Não resultou, pois a crise já se tinha instalado subrepticiamente nos meandros do meu cérebro. Não sei mesmo se não me transformei já numa crisálida da crise. Por isso evito os espelhos e mesmo o olhar dos outros. Tudo isto envolvido em remorso, pois a responsabilidade é simultaneamente individual e colectiva, para uns mais do que para outros, obviamente.
Mas quando a crise, a literal, implodir já ninguém dará por isso, tal o hábito interiorizado de com ela convivermos – cogita a parte ainda lúcida do meu ser.
A crise é um sobressalto, não pode ser um habitante permanente do nosso quotidiano, a não ser que estejamos já a navegar na nave dos loucos. Ou estejamos já a viver em pleno apocalipse.
Segundo alguns “sábios” – é uma hipótese a considerar -, crise seria o intervalo, sempre expectante, angustiante e doloroso, entre algo que está a depauperar-se ou a morrer e o que está ainda por nascer. Ou, como diriam os românticos, o intervalo entre o já-não e o ainda-não.
Crise, por outro lado, não é o mesmo que catástrofe, embora a nível do senso comum os conceitos se confundam. As crises podem, no entanto, ser premonitórias das catástrofes, por ex. em economia, sinais da iminência da bancarrota de um Estado. Deste ponto de vista, a catástrofe pode ser uma actualização das latências implícitas nas crises.
Mas há outro tipo de catástrofes, sobretudo as chamadas naturais, que possuem algo de aleatório e imprevisível, tal o caso do recente sismo no Japão, e portanto o sentido da tragédia, pois podemos atenuar os seus efeitos a posteriori mas não evitá-las. É por isso um fatalismo.
Em sentido lato, entramos em crise quando o nosso sistema de segurança ontológico está em declínio, algo que nos pode aproximar da imagem do caos, e ainda não encontrámos um novo sistema de valores que nos reabra o sentido da vida. Mas o caos também pode conter uma dimensão criativa: à desordem do mundo envelhecido (o caos) sucede uma ordem renovada. É este o sentido expresso pelas antigas  cosmologias.
Deste modo, uma crise pode não ser negativa, se analisada como um momento necessário à mudança e à renovação.
É, num outro plano, o caso das chamadas crises de adolescência que são crises implícitas e necessárias ao processo de crescimento juvenil.
Depois destas tergiversações um pouco caóticas, já me sinto a escapar ao estado de crisálida e a esvoaçar toscamente para outros mundos possíveis, alternativos ao mundo iníquo em que vivemos. Como terapêutica para a depressão nada melhor do que acabar esta história com um happy end

Sem comentários:

Enviar um comentário